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Saraiva de hotéis

Inaugurar 11 unidades em três anos é o objectivo da CS Hotéis. O empresário Carlos Saraiva quer alicerçar o novo grupo na qualidade.

Rosália Amorim

A Estrada da Outurela, que passa em frente à estação de televisão SIC, foi construída por Carlos Saraiva.



Urbanizar Carnaxide foi a sua primeira grande obra, em 1979, quando começou a trabalhar na Solatia, empresa de construção fundada por Joaquim Belchior, também dono das águas do Vimeiro e do Hotel do Vimeiro. "A empresa estava debilitada financeiramente e o fi lho do fundador, Carlos Belchior, convidou-me a ajudar na sua reabilitação. A minha tarefa, como director-geral era, sobretudo, urbanizar terrenos e desenvolver novos projectos.



Ao fim de dois anos o objectivo tinha sido alcançado." Antes, e enquanto terminava os estudos, passara pela Zagope, onde teve a sua primeira experiência como topógrafo, pela Soares da Costa e pela Edifer. "Nessa altura, já estava a dirigir obras e ainda a terminar o curso." O facto de já ser casado e pai de uma menina obrigaram-no a arregaçar as mangas.



Surgiu então o convite da Solatia e, para além da urbanização de Carnaxide, Carlos foi incumbido de liderar as construções no Algarve, acabando por se tornar sócio do patrão em edifícios de apartamentos em Tavira, Portimão e Lagos. "Eu tinha 15% do negócio e queria 25%. Como não chegámos a acordo, tive ali o meu último patrão", recorda, orgulhoso. "Em 1985 o mercado da construção estava a recuperar, havia mais procura e os preços subiam.



Criei então a minha primeira empresa, começando por construir para terceiros, e comprar lotes de terreno urbanizados e com projectos aprovados, que construía e vendia. Numa segunda fase comprei terrenos antes mesmo de urbanizar, fazendo todo o processo até à venda. E na terceira fase entrei nos negócios do desporto e lazer", conta. Hoje movimenta-se em todos estes sectores, a que junta a área do turismo, com 11 hotéis projectados para os próximos três anos.



Este engenheiro civil de 45 anos, nascido no Porto, é filho de uma professora primária e de um engenheiro civil. "O meu pai dedicou a sua vida às obras do Estado Novo; por isso vivi em 13 terras diferentes antes de chegar a Lisboa. Com ele aprendi a transformar coisas difíceis em fáceis, e a ter firmeza sem perder a modéstia e a consciência dos valores. Estas foram as armas que ele me deixou para eu gerir." Carlos é actualmente sócio único do grupo que tem o seu próprio nome. "As minhas decisões são sempre assentes em autonomia.



Nunca gostei de estar dependente." O grupo Carlos Saraiva é composto por 15 empresas que em breve serão concentradas em apenas quatro nas seguintes áreas: construção, propriedades, turismo e exploração turística. "Reorganização que deverá estar concluída nos próximos dois anos", adianta. Hoje trabalham consigo, directamente, 350 pessoas. Com a entrada no ramo hoteleiro o número de colaboradores directos deverá disparar para 1100.



O grupo de Carlos Saraiva tem mais de 100 prédios construídos em Lisboa, garante o empresário. Os edifícios habitacionais alicerçam o seu core-business. "Nunca entrei na área de armazéns ou escritórios porque o mercado da habitação é mais constante.



É nele, e no segmento médio/alto, que me revejo." A urbanização Infante de Sagres, perto do Centro Cultural de Belém, é uma das suas obras emblemáticas. Foi também aqui que deu o primeiro passo na área da saúde e lazer, construindo um health club. Hoje o grupo factura 25 milhões de euros, tendo registado uma taxa de crescimento que rondou os 10% na última década, afiança o presidente.



Turismo pela diversificação



Carlos Saraiva está ligado ao turismo desde a sua infância, apesar de só agora apostar nesta área de negócio. Era no Hotel Avenida, no Vidago, pertença do seu tio, que passava as férias de Verão. "Vem daí a paixão pela hotelaria. Era um hotel que tinha sempre entretenimento e que me deixou boas memórias", recorda. Hoje é accionista dessa unidade familiar. Seguem-se outras.



A partir de 1980 começou a analisar o negócio e nos últimos quatro anos viajou pelo mundo inteiro, contactando operadores e hoteleiros. "Viajei muito, mas aprendi sobretudo com Espanha. Na década de 60 aquele país nada tinha e agora dão cartas." E adianta: "O estudo que fiz revelou uma enorme carência de hotéis de cinco estrelas em Portugal e um potencial enorme de desenvolvimento para os SPA." Carlos Saraiva prepara-se para inaugurar o primeiro hotel a abrir as portas, no final deste ano, o Hotel Apartamento São Rafael, o primeiro cinco estrelas nesta categoria no continente português. Aliás, todas as unidades, concentradas em Lisboa e no Algarve, terão cinco estrelas.



"O investimento na CS Hotéis é uma forma de diversificação do investimento e do risco. E é uma aposta estratégica, pois visa colmatar o futuro declínio do sector imobiliário, devido à falta de terrenos livres que possibilitem empreendimentos de qualidade", revela. Ao todo serão investidos 370 milhões de euros, sendo 50% de capitais próprios e a outra metade crédito do Banco Espírito Santo e da Caixa Geral de Depósitos.



 

"O retorno é esperado dentro de sete a dez anos", afirma o presidente.

 

Albufeira é a grande aposta




Carlos Saraiva investe só em hotéis de cinco estrelas, nove dos quais estão equipados com SPA, e um com uma clínica médica, de cirurgia plástica e dermatológica, na Herdade dos Salgados, em Albufeira. O público empresarial também não foi esquecido, pois quase todos os hotéis têm salas de conferências. E na Herdade dos Salgados está integrado um centro de congressos com capacidade para 3 mil pessoas. É nesta propriedade que está concentrado o maior investimento: 276 milhões de euros.



Um centro de estágio de futebol, um clube de ténis para provas internacionais e um centro hípico são outros dos investimentos.



É também aqui que serão construídas seis das unidades, num terreno com uma frente de 7 quilómetros de praia e a envolvência da reserva ecológica nacional.



Em Lisboa o grupo terá dois emblemas: o Hotel Governador, instalado na antiga residência do que foi governador da Torre de Belém, ambiciona ser um hotel de charme, mantendo a traça original do palácio e a capela. Um investimento de 11 milhões de euros que contempla também um SPA.



 

"Pretende diferenciar-se da concorrência pela pequena dimensão; apenas 65 quartos e um SPA. Este terá a mais alta tecnologia, servindo os hóspedes e a comunidade exterior." O outro será o Hotel Barata Salgueiro, instalado num edifício do princípio do século xx, perto da Avenida da Liberdade.



Aqui pretende-se reeditar o cubano Floridita, bar onde o escritor Hemingway ia beber daikiris ao final do dia.



Carlos Saraiva é um empreendedor apaixonado pelo turismo, só lamenta que nenhum dos hotéis fique pronto a tempo do Euro 2004. "A culpa é da burocracia."