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Saiba quem são os 8 responsáveis pelos riscos financeiros, segundo o FMI

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O Fundo Monetário Internacional divulgou esta quarta-feira o "Global Financial Stability Report". Agora que os riscos macroeconómicos diminuíram na zona euro e no Japão, os técnicos falam de uma "rotação" dos riscos à escala global.

Em virtude dos riscos macroeconómicos terem diminuído, sobretudo devido à redução da probabilidade de recessão na zona euro e no Japão, houve uma "rotação" de riscos à escala global, chama a atenção o Fundo Monetário Internacional (FMI) no "Global Financial Stability Report"  (GFSR) divulgado esta quarta-feira em Washington.

José Viñals, conselheiro financeiro do FMI e diretor do Departamento de Mercados de Capitais e Monetários, sintetizou três movimentos dessa "rotação" global dos riscos: dos bancos para o sector bancário sombra; dos problemas de solvência para os de liquidez nos mercados financeiros; e das economias desenvolvidas (sobretudo zona euro e Japão) para as economias emergentes.

A impulsionar essa rotação estão oito fatores, a que convém, agora, dar toda a atenção: o sobreendividamento privado na Europa; o crédito mal parado nos bancos da zona euro; o sistema bancário sombra sobretudo na China; os movimentos abruptos no mercado cambial, com a valorização rápida do dólar norte-americano; o colapso do preço do petróleo; o risco de erros na gestão da subida das taxas de juro pela Reserva Federal norte-americana; a negociação de alta frequência nos mercados financeiros; e os riscos geopolíticos, incluindo o risco grego, que passou a ser explicitamente referido nestes documentos do FMI.

 

Zona euro continua em foco

Apesar dos riscos macroeconómicos na zona euro terem decrescido (com os técnicos do FMI a considerarem que a probabilidade de recessão e de deflação diminuiu em relação às previsões do ano passado) em boa medida graças à ação do Banco Central Europeu (que é elogiada), e da proteção global da zona euro contra o contágio na crise das dívidas soberanas ter aumentado, a região continua a estar sob máxima atenção. A atenção rodou, agora, para a dívida privada, o crédito mal parado, as seguradoras e a Grécia.

Há um sério problema de sobreendividamento privado na zona euro. O nível de dívida bruta do sector empresarial tem uma perspetiva de se manter acima de 70% do PIB em 2020 nos casos de Espanha, França, Itália e Portugal. O nosso país volta a ser citado, juntamente com o Reino Unido, em termos de projeção da dívida das famílias que deverá manter-se elevada em comparação com outras economias desenvolvidas. Apesar da melhoria da resiliência do sector bancário da zona euro, permanece um problema sério de crédito mal parado: mais de 900 mil milhões de euros. O FMI sublinha que estes riscos exigem mais do que o quantitative easing colocado em marcha pelo BCE, requerem um "QE mais outras políticas", disse José Viñals.

A política de taxas diretoras de juros dos bancos centrais muito baixas tem um efeito negativo, prejudica os investidores de longo prazo, particularmente as seguradoras europeias.

Acresce que o FMI juntou a Grécia como fator de risco europeu, ao acrescentá-lo no quarto desafio que lida com tensões geopolíticas. Já Olivier Blanchard, o economista-chefe do FMI, havia mencionado na terça-feira, em conferência de imprensa de apresentação do "World Economic Outlook", outro documento de referência, que no terreno "político e geopolítico" surge como "óbvio" o risco de "uma crise grega intensificada, que pode muito bem perturbar os mercados financeiros, algo que é razoavelmente óbvio".

 

Economias emergentes podem sofrer uma conjugação negativa

A outra rotação indica as economias emergentes como assoladas por diversos riscos. Inclusive pode haver uma conjugação negativa de três fatores: uma nova rápida valorização do dólar norte-americano, uma subida mal gerida e abrupta das taxas diretoras da Reserva Federal norte-americana (FED), e um disparo de riscos geopolíticos.

É de notar que o GFSR acentua os riscos ligados à condução da política monetária norte-americana. José Viñals disse explicitamente na conferência de imprensa de apresentação do documento que o cenário base de uma "normalização suave" da política monetária "não está garantido". No documento refere-se que "é perfeitamente concebível uma subida súbita de 100 pontos base" nas yields dos títulos do Tesouro a 10 anos (atualmente em 1,9%) logo que os mercados financeiros acordem para a probabilidade da primeira subida da taxa diretora de juros da FED. "Mudanças desta magnitude podem gerar choques negativos globalmente, especialmente nos mercados emergentes", avisa o GFSR.

O que agravaria uma situação já de si preocupante em virtude de três outros fatores em curso com impacto negativo nas economias emergentes: o colapso dos preços do barril de petróleo que afeta em particular as economias que dependem das receitas da exportação de crude; a valorização do dólar norte-americano provocando stresse nas economias e empresas endividadas em dólares, exigindo medidas micro e macroprudenciais; e a transição na China com o abandono do anterior modelo de crescimento.

Segundo cálculos da equipa de Vítor Gaspar, em média, para os exportadores de petróleo em todo o mundo, o declínio nas receitas fiscais é de 4 pontos percentuais do PIB. "É um enorme efeito", referiu Ben Clements, da equipa de Gaspar, na apresentação esta quarta-feira do "Fiscal Monitor", outro documento importante produzido pelo FMI para as reuniões da primavera que estão a decorrer em Washington.

A transição na China está sob máxima atenção. A mudança na política económica chinesa tem um impacto mundial relevante dado tratar-se da segunda maior economia do mundo. A questão, diz o FMI, é uma transição que provoque uma "correção ordeira dos excessos" do anterior modelo de desenvolvimento. O designado sistema bancário sombra chinês surge como preocupação central.

Finalmente, todos os desafios anteriores na zona euro e nas economias emergentes podem tornar-se ainda mais complicados num quadro de falta de liquidez dos mercados. Nessas circunstâncias, o potencial de contágio aumenta. Um dos vetores que pode provocar enorme turbulência é uma viragem acentuada para a negociação eletrónica de alta frequência.