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Rublo valoriza graças ao controlo "suave" de capitais

A moeda russa valorizou 34% face ao euro desde a derrocada a 16 de dezembro, no auge da crise cambial russa e de algum pânico financeiro global. O câmbio face ao euro regressou hoje aos níveis do início de dezembro.

O euro valia cerca de 64 rublos pelas 11h desta quinta-feira no mercado cambial. É o ponto mais alto de câmbio da moeda russa desde o início de dezembro. Em relação à derrocada a 16 de dezembro, quando o euro atingiu um pico histórico de 97,17 rublos e algum pânico financeiro atingiu um clímax nos mercados bolsistas europeus, a moeda russa já subiu 34%.

O comportamento do rublo, que tem estado positivamente correlacionado com o preço do barril de petróleo ao longo de 2014, dissociou-se, agora, da ligeira subida do preço do barril de Brent desde o pacote de medidas tomadas pelo Banco Central da Rússia e o Kremlin nos dias 16 e 17.

Até à crise cambial do rublo, se o preço do crude descia, o rublo desvalorizava, revelando um paralelismo notável. Mas, depois das medidas tomadas em Moscovo, o rublo valorizou-se 34%, mas o preço do barril de Brent apenas subiu 0,7%. Na quarta-feira, o barril de Brent chegou a cotar-se em Londres em 59,39 dólares, um valor próximo do mínimo de 59,12 dólares registado durante a sessão de 16 de dezembro, no pico da crise cambial do rublo e do surto de algum pânico financeiro.

O rublo prosseguiu a sua marcha de valorização, apesar dos preços baixos do barril de Brent em torno dos 60 dólares parecerem estar para ficar por uns tempos, atendendo à posição inflexível dos países do Golfo, que dominam o cartel da OPEP, repetida, esta semana, na 10ª Conferência Árabe sobre Energia que se realizou durante três dias no Abu Dhabi. Os ministros do Golfo apontaram o dedo aos produtores "irresponsáveis" fora do cartel e reafirmaram que não tomarão uma decisão unilateral de descida do seu teto de produção até à reunião de 5 de junho de 2015. O preço do cabaz de crude da OPEP desceu a 19 de dezembro para um mínimo de 55,52 dólares e subiu para cerca de 57 dólares nos últimos dias. Segundo um relatório do Departamento de Energia, os stocks de petróleo dos Estados Unidos aumentaram 7,3 milhões de barris na semana que fechou a 19 de dezembro, parecendo ilustrar a acusação dos árabes do cartel. O impacto da descida nos preços do barril em virtude do excesso da oferta de crude nos mercados é de 60%, segundo um estudo recente publicado pelo Fundo Monetário Internacional, assinado em coautoria por Olivier Blanchard, o economista-chefe. Esse peso deverá baixar para 45% em 2015, mas mesmo assim o efeito permanecerá elevado.

 

Medidas suaves para evitar a bomba atómica

A dissociação das curvas do rublo e do preço do crude deve-se, segundo o economista russo Constantin Gurdgiev, ao efeito de um "controlo suave dos capitais".  A agência Reuters, a 23 de dezembro, chama a atenção que o "controlo informal de capitais" estava a travar a desvalorização do rublo.

"De facto e de jure, as novas exigências junto das empresas controladas pelo Estado e o pedido para que as grandes empresas privadas reduzam os seus ativos em divisas estrangeiras prefiguram um controlo de capitais. Contudo, a redução é relativamente benigna e não representa um risco material para as operações dessas empresas", sublinha-nos o professor no Trinity College, em Dublin. Na realidade, afirma o economista russo, "as novas medidas tomadas pelo governo russo são uma tentativa de evitar introduzir um controlo de capitais pleno", de não avançar para o uso da "bomba atómica".

Na grave crise de 1998, as autoridades russas forçaram os exportadores a converter todas as divisas em rublos. Agora, a meta é que a 1 de março de 2015 as empresas tenham diminuído a suas reservas em divisas para o nível de 1 de outubro de 2014. As empresas que tenham de proceder a amortizações elevadas de dívida externa em 2015 estão isentas do cumprimento da regra. O Banco Central da Rússia (BCR) decidiu colocar supervisores nas salas de câmbios dos principais bancos públicos.

 

S&P ameaça cortar rating para "lixo financeiro"

Estas medidas surgem no momento em que o sentimento empresarial está no ponto mais baixo, com o indicador de confiança nos negócios a descer em dezembro para -10,2 pontos, depois de ter registado -8 pontos em novembro. O indicador está em terreno negativo há 19 meses consecutivos. A agência Standard & Poor's colocou a dívida de longo prazo russa em "observação negativa", o que significa que há 50% de probabilidade de cortar o atual rating de BBB- (o nível mais baixo da classificação de investimento de "grau médio inferior") para terreno especulativo (vulgo "lixo financeiro"). A análise da situação russa será concluída em meados de janeiro. A agência alega que ocorre "uma rápida deterioração da flexibilidade monetária da Rússia e um impacto no sistema financeiro do enfraquecimento da economia".

A avaliação da dívida soberana russa deteriorou-se. O preço de a segurar contra o risco de bancarrota subiu 144 pontos base em dezembro, segundo a Markit. O custo dos credit default swaps (CDS), os instrumentos financeiros usados, regista 441 pontos base, o que, no entanto, deixa a situação russa muito distante dos mais de 3000 pontos para a Venezuela, dos 2000 para a Ucrânia e dos mais de 1000 para a Grécia.

Desde 16 de dezembro, o BCR subiu a taxa diretora de juros para 17% (uma subida de 9 pontos percentuais desde 31 de outubro), anunciou um pacote de medidas para acudir aos bancos (uma primeira intervenção realizou-se no National Bank Trust, o 28º banco russo segundo o valor dos ativos, com um empréstimo de 30 mil milhões de rublos, cerca de 470 milhões de euros) e passou a supervisionar os fluxos de divisas nas empresas e entidades financeiras. O plano de intervenção nos bancos em 2015 aponta para 1 bilião de rublos (cerca de 15,2 mil milhões de euros).

 

Reservas descem abaixo de 400 mil milhões de dólares

As intervenções de mercado do BCR desde 28 de novembro - recorde-se que a reunião da OPEP se realizou a 27 de novembro - até 19 de dezembro já reduziram as reservas internacionais em 21,6 mil milhões de dólares. Só entre 12 e 19 de dezembro - abarcando o auge da crise do rublo -, as reservas internacionais emagreceram 15,7 mil milhões de dólares.

Na semana que findou a 19 de dezembro, o montante das reservas internacionais do BCR desceu, pela primeira vez desde maio de 2009, do patamar dos 400 mil milhões de dólares, registando 398,9 mil milhões de dólares.

Entretanto, a China veio em auxílio da Rússia. "A China é um parceiro estratégico insubstituível", afirmou-se no editorial do "Global Times", um diário muito ligado ao Partido Comunista da China. "A China deve adotar uma atitude pró-ativa na ajuda para a Rússia sair da crise atual", concluía o editorial. O que tem estado em cima da mesa é a ativação de uma linha de swap cambial entre o rublo e o yuan a três anos num montante de 150 mil milhões de yuan, cerca de 1,3 biliões de rublos (o equivalente a 20 mil milhões de euros). Este mar de rublos deriva do facto de que a moeda chinesa vale atualmente 8,4 rublos.