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Ricciardi acusa Morais Pires de ser interveniente direto em graves operações financeiras

José Ventura

O Expresso teve acesso à carta que José Maria Ricciardi vai enviar à comissão parlamentar de inquérito, em resposta às declarações de Amílcar Morais Pires

João Vieira Pereira e Sónia M- Lourenço

José Maria Ricciardi, ex-administrador do BES e presidente do Banco Espírito Santo de Investimento (BESI) acusa Amílcar Morais Pires, ex-responsável financeiro (CFO) e ex-administrador do BES, de ser "interveniente direto em graves operações financeiras que estão a ser objeto de investigação criminal". Essa é uma das expressões - fortes - usadas na carta que Ricciardi vai enviar ao presidente da comissão parlamentar de inquérito (CPI) ao caso BES, Fernando Negrão, e que dá resposta às declarações de Morais Pires na CPI na última quinta-feira, e a que o Expresso teve acesso.

Durante a audição de sete horas, Morais Pires apontou baterias a Ricciardi, dizendo que era uma pessoa "muito importante" dentro do banco. E com responsabilidades significativas: "Não é justo dizer que o seu nome constava só do papel. Era responsável pela área de risco com o Dr. Joaquim Goes. E era administrador comum do BES e da Espírito Santo International", a holding de topo do grupo Espírito Santo. Morais Pires considerou que o risco "não devia estar na mão do responsável pelo banco de investimento".

Ricciardi contrapõe, salientando que "deixou de desempenhar funções efectivas a partir de junho de 2012 no departamento de risco global, cuja gestão efectiva ficou na prática a cargo do Dr. Joaquim Goes". E refere: "É preciso deixar bem claro que jamais me apercebi da realidade das contas da ESI a não ser em novembro de 2013".

Na missiva dirigida a Fernando Negrão, Ricciardi reconhece que em julho de 2012 - já depois de ter deixado de desempenhar funções efectivas - o departamento de risco global realizou uma avaliação de rating da ESI, "na sequência do pedido formulado pelo Dr. Ricardo Salgado ao director coordenador do departamento, Dr. Carlos Calvário, avaliação essa que não obedeceu à tramitação habitualmente exigida". "E que não foi inclusivamente do conhecimento do administrador efectivo do departamento, Dr. Joaquim Goes", frisa, anexando documentação.

E parte para o ataque a Amílcar Morais Pires. "A venda e colocação de papel comercial destinada a cobrir o buraco financeiro da ESI aos balcões do BES, que já era reveladora de um inusitado aumento de prejuízo, não foi precedida de qualquer consulta ou apreciação prévia do departamento de risco global". Diz de seguida que "a decisão de vender o papel comercial aos balcões do BES competia ao departamento de gestão da poupança dirigido pelo administrador Dr. Morais Pires, sem qualquer participação da Direção Global de Risco". 

A mensagem de Amílcar Morais Pires na CPI foi de que Ricciardi tinha mais poder do que ele no BES, revelando um episódio, em que "quis fundir" as duas sucursais em Nova Iorque, uma do BES, que era "rentável, modestamente" e outra do BESI, que era "deficitária". "Nunca fui capaz", contou aos deputados, dizendo que chegou a propor o encerramento da sucursal do BES. "Só uma pessoa com poder pode bloquear" e essa pessoa era José Maria Ricciardi. "Se [eu] fosse braço-direito [de Salgado], nunca seria travado numa simples medida de internacionalização", disse,na altura. Ricciardi aponta, contudo, que se opôs ao encerramento da sucursal do BESI "por se tratar de uma unidade lucrativa, tendo sido o Dr. Ricardo Salgado a rejeitar o encerramento da sucursal do BES".

Numa expressão que já fez correr muita tinta, Morais Pires disse aos deputados que  "não era o faz tudo" e referiu que "o doutor José Maria [Ricciardi], como membro da família, de certeza que sabe mais do que eu".

Agora, José Maria Ricciardi acusa o antigo responsável financeiro do BES de pretender "não só camuflar a sua eventual responsabilidade com afirmações conclusivas sobre o meu desempenho, que não resistem ao escrutínio documental, como ainda desvalorizar a sua especial relevância dentro do banco, bem comprovada pela sua designação como substituto do Dr. Ricardo Salgado em junho de 2014".