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Ricardo Reis: "O problema português é, sobretudo, falta de crescimento"

José Miguel Teles/Visão

Para o economista português, o mais importante nesta altura é o Governo insistir que Portugal não é a Grécia e avançar com as medidas do PEC, adoptando algumas das sugestões do PSD. No futuro, fazer reformas estruturais é fundamental para aumentar a capacidade de crescer da economia portuguesa.

João Silvestre (www.expresso.pt)

Os mercados estão a exagerar e isto é tudo especulação, ou há mesmo razões para estarem preocupados com a sustentabilidade da dívida pública portuguesa?



Há duas razões fundamentais para o nervosismo desta passada semana. Primeiro, a revisão em baixa das previsões para o crescimento económico em Portugal do FMI na semana passada. O problema português é, sobretudo, um problema de falta de crescimento e muitos investidores já perceberam isso. Logo, qualquer adensar das dúvidas acerca da nossa capacidade de crescer nos próximos 5 anos, levarão alguns a preferir vender títulos portugueses tal como suspeito aconteceu em parte esta semana. Segundo, as hesitações alemãs acerca do pacote de auxilio à Grécia na segunda-feira. A inconsistência nas declarações vindas da Alemanha traz grande nervosismo aos mercados, e afecta todos os países na zona euro. Sendo Portugal um dos mais frágeis neste momento, acaba por ser também dos mais afectados por esta irresponsabilidade alemã.





O que é que o Governo português pode ou deve fazer para travar esta pressão nos mercados, no curto prazo? E a médio/longo prazo que medidas são essenciais?



No curto prazo, (i) continuar a insistir que Portugal não e a Grécia, com bem tem feito o governo e a presidência assim como muitos dos economistas portugueses quando falam com a imprensa internacional (como eu), (ii) admitir o nosso problema de crescimento e apontar para as medidas de médio/longo prazo (a seguir), (iii) controlar a despesa publica implementado as medidas do PEC rapidamente, adoptando muitas das sugestões do PSD, e preparando o terreno para medidas adicionais. A médio/longo prazo será preciso por a economia a cresce, para o qual poderao contribuir: (i) flexibilizar o mercado de trabalho, (ii) deixar de proteger os "campeões nacionais" nos bens não-transaccionáveis, mas antes estimular a concorrência, (iii) tirar o Estado da estrutura accionista de tantas empresas, com a distorção na composição doas órgãos gerentes e as ineficiências e incompetências que isto acarreta, (iv) reformar o sector da justiça, (v) alterar o regime do IVA e do IRS de forma a reduzir os custos efectivos do trabalho depois de impostos e assim promover a nossa competitividade, (vi) re-orientar os apoios governamentais para os sectores transaccionáveis e para longe dos sectores não-transaccionáveis, (vii) promover fiscalmente a poupança, (viii) controlar a despesa publica e admitir que com o nosso crescimento económico actual, não podemos sustentar um Estado social tão generoso como o dos nossos parceiros europeus.



É importante um acordo político entre os dois maiores partidos para dar garantias que as medidas vão mesmo ser postas em prática?



É importante no sentido em que as divisões politicas têm sido uma das fontes de preocupação acerca da Grécia. Haver um consenso político é menos um problema nesta altura.



É indispensável que a União Europeia, juntamente com o FMI, avancem com uma plano de ajuda à Grécia para acalmar os mercados? Devia haver uma instituição, uma espécie de FME, por exemplo, para lidar com este tipo de problemas?



O que é altamente dispensável é a hesitação e as constantes mudanças de opinião, avanços e recuos, por parte da UE e sobretudo da Alemanha. Só trazem incerteza e instabilidade aos mercados.