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Reunião do FMI: uma mão cheia de nada?

O comunicado final da reunião do Fundo Monetário Internacional em Washington refere em particular a crise da divida na zona euro, mas de concreto apenas destaca uma nova ferramenta de observação dos riscos mundiais.

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

Apesar da reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Washington DC ter assinalado "os perigos que a economia global enfrenta" nesta "fase perigosa", e da sua diretora-geral, a francesa Christine Lagarde, se ter desdobrado em apelos à ação imediata face ao que designou por "momento-chave e momento de escolha", o comunicado final, de concreto, oferece pouco.

O comunicado aplaude uma nova ferramenta de observação dos riscos mundiais, o Consolidated Multilateral Surveillance Report, e o objetivo de proceder a uma reformulação das quotas de participação dos membros do Fundo em janeiro de 2014 - um ponto sensível para as grandes potências emergentes.

O FMI defende-se, sublinhando que estes encontros anuais, não são momentos de deliberação, mas de discussão e para formar um consenso. Por isso, espera que "nas próximas semanas" - pois, como foi referido por Lagarde e outros, não "há muito tempo" -  os principais protagonistas se sintam à volta da mesa e avancem com ações de cooperação face aos problemas.

A bola estará, por isso, também, nas mãos do G20 - o grupo das principais potências desenvolvidas e emergentes -, mas a resolução que os ministros das Finanças deste grupo tomaram ontem, também, foi orfã de medidas.

Relaxamento da política monetária

No entanto quer Christine Lagarde, como o português António Borges, chefe do Departamento Europeu do FMI, sublinharam que sugeram às economias desenvolvidas uma "mudança com nuances" na política monetária face aos riscos que hoje se correm. "Esta política deve ser menos focada na inflação", pois há menos riscos de um surto inflacionário, o que torna possível "ter uma política monetária mais expansionista". Em suma, algum relaxamento na política monetária.

Um dos tópicos foi a crise da dívida da zona euro, tendo o comunicado da reunião repetido a necessidade de "implementação" das decisões da cimeira europeia de 21 de julho.

Christine Lagarde tinha dito ontem, na sua intervenção de abertura da reunião, que "os problemas podem ser, em larga medida, económicos, mas as soluções são largamente políticas". A questão continua em aberto, ainda que a diretora-geral do fundo tenha tentado convencer os presentes de que o FMI poderia ser "um facilitador".

António Borges realizou uma conferência de imprensa, em que anunciou que divulgará a 5 de outubro, em Bruxelas, o relatório sobre a Europa. O prato forte da conferência seria, no entanto, a Grécia.

O secretário do Tesouro norte-americano, Timothy Geithner, havia assustado a assistência agitando "uma ameaça de suspensão de pagamentos em cascata, de pânicos bancários e de um risco catastrófico". Por seu lado, o ministro das Finanças britânico, George Osborne, foi, ainda, mais contundente: "Têm seis semanas para resolver a crise". O prazo de seis semanas tem a ver com a cimeira do G20 em Cannes, a 4 de novembro.

Hipotético default grego tem custo pequeno

Referindo-se à Grécia o chefe do Departamento Europeu do FMI disse: "A ideia de que basta entrar em default e os problemas se resolvem está muito longe da verdade". Nem mesmo o incumprimento será a varinha mágica.

No entanto, o responsável do FMI desdramatizou o que chamou de questão "hipotética": "O impacto dos problemas associados à Grécia é pequeno. Os bancos europeus não terão assim tanto problema como as pessoas por vezes pensam, e poderão absorver quaisquer perdas relacionadas com a Grécia". O problema, frisou Borges, é o que acontecerá ao "resto da Europa". Contágio é a palavra maldita.

O problema da Grécia, repetiu Borges, é "uma certa falta de implementação das medidas já desenhadas". Os gregos têm de persistir no caminho traçado pelo FMI, "de outro modo, eu penso que a alternativa é realmente catastrófica para eles".

Aviso aos gregos e aos credores privados

A implementação pelo governo grego do programa é inclusive decisiva para a questão da reestruturação parcial da dívida que está a ser negociada com credores privados - o que, na linguagem da troika, foi designado por "envolvimento do sector privado" (que tem inclusive um acrónimo em inglês, PSI). "[O programa com os credores privados] deverá avançar no outono. Contudo, a nossa posição é que nunca deverá ser posto em prática, a não ser que estejamos confiantes de que a Grécia está de regresso ao bom caminho, pois não vamos criar uma série de garantias e apoio aos investidores para depois termos a Grécia ainda num problema bem maior uns meses mais tarde". E repetiu: "Portanto, só avança se estivermos confiantes que a Grécia está no bom caminho. Só, assim, esse programa faz sentido".

Borges contrastou com o caso grego o que considera "exemplos de sucesso" recentes de intervenção do FMI, como a Islândia e a Letónia (que deverá terminar o programa até final do ano) e, até certo ponto, a Irlanda.

Separou, depois, Espanha e Itália da situação na Grécia e Portugal. Elogiou as medidas "na direção certa" em Espanha e sublinhou o maior desapontamento com o caso muito preocupante de Itália, em que o anterior dinamismo desta economia se "perdeu devido a obstáculos substanciais e barreiras ao crescimento, que terão de ser removidas".

Christine Lagarde tinha dito ontem, na sua intervenção de abertura da reunião, que "os problemas podem ser, em larga medida, económicos, mas as soluções são largamente políticas".