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Quem se trama nesta crise é a cigarra

Um balanço dos principais vencidos e vencedores desta Grande Recessão, segundo o especialista francês em geoeconomia François Heisbourg, presidente do International Institute for Strategic Studies. Os que mais sofrerão serão as "cigarras".

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

Como na fábula de Jean de La Fontaine, as principais vítimas desta Grande Recessão vão ser as "cigarras", os países que viveram manifestamente no faz-de-conta, afirmou ao Expresso o economista francês François Heisbourg, de 60 anos, presidente do International Institute for Strategic Studies, sediado em Londres.

O ex-primeiro secretário da Missão Permanente da França nas Nações Unidas nos anos 1970 e 1980 admite que a "morte lenta" das "cigarras" (de que o caso grego é, provavelmente, o mais presente, e Portugal um forte candidato, atendendo às evoluções recentes) possa ser um problema doloroso. Tal como o choque nas "andorinhas que voaram com a globalização", elogiadas pelos seus "milagres económicos", e que, subitamente, com esta grande crise, se vêm com recessões mais prolongadas (como a Irlanda e a Espanha) e, em alguns casos, chutadas inclusive para níveis altos de risco de bancarrota (como o Dubai, a Islândia, a Letónia e, mais distante, a Hungria).

O elefante ganhador



Mas esta recessão trouxe mudanças decisivas na cena mundial. "Assistimos à transformação profunda da paisagem geoeconómica e geopolítica. As consequências são directas e bem visíveis", alega o autor de "Vencedores e Vencidos", um livro publicado recentemente em Paris. A principal, diz-nos Heisbourg numa entrevista (que pode ler aqui, na íntegra, em francês), tem a ver com a China: "Ela passou de um estatuto de potencial grande potência para a realidade dessa posição. É um salto qualitativo comparável, no plano geoeconómico e geopolítico, ao da emergência da Alemanha imperial no final do século XIX".

O especialista francês, recorrendo a uma nomenclatura da fauna da crise, chama-lhe "um elefante, um animal com talentos múltiplos", classificação que estende à Índia e ao Brasil que conseguiram "atravessar a crise apoiando-se numa base económica diversificada".

Apesar da expectativa de que os Estados Unidos sairiam de rastos desta Grande Recessão, Heisbourg acha que a superpotência se aguenta "como número um, apesar de tudo", devido a uma característica profunda que mantém: "a sua resiliência, apoiada na criatividade tecnológica, na flexibilidade social, na vitalidade demográfica e na existência de um estado federal". Por isso, o economista duvida das "teses declinistas" sobre a América que rapidamente se propagaram.

Também, a Rússia não lhe parece que tenha levado uma estocada mortal, por ora, apesar de ser "um dinossauro mono-produtor", um ponto fraco que é, hoje, o tema central dos debates em Moscovo tendo em vista as presidenciais de 2012, diz Heisbourg.

O principal perdedor



O mais importante "vencido" desta crise poderá ser a União Europeia (UE). "Esta Grande Recessão acentuou os riscos de um declínio terminal", afirma, com algum pessimismo. A ideia estratégica de uma "tríade" com os EUA e a China parece morrer na praia.

A UE tem dois problemas de fundo, refere o especialista: o risco de ter uma crise grave do euro, da moeda única, bem como uma perspectiva enevoada de crescimento a longo prazo. "A Europa, no conjunto, corre o risco de se japonizar em termos de crescimento", conclui.

O Japão, tal como a Itália, recorda François Heisbourg, são campeões de uma doença: um crescimento de longo prazo medíocre (abaixo de 2%), que, no caso do Japão, que nos anos 1990 tivera a ambição de subir ao escalão das superpotências, já o empurrou definitivamente para "uma marginalização estratégica". Uma sina que já dura desde a crise de 1991. O antigo império do Sol Nascente está, hoje, numa camisa de varas: "entre o protector americano e o consumidor chinês".

O recente World Economic Outlook do Fundo Monetário Internacional divulgado esta semana acaba de prognosticar um crescimento medíocre de apenas 1% para o conjunto da zona euro em 2010 (a região do mundo com crescimento mais baixo) e em Espanha, no blogue Nada es Gratis, o economista Antonio Cabrales interrogava-se se a Espanha irá viver uma década similar à japonesa nos anos 1990.

Adaptado de artigo publicado na edição impressa de 17/04/2010