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Preço do petróleo novamente abaixo de 60 dólares

O preço do barril de Brent no mercado londrino fechou a semana em 59,67 dólares, um valor ligeiramente superior ao registado no encerramento da sessão a 18 de dezembro, quando marcou o mínimo desde o segundo trimestre de 2009.

O preço do barril da variedade Brent negociada em Londres fechou a semana em 59,67 dólares. É a segunda vez, em termos de valores de fecho da sessão, que o preço regista valores abaixo de 60 dólares desde o segundo trimestre de 2009. O preço mais baixo de fecho registou-se a 18 de dezembro, quando o preço do barril de Brent desceu para 59,27 dólares.

Deste modo, mantem-se a tendência de descida dos preços do petróleo, apesar de uma subida para 61,69 dólares a 23 de dezembro. Desde a reunião da OPEP a 17 de novembro, quando o cartel exportador decidiu não diminuir o seu teto de produção até junho de 2015, que o preço do Brent já desceu 18%. Desde o pico do preço em junho, a quebra é de 48%. É a segunda maior quebra desde 2008, quando o preço do barril de Brent caiu 68% entre o pico em junho e dezembro.

A descida dos preços do barril de crude é atribuída em 60% ao excesso de oferta e em  20 a 35% ao recuo na procura devido ao abrandamento económico mundial, segundo os cálculos de Olivier Blanchard, o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, num estudo em coautoria com Rabah Arezki publicado recentemente, intitulado "Seven Questions about the Recent Oil Price Slump".

 

A estratégia da OPEP

Este nível de preços baixos - num horizonte retrospetivo, ao nível do segundo trimestre de 2009 - parece estar para ficar por uns tempos, atendendo à posição inflexível dos países do Golfo, que dominam o cartel da OPEP. A postura do cartel foi repetida, na semana passada, na 10ª Conferência Árabe sobre Energia que se realizou durante três dias no Abu Dhabi.

Os ministros do Golfo apontaram o dedo aos produtores fora do cartel que estão a colocar produção "irresponsável" no mercado e reafirmaram que não tomarão uma decisão unilateral de descida do seu teto de produção até à reunião de 5 de junho de 2015.

Segundo a EIA (Energy Information Administration) norte-americana, os stocks de petróleo dos Estados Unidos aumentaram 7,3 milhões de barris na semana que fechou a 19 de dezembro, parecendo ilustrar a acusação dos árabes do cartel. O consenso entre os analistas era de que poderia ocorrer uma redução de 2,5 milhões de barris.

A estratégia dos exportadores do Golfo pressupõe que a descida atual do preço do barril levará os "produtores ineficientes" a cortar na produção, com a subsequente subida do preço médio anual no mercado, como, aliás, o explicou o ministro saudita dos petróleos Ali al-Naimi.  A baixa de preço verificada desde junho seria, por isso, transitória e os cenários futuros de ganhos no crescimento económico global (um bónus de 0,3% a 0,7% na taxa de crescimento do PIB mundial projetada no cenário base para 2015, segundo Blanchard), nos países importadores líquidos de crude e nos sectores intensivos no uso de combustíveis poderiam pecar por otimismo. No caso português, com um preço médio anual de 60 dólares, o crescimento do PIB em 2015 poderia subir de 1,5% no cenário base usado pelo governo no Orçamento de Estado (pressupondo um preço médio anual do barril de 96,7 dólares) para 2,5%, segundo cálculos do Expresso já publicados no diário digital de 16 de dezembro.

 

Impactos negativos nos exportadores e produtores de crude

Segundo o estudo de Blanchard, o limiar dos 60 dólares no preço da variedade norte-americana WTI (West Texas Intermediate) é ponto de equilíbrio (ou seja, o preço a partir do qual vale a pena extrair) para o conjunto da produção de petróleo a partir do xisto betuminoso nos Estados Unidos (o que se tem chamado de revolução do shale) e para a produção de outras variedades de petróleo não convencional, como o extraído nas areias betuminosas. Alguns campos petrolíferos a partir de xisto nos EUA, como Bakken, Eagle Ford and Permian, aguentam preços inferiores. O preço do barril WTI registou 55,21 dólares no valor de fecho de sexta-feira. É um preço inferior ao do barril de Brent.

A descida do preço do crude tem tido particular relevância em algumas divisas de países exportadores de petróleo, citando-se os casos da Venezuela, Rússia, Noruega e Nigéria. Em relação ao final de 2013, o bolívar venezuelano desvalorizou 172% (no mercado paralelo), o rublo russo cerca de 50%, o naira nigeriano 15% e a coroa norueguesa 8,5%. Integram o "clube" das cinco maiores desvalorizações em 2014, juntamente com o peso argentino (mais de 18%).

O estudo de Blanchard refere, por exemplo, que os rendimentos do petróleo representam 50% do orçamento federal russo e 75% do orçamento angolano. O preço do barril para o equilíbrio orçamental em 2015 é de menos de 60 dólares no Kuwait e no Qatar, de 60 dólares para a Venezuela, Nigéria e Arábia Saudita (apesar de o reino não revelar publicamente esse valor), de 80 dólares para Angola e de mais de 100 para a Rússia.