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Pode Gaspar comentar a reestruturação da dívida? "Não posso nem quero, mas direi coisas"

Alberto Frias

Pode Vítor Gaspar comentar o Manifesto dos 70, que na semana passada propôs a reestruturação da dívida pública? "Não posso nem quero - mas direi coisas".

A resposta foi dada esta manhã, numa conferência no ISCTE, pelo ex-ministro das Finanças. "Se fosse possível ter uma redução graciosa da dívida sem mais, não há nenhum devedor que não beneficiasse de uma redução da dívida. Mas a questão é sistémica", analisou Vítor Gaspar. Ora, prosseguiu, Portugal precisa de crédito público, isto é, de acesso aos mercados. Vítor Gaspar deixa assim subentendido que é contra uma reestruturação da dívida pública, uma vez que ela teria como efeito um fecho dos mercados ou um encarecimento do preço da dívida pública.

"É preciso [ter] um cuidado especial da forma como se apresentam estas questões", acrescentou ainda Gaspar, uma vez que a "as perceções" são também muito importantes, nomeadamente nos mercados financeiros. 

A pergunta fora colocada pelo moderador António José Teixeira. O diretor da SIC Notícias tentava arrancar uma resposta conclusiva de Gaspar, que nas intervenções anteriores preferira falar indiretamente do tema da dívida pública portuguesa. Bagão Félix já se dissera "perplexo" com a reação do Manifesto dos 70, que na semana passada propôs uma reestruturação da dívida pública, e Manuela Ferreira Leite apelara à necessidade de evitar extremismos sobre o tema, quer dos que dizem "não pagamos", quer dos que dizem que o tema não pode ser discutido. Ora, um dos aspetos mais criticados no manifesto foi o "timing" e os termos, uma vez que a palavra reestruturação é entendida como "perdão", o que tem impacto na perceção de risco de Portugal. 

Vítor Gaspar interveio no Forum das Políticas Públicas, que juntou no mesmo painel quatro antigos ministros das Finanças, do período 2002/2013: Manuela Ferreira Leite, António Bagão Félix, Fernando Teixeira dos Santos e Vítor Gaspar.   

Insistindo sempre na responsabilidade nacional quanto ao cumprimentos das regras europeias, o primeiro ministro das Finanças de Pedro Passos Coelho reconheceu que "a pressão do ajustamento estará connosco durante as próximas décadas". Recorde-se que, quando estava ainda em funções, Gaspar chegou a afirmar que a resolução da dívida pública era um problema para uma geração. 

Sem entrar na discussão do momento sobre a sustentabilidade da dívida publica, o ex-ministro preferiu discutir princípios gerais sobre integração europeia, numa lógica otimista, e 'regressar' ao passado por varias vezes para citar Oliveira Martins no final do século XIX e o secretario do Tesouro dos EUA, Alexander Hamilton, do final do século XVIII.