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Petróleo. Sauditas podem ganhar a atual guerra de preços

Reuters

A OPEP não é um cartel de verdade, mas a Arábia Saudita, que a lidera, ainda dispõe de algum poder efetivo de mercado e poderá provocar a desaceleração da revolução norte-americana do petróleo de xisto. Jeff Colgan, especialista norte-americano em geopolítica da energia, diz ao Expresso que a Venezuela e a Rússia poderão ser os principais focos de instabilidade em 2015.

O ideal para os sauditas é que algumas das explorações de petróleo não convencional - por exemplo, o do xisto betuminoso nos Estados Unidos e o das areias betuminosas no Canadá - fechem ou, pelo menos, desacelerem. Nesse sentido, penso que os sauditas irão ganhar, mas essa vitória terá um custo, o de terem de enfrentar preços mais baixos do que nos últimos três anos", diz-nos Jeff Colgan, professor de Ciência Política no Departamento dessa área na Universidade de Brown e no Watson Institute of International Studies da mesma universidade norte-americana, em Providence, Rhode Island. Colgan é autor de "Petro-Aggression: When Oil Causes War" (publicado em 2013). 

O barril de petróleo Brent, que serve de referência internacional, e é negociado em Londres, está a cotar-se abaixo dos 60 dólares há cinco sessões consecutivas. Esta quarta-feira, última sessão do ano, já desceu até 55,84 dólares por barril. A partir da reunião da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) em Viena a 17 de novembro, quando o cartel exportador decidiu não diminuir o seu teto de produção até junho de 2015, o preço do Brent já desceu 25% (em dólares). Desde o início do ano caiu 48% (em dólares), ainda a dois pontos percentuais da descida do preço do Brent do início até final de 2008, desenhando uma Torre Eiffel. Se medida a partir do pico do preço em junho de 2014, a quebra é de 52% (em dólares). É a segunda maior quebra intraanual desde 2008, quando o preço do barril de Brent caiu 70% entre o pico em junho e o final de dezembro. No contravalor em euros, a queda ao longo de 2014 foi de 41% e desde o pico em junho somou 59%.

Desde 1900, como sublinhou uma nota da Schroders para investidores é a segunda maior queda do preço do crude, depois da 2008, e ficando à frente das registadas em 1986 e 1914.

Os sauditas vão ganhar esta guerra de preços, como aconteceu algumas vezes no passado, ou desta vez é diferente?

Não estou certo do que "ganhar" significa exatamente para a Arábia Saudita. O ideal para os sauditas é que algumas das explorações de petróleo não convencional - por exemplo, o do xisto betuminoso nos Estados Unidos e o das areias betuminosas no Canadá - fechem ou, pelo menos, desacelerem. Nesse sentido, penso que os sauditas irão ganhar, mas essa vitória terá um custo, o de terem de enfrentar preços mais baixos do que nos últimos três anos.



O boom do petróleo de xisto é sustentável, ou há exagero da parte dos meios de comunicação e dos especialistas que falam da "revolução do shale"?

Esse boom é sustentável, mas abrandará com preços do petróleo abaixo de 60 dólares por barril e colapsará com preços muito baixos, por exemplo abaixo de 40 dólares.



Há o risco em 2015 do cartel da OPEP se desmoronar com contradições internas insanáveis?

Esse risco é baixo. Mas há um alto risco de que a OPEP deixe de ser vista como um cartel poderoso. Ela não tem sido capaz de conter a produção do petróleo, pelo menos desde 1982 [quando estabeleceu formalmente, pelo primeira vez, quotas de produção], o que significa que, na realidade, não é um cartel. Apenas a Arábia Saudita tem poder significativo de mercado. Lentamente, os mercados e os políticos estão a perceber que a OPEP não é um cartel de verdade.



A Rússia, que está fora do cartel, vai conseguir um acordo com a OPEP até à reunião do cartel em junho?

A possibilidade de um acordo OPEP-Rússia, ou de um acordo Rússia-Arábia Saudita, é uma das possibilidades mais intrigantes de 2015. Penso que a probabilidade de um verdadeiro acordo para se cortar a produção é muito baixa. Dito isto, se for alcançado, sem dúvida, que terá um efeito significativo e os preços do barril poderão subir.



Quais poderão ser os principais pontos fracos geopolíticos vítimas da atual guerra de preços?

Provavelmente os riscos geopolíticos mais elevados centram-se na Venezuela e na Rússia. Essas duas economias não podem sobreviver durante muito tempo a uma quebra do preço do petróleo. A meu ver, um período prolongado de preços baixos em 2015 representa um alto risco de instabilidade política para a Venezuela.

Entrevista inicialmente publicada no diário digital de 30 de dezembro. Valores do preço do Brent atualizados.