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Petição contra a greve na TAP com mais de 1980 assinaturas

Petição online apela ao Governo que use a requisição civil para evitar a greve dos tripulantes na TAP, que causará perdas de 50 milhões de euros.

Está a circular na internet uma petição pública contra a greve dos tripulantes da TAP, que conta já neste momento com 1988 subscrições. O documento sublinha que é "inaceitável que a classe tripulante da TAP uma vez mais avance para a greve pondo em causa colegas, a empresa, o prestígio já tão abalado do país e a unidade de esforços que a todos nós compete".  A iniciativa visa apelar ao primeiro-ministro e ao presidente da Assembleia da República que avancem com uma requisição civil para evitar os dez dias de paralisação na TAP. O Ministro dos Transportes, António Mendonça, questionado sobre se a paralisação poderá por em causa o processo de privatização da empresa, reconheceu que "tudo aquilo que prejudique a imagem da TAP é óbvio que é um prejuízo e prejudica todo o processo [de privatização]". O Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC) anunciou uma greve para 18, 19, 20, 25 e 26 de junho e 01, 08, 15, 22 e 29 de julho, em protesto contra a decisão da administração da TAP de reduzir um elemento por tripulação. O presidente da TAP disse na quarta-feira passada, em conferência de imprensa, que os 10 dias de greve poderão provocar prejuízos de 50 milhões de euros. Na ocasião, Fernando Pinto apelou aos tripulantes de cabine para não aderirem à greve: "Faço um apelo ao pessoal de cabine para que pense bem e compareça aos voos. Não destruam a empresa, porque sem a empresa fica mais complicado". Por sua vez, um grupo de mais de 200 tripulantes de cabine enviaram uma carta aberta a Fernando Pinto a explicar as suas reivindicações.

Ao Sr. Eng. Fernando Pinto:  Reservamo-nos no direito de publicar esta carta aberta, visto nos ter endereçado um e-mail no qual nos enaltecia pela dedicação e qualidade do nosso trabalho, no sentido de não aderirmos à greve que foi convocada pelo nosso Sindicato. Publicamos esta carta enquanto grupo de tripulantes devidamente identificado porque nos revemos na correspondência que lhe foi endereçada por um de nós. Segue agora a voz colectiva desse e-mail: Queremos dizer-lhe que estivémos na reunião que convocou e para a qual fomos convidados, no passado dia 1 de Julho, no refeitório da sede da companhia, e estamos a par de tudo o que disse no dia anterior a esse, no Hangar 6. E sabemos que o seu teor foi bem diferente do que vem agora mostrar na mensagem que enviou a todos os tripulantes. Foi com grande insatisfação que o vimos colocar os colegas das outras áreas contra os tripulantes de cabine com um discurso populista, demagogo e pouco verdadeiro. A nossa profissão é díficil de explicar e de ser compreendida por quem, de facto, não a vive. Por mais que se explique, por mais que do lado de lá esteja uma mente aberta e compreensiva, e muitas vezes não está. Vimos assim esclarecê-lo sobre alguns assuntos com os quais colocou todas as pessoas nessas reuniões a aplaudi-lo e a rir, a insultar os tripulantes que lá estavam, como se as nossas exigências se tratassem de coisas fora do contexto e absurdas: - relativamente à folga antes e depois das férias, o Sr. Eng. fez a plateia brilhar com os seus comentários. No entanto, queremos informá-lo que temos direito a 52 folgas por ano e não pedimos MAIS duas; pedimos apenas que o Dpto de Planeamento e Escalas organizem a nossa escala de modo a que essas folgas coincidam com o início e o fim das férias. Como de resto, todos os comuns mortais fazem: quem trabalha de 2a a 6a feira tem folga antes e depois das férias e joga com isso para ter mais dias de descanso; quem trabalha por turnos, coloca as folgas da respectiva semana antes e depois das férias; o Sr. Eng. presumo que faça o mesmo com as suas. Nós temos as nossas férias geridas - e mal - pela empresa. E se, como diz, temos mais dias de férias - 6 - foi uma situação prevista pela empresa para nos compensar por não termos direito ao gozo de feriados e datas importantes, como o Natal que o Sr. Eng. passa em família e nós passamos sozinhos num qualquer hotel, dentro de um avião a comemorar com desconhecidos ou pagando para trazer a família connosco. - o que me leva ao ponto seguinte: também decidiu jocar dos 12 acompanhantes que pedíamos por ano. Não percebeu que estar longe da família e amigos leva a consequências graves no equilíbrio do ser humano e que trazê-los connosco é uma forma de colmatar essa falha e de os compensar pela nossa ausência. Para além disso, mostra desconhecimento pelo sistema de facilidade de passagens: é que esses acompanhantes pagam uma tarifa, cada vez menos reduzida, para ir connosco; e só vão se houver lugar no avião, não roubando lugar a nenhum passageiro. E acrescento que os pilotos não têm 12, têm sim um número ilimitado de acompanhantes. - quanto ao descanso em classe executiva, convidamo-lo a fazer connosco um vôo nocturno para Dakar ou Bissau, das 21h00 às 7h30 do dia seguinte, e descansar entre 30 a 45 minutos por vôo na última fila de económica para perceber a diferença. Se isso custa muito à empresa - temos dúvidas -, nesses voos a classe executiva raramente vai cheia, e com 2 lugares reservados para nós a companhia mostrava o apreço que tem por nós, como o Sr. Eng. deixa agora transparecer no seu e-mail. - finalmente, em relação ao descanso adicional de duas horas que exigimos, pedimos-lhe que passe pelo Dpto de Escalas e veja o night-stop em Moscovo, em que temos 18h de escala durante o dia para descansar da noite que perdemos na ida ao mesmo tempo que descansamos para a noite de regresso com despertar à meia-noite de Lisboa; acompanhe-nos num Lisboa/Madrid/Lisboa/Barcelona/Lisboa em que fazemos 4 aterragens num só dia, 4 pressurizações, 4 despressurizações, cumprimentamos e despedimo-nos de mais de 600 passageiros com o mesmo sorriso, enquanto fazemos verdadeiros malabarismos para cumprir o serviço a bordo; Pense no que é fazer serviço num Madrid, com 50 minutos da ida à chegada, deixando-nos 20 minutos para, agora com 4 elementos, servir 150 passageiros, e bem, e a sorrir, e com dedicação, e de "braços abertos"; ou o recém criado voo para Atenas, voo nocturno, ida e regresso, a 10 minutos de ultrapassar o tempo máximo permitido de serviço de voo; acorde connosco às 3h da manhã, faça 3 vôos na Europa, chegue a casa às 15h30 e veja em que condições consegue ir brincar com os seus filhos ou netos, para perceber o que é chegar a casa exausto; passe connosco 12h dentro de um supositório de metal, a comer no colo a mesma refeição de alumínio, sem pausa para café, sem hora de almoço, sem poder sair 5 minutos do "nosso" escritório para respirar ar puro, num ida e volta a Helsínquia, só para dali a 16 horas estar de volta ao aeroporto para mais um voo; venha connosco passar 4 horas dentro de um avião cheio de passageiros e servir a refeição no chão, enquanto o avião está a ser reparado, só para depois os informar que terão de ir para um hotel à 1h da manhã e enfrentar os passageiros furiosos que nos ameaçam fisicamente e, estando ao serviço da companhia, nem sequer recebermos por isso porque alguém decidiu que só somos pagos quando o avião sai do estacionamento. Pode parecer cliché mas "O cansaço acumula-se, o descanso não!" Quanto à não diminuição da nossa remuneração: ao haver mais C/C's no longo curso, há menos voos para cada um deles e, como saberá, nós somos verdadeiros artistas, ganhamos à peça. E quando as frequências diminuirem no médio-curso no Inverno IATA? Haverá trabalho para todos?Se a carga de trabalho vai ser igual em cada voo, sem diminuição prevista nos níveis de serviço a bordo, a regra é aritmética: Num A320 cabem 162 pax. Dividindo por 5 tripulantes, dá 32.4 pax, com 4 tripulantes dá 40.5. Se considerarmos o rácio pax/tripulante como sendo a carga de trabalho, é 20% de trabalho a mais. A cada 5 dias de trabalho, trabalhámos mais um, num mês trabalhamos mais 4 ou 5. Continua a achar que não há aumento da carga de trabalho? E quanto a comparações com outras companhias aéreas, peça à Lufthansa a média do número de horas voadas mensalmente pelos seus tripulantes, olhe para os seus tempos de descanso, e aproveite para conferir que os trolleys deles não têm rodas quadradas como os nossos, que não fazem 100 agachamentos por vôo durante o serviço a bordo porque têm intrumentos de trabalho em condições, que o catering deles é eficiente ao nível do design dos tabuleiros por oposição aos quebra-cabeças que são os nossos, que os drink-trolleys vêm preparados para o avião, e que o serviço a bordo deles é tão mais simplificado que o nosso. E, mesmo assim, eles já adoptaram uma medida em que incluem mais um elemento acima de 75% de ocupação do avião. Isto para não falar nas regalias e ordenados que eles auferem. Se é para nos comparar, que seja pelos melhores e compare tudo, não apenas o que lhe é interessante. Quanto à segurança: no dia em que - esperamos que não - se veja envolvido num acidente aéreo, rezamos para que estejam lá tantos tripulantes de cabine quantos couberem no avião, fará toda a diferença. Se vamos "fechar a TAP" com esta greve, como disse: 50 milhões de prejuízo causados pela greve continua a ser menos que 71.8 milhões de prejuízo à conta da M&E Brasil em 2010, mais os 43.5 milhões da Groundforce, para não falar de anos anteriores em que o passivo da TAP continuou a crescer à conta destas. Nós não lhe pedimos para investir no Brasil, nem tão pouco achámos uma boa ideia, mas é por si que passa o poder de tais decisões, certas ou erradas, e nós tivémos de confiar. No final do próximo ano, estaremos cá todos para ver onde está o lucro e onde está o prejuízo. O transporte aéreo é parte da empresa que dá lucro - 63 milhões de e uros para sermos exactos - e custa-nos ser, ao mesmo tempo, o bode expiatório para os males da companhia. E esperamos que esteja atento e a fazer o que pode, porque os pilotos também lhe deixaram uma ameaça de greve em cima da mesa para o início de Julho, mas a esses ninguém vai para a comunicação social apelidar de "máfia". E se, apenas através dos tripulantes de cabine, vai permitir a redução de custos de 10% dos 15% exigidos pela troika, tem de compreender que não temos nem vontade de rir nem de bater palmas ao seu discurso. É que nós já descontamos os nossos 3,5% do vencimento para os cofres da companhia, como se fossemos funcionários públicos. Visto desta perspectiva, consideramos a situação não ser tão ridícula como tentou fazer parecer. Se quiser, podemos até tentar explicar-lhe a razão de sermos criaturas tão extraordinárias. Com tantas adversidades, adoramos o que fazemos. Nós só queremos voar! Só queremos fazer o nosso trabalho, bem, com condições de trabalho, para continuarmos a ser os excelentes profissionais que o deixam orgulhoso. Vestimos a camisola todos os dias com humildade e muita honra, sabendo que representamos não só a TAP mas o nosso país no estrangeiro. Só não podemos deixar que passem por cima de nós como está a tentar fazer, não sem sermos ouvidos. Se nós somos a cara da companhia, outros terão de ser os braços e as pernas. E, se lhe escrevemos, é porque nos preocupamos o suficiente com a empresa e também não queremos que esta greve exista; mas faremos greve, sim, porque aparentemente não existe outra alternativa. 

Grupo de mais de 200 tripulantes de cabine devidamente identificados.