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Pequenos editores formam bloco

Vários pequenos editores portugueses reuniram-se, nos últimos dias, e decidiram unir os seus meios de distribuição para resistir ao poder cada vez maior dos grandes grupos editoriais.

LMFaria

"Em dois anos, atingiu-se em Portugal um nível de concentração que em França levou dez anos", disse ao Expresso o director de uma editora. Para quem tem pouco peso negocial, as condições impostas pelos distribuidores arriscam tornar-se incomportáveis neste momento, pelo que urge descobrir alternativas. Para já actuando sobre a distribuição, mais tarde, eventualmente, com outras iniciativas. 

Do preço de capa de um livro, o normal é a distribuição ficar com uma percentagem entre 50 e 60 por cento. Isso já inclui a parte da livraria. Mas se há vinte anos um livreiro recebia 30 por cento, agora recebe quarenta, e às vezes mais. A mudança começou com os hipermercados, que praticam descontos substanciais, e consolidou-se com o advento da FNAC, há dez anos. Mais recentemente, a Bertrand-Círculo de Leitores, que tem 52 lojas espalhadas pelo país, confirmou o sistema. O facto de em muitos lugares ser a única livraria disponível - inúmeras livrarias independentes fecharam ao longo dos últimos anos - permite-lhe impor os seus termos.

Não foi só na distribuição que houve concentração. Também ao nível da produção editorial, com a recente criação do grupo Leya, cujas mais de vinte editoras são responsáveis pela maior parte do que se edita em Portugal. Um efeito da concentração, explica Assírio Bacelar (Nova Vega), é que as edições menos comerciais são apoiadas com o sucesso das outras. A editores de outra dimensão isso é vedado. "O pequeno e médio editor não consegue concorrer. Se um livro não se vende, pode ser a sua ruína".

"Há editoras a ficar com 15, 20 por cento" do preço de capa, explica José Tavares (Campo das Letras). Ele refere uma série de coisas que fazem subir a percentagem das livrarias, desde a colocação geográfica nas lojas (os grandes espaços comerciais distinguem entre "ilhas", "gôndolas", topos", "frentes", etc) até à inclusão no folheto da loja e ao próprio "rappel" no fim do ano. O "rappel", que era uma percentagem adicional cobrada quando as vendas ultrapassavam um determinado tecto, parece haver-se tornado quase automático. Os prazos de pagamento às editoras são cada vez mais largos. E quanto às devoluções, também passaram em certos casos a ser por conta do editor, ao contrário do que era a tradição.

O objectivo agora, explica Vítor Navalho, é "tentar desenvolver uma frente editorial. Que várias editoras negociem em bloco". Nova Vega, Campo das Letras e Afrontamento são algumas das editoras que se encontram envolvidas no esforço. A fim de defender não apenas as editoras mas os autores, em especial aqueles que estão a começar. "A existência de pequenas e médias editoras corresponde a oportunidades várias de edição", explica José Tavares. "Os jovens autores são normalmente trabalhados pelas pequenas editoras".