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Ovelhas controladas pela net são mais produtivas

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Amadeu Neto da Quinta de Alpeadre

José Caria

Depois de chegado aos computadores e aos telemóveis, a internet está a chegar às 'coisas' do quotidiano e às empresas. Só o gigante IBM prevê investir 3 mil milhões de dólares na internet das coisas.

João Ramos

João Ramos

Jornalista

Amadeu Neto não esconde o entusiasmo. Passou a ser mais fácil controlar 15 ovelhas das mais irrequietas do rebanho da queijaria de Ribeira de Alpeadre, através de coleiras eletrónicas ligadas à internet.

Em maio, o projeto-piloto da internet das coisas aplicado à pecuária, em parceria com a tecnológica portuguesa Sensefinity, vai ser alargado à maioria das 400 ovelhas do rebanho. E com uma inovação adicional: as coleiras ligadas à internet vão ter uma superfície fotovoltaica para que tenham autonomia energética (deixa de ser necessário trocar pilhas).

Quais as vantagens do sistema? "Ajuda-nos a saber se alguma ovelha saltou a cerca, se tem pouco movimento, o que pode indicar que está doente - é preciso intervir rapidamente para evitar contágio - e alerta-nos para um eventual roubo, caso tenha havido um corte na coleira", explica Amadeu Neto, proprietário, em terceira geração, da queijaria Ribeira de Alpeadre, situada em Zebras (Castelo Branco). Monitorar onde cada ovelha pastou e a respetiva produtividade e qualidade do leite é outra vantagem.

Amadeu Neto mostra-se interessado em continuar a apostar na tecnologia."Já desafiámos a Sensefinity a desenvolver aplicações com sensores ligados à internet de forma a controlarmos melhor a qualidade, desde a recolha de leite até à produção do queijo", afirma o empresário.Esta utilização pioneira da internet das coisas (internet of things, na versão inglesa) numa queijaria da Beira Baixa, é um exemplo que demonstra que esta revolução tecnológica está a chegar também aos sectores tradicionais, além de já estar a invadir o quotidiano das pessoas, nas casas, nas cidades e em quase todos os sectores de atividade económica.  

Inovação em todos azimutes

"A internet das coisas é uma evolução natural da internet. Caminha para conectar os objetos e ativos físicos ao mundo digital de  um modo sensorial e inteligente", refere Orlando Remédios, fundador e presidente da Sensefinity. Uma tecnológica nascida na incubadora ADN da Olisipo que já está também a desenvolver projetos de internet das coisas para a agricultura (irrigação), logística e cadeias de frio. E tem uma parceria com outra tecnológica lusa, a Prodsmart, para levar esta tecnologia à indústria nacional.

Todos os astros estão alinhados para que a internet das coisas seja uma das áreas tecnológicas mais disruptivas e de maior crescimento nos próximos anos. Por um lado, os sensores são cada vez mais baratos e miniaturizados, e por outro quase todas as grandes empresas de tecnologias de informação e startups estão a inovar em todos os azimutes.

A IBM anunciou esta semana que criou uma divisão para a internet das coisas e que vai investir 3 mil milhões de dólares nos próximos quatro anos. E o capital de risco está a investir cada vez mais startups desta área (341 milhões de dólares em 2014, segundo a TechCrunch).

Por todas estas razões, não surpreende que as consultoras sejam unânimes em considerar que estamos perante um negócio milionário pleno que vai disparar nos próximos anos. A Gartner prevê que vão existir 20 mil milhões de 'coisas' ligadas em 2020, quando no final deste ano deverão estar em uso 4,9 mil milhões. E a BI Intelligence prevê que os componentes do negócio (sensores, serviços, plataformas e software) vão gerar negócios de 600 mil milhões de dólares em 2019.

A refrear esta euforia começam a surgir preocupações relacionadas com as questões de segurança. Reguladores e empresas já começaram  a estudar formas de evitar vulnerabilidades relacionadas com atividade de hackers e com o código malicioso.

Além da Sensefinity, há outras empresas portuguesas que também estão a procurar tirar partido desta revolução. A Novabase, a maior tecnológica portuguesa, também já está a preparar a sua oferta.

"A internet of things vai massificar a economia digital", defende Pedro Afonso, administrador-executivo da Novabase, referindo que "ter o centro de decisão em Portugal será uma das vantagem". Revela que a empresa  está a usar a metodologia de design thinking para que as aplicações próprias "satisfaçam as necessidades das pessoas e das organizações". De salientar ainda que a multinacional Cisco anunciou recentemente que vai instalar em Portugal um centro de competências na internet das coisas. 

Portugal terá rede de 'coisas' 

Portugal vai ser um dos cinco países  do mundo a dispor até ao fim do ano de uma rede de comunicações sem fios exclusiva para a internet da coisas. Terá uma cobertura em todo o território continental (as ilhas serão cobertas no ano seguinte). A iniciativa pertence à tecnológica portuguesa NarrowNet que vai usar a tecnologia da francesa Sigfox, que desenvolveu um novo conceito de comunicação entre objetos. João Pimenta, fundador da NarrowNet, diz que já foram obtidas as autorizações e licenciamentos por parte do regulador das comunicações (Anacom) para instalar antenas. "Será uma rede simples e complementar das redes móveis já existentes", refere João Pimenta. 

 

REVOLUÇÃO EM TODOS OS SECTORES



Cidades Inteligentes

Qual é a qualidade do ar e os níveis de ruído? Quando estão os caixotes de lixo cheios? Quais são os fluxos de tráfego e de pessoas? Estas são apenas algumas questões que podem ser respondidas pelo exército de sensores que algumas cidades estão a instalar. A ideia é aumentar a eficiência, melhorar os transportes, aumentar a sustentabilidade ambiental e alcançar poupanças. A consultora Gartner diz que as cidades inteligentes terão já este ano 1,1 mil milhões de 'coisas' ligadas à internet. Mas, esta invasão de sensores também pode afetar a privacidade e transformar as cidades num Big Brother.  

Automóveis

Ter automóveis a circular nas estradas de forma autónoma sem intervenção do condutor ainda vai demorar alguns anos a acontecer. Mas a era dos automóveis ligados à internet já chegou e vai disparar nos próximos anos. Em 2020, segundo a BI Intelligence, existirão 100 milhões de novos carros ligados. A Tesla, fabricante americano de carros elétricos topo de gama, tinha introduzido o conceito de fazer reparações através de descarregamentos de software através da internet. Agora chegou a vez de grandes fabricantes do sector, como a General Motors, a Ford ou a BMW, apostarem nos carros conectados.  

Agricultura e minas

Com a internet das coisas, o sector primário tem uma grande oportunidade de aumentar a eficiência. Além da monitorização dos ativos pecuários (ver texto ao lado), esta tecnologia tem grande potencial na irrigação inteligente na agricultura e na monitorização da produção vinícola. As portuguesas Watgrid e Sensifinity estão a fazer testes-piloto num grande produtor de vinho nacional e já estão a pensar exportar a sua tecnologia. Também na extração mineira a internet está a fazer o seu caminho. As máquinas da marca Joy Global estão a tornar-se inteligentes e ligadas entre si. Aumentam assim a eficiência desta atividade extrativa.   

Energia

As redes elétricas inteligentes (smart grids) e a telemetria vão ganhar um novo fôlego. O consumo de energia nas casas e nas empresas passará a ser monitorizado através de redes de termóstatos com sensores ligados à internet. Foi por isso que a Google comprou a Nest que tinha criado um termóstato digital e um detetor de fumos por 3,2 mil milhões de dólares. A produção de energia está a ser otimizada. Por exemplo, em alguns parques de eólicas inteligentes ligadas em rede existem sensores que fazem com que um software possa ajustar automaticamente as pás para minimizar o impacto provocado por turbinas vizinhas.   

Logística e retalho

Já há alguns anos que a área de logística usava chips de radiofrequência (RFID) para identificar e gerir o transporte das mercadorias e os armazéns. Com a internet das coisas, a informação é mais completa e eficaz. Por exemplo, nas cadeias de frio na área alimentar passa a ser possível monitorizar as oscilações de temperatura e garantir a qualidade de produtos perecíveis. Por  sua vez,  os retalhistas vão poder promover e vender os seus produtos e serviços aos seus clientes de uma forma mais segmentada e nos momentos certos. Também ficam a conhecer melhor o comportamento dos seus clientes fazendo de ferramentas analíticas (big data). 

Indústria

Vários sectores industriais estão a redefinir modelos de negócio, a fazer poupanças e a tornarem-se mais competitivos. Um dos exemplos mais inspiradores é o da General Electric (GE), segundo relata a "Harvard Business Review". O gigante americano investiu milhões na "internet industrial", em que liga tarefas discretas e equipamentos, tendo criado mais 1,5 mil milhões de dólares de receitas adicionais em 2013. As estimativas para 2014 e 2015 são duplicar este valor. A GE conseguiu baixas os custos e aumentar a satisfação dos clientes. Já os japoneses da Panasonic decidiram abrir o portefólio de propriedade intelectual a empresas que apostem na internet das coisas.    

Desporto

Um dos segredos da vitória da Alemanha no campeonato do mundo de futebol no Brasil no ano passado passou pelo uso de tecnologia. Além da recolha de dados biométricos dos jogadores em tempo real, houve análise do desempenho através de ferramentas de big data da SAP para responderem às condições climatéricas adversas. O ténis também está cada vez mais tecnológico. A marca de raquetes Babolat apresentou um  modelo que inclui sensores e conectividade. Quando é manipulada permite ao jogador seguir a trajetória e analisar a velocidade da bola, os efeitos (spin) e a localização ideal do impacto para poder melhorar. 

Saúde

Aproximar as pessoas dos serviços de saúde é uma das vantagens óbvias da internet das coisas. Os hospitais vão funcionar melhor, otimizar recursos e fazer apoio remoto aos doentes. As empresas do sector também têm muito a ganhar e estão a fazer grandes investimentos. A farmacêutica Sanofi não se contenta em vender insulina a milhões de diabéticos e está a desenvolver um leitor de glicemia conectável a um iPhone que transmite de forma automática os resultados ao médico. Começam a surgir aplicações e sensores que detetam se uma pessoa que vive só precisa de ajuda ou se está a medicar de forma correta.   

Vestuário high tech

A Ralph Lauren lançou uma camisola biométrica que se liga a uma app de telemóvel no Open de Ténis dos Estados Unidos de 2014 e terá iniciado a era da roupa tecnológica. Através de microssensores colocados no tecido é possível  saber o ritmo cardíaco, o número de passadas e as calorias despendidas. Em 2018 serão vendidos 123 milhões de wearables (roupas e utensílios tecnológicos), segundo a consultora Idate, quando em 2014 foram vendidos apenas 20 milhões. Os relógios inteligentes vão disparar já este ano após o lançamento do Apple iWatch. Mas, a Idate prevê uma queda na venda de pulseiras e um débil crescimento nos óculos ligados, após o flop dos Google Glasses.