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"Os ingredientes para a próxima crise estão todos aí"

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Deliludido. "É moralmente inaceitável que os banqueiros não respeitem a ética que é exigida aos políticos e aos industriais, uma ética mínima"

É o aviso de Marc Roche, autor de "Banksters", um "desiludido do capitalismo", numa conversa com o Expresso.

Jorge Nascimento Rodrigues (texto) Nuno Botelho (fotos)

O jornalista e escritor financeiro belga radicado em Londres, onde segue os temas da City há mais de 20 anos, veio a Lisboa apresentar a tradução do seu último livro que tem o título sugestivo de "Banksters - Uma viagem ao submundo dos banqueiros", publicado pela A Esfera dos Livros. Disse ao Expresso que o tema do livro servirá de argumento para mais um filme com a realização de Jérôme Fritel que deverá estrear no canal francês Arte em setembro de 2016.

A economia mundial continua sentada em cima de uma série de bombas ao retardador e Marc Roche não quer voltar a ser surpreendido como em 2008 com o estoiro do Lehman Brothers nos Estados Unidos e com a grande crise financeira que se seguiu. Sobretudo ele não quer que o leitor seja surpreendido.

Os ingredientes para uma nova grande crise financeira estão todos aí. Os banqueiros voltaram ao seu modus operandi. Os banksters - a contração inglesa para banqueiros e gangsters - escaparam à justiça na esmagadora maioria dos casos e reciclaram-se durante estes quase oito longos anos que já leva a crise. Só os traders, esses "soldadinhos" dos teclados, ou alguns bodes expiatórios foram condenados. Os reguladores, apesar de mais regulação mesmo depois da catástrofe, sempre tratam com pinças a alta finança e deixam as situações arrastar-se. Se Marc Roche tivesse na sua carteira de amigos da alta finança a família Espírito Santo, o caso GES e BES poderia, quem sabe, ser mais um capítulo do seu livro "Banksters". Um exemplo, retardado, num país periférico do euro.  

A opacidade do oligopólio das grandes auditoras continua e os paraísos fiscais sobrevivem. O problema é que aos ingredientes, velhos, que engendraram a crise financeira de 2008, novas bombas de retardador se juntaram, diz o jornalista e escritor belga: o disparo do sistema financeiro sombra, sobretudo o que está embebido na segunda maior economia do mundo, a China; a cada vez maior complexidade dos veículos financeiros; e a emergência da negociação eletrónica de alta frequência em todos os mercados financeiros, conhecida pela expressão inglesa high-frequency trading (acrónimo HFT), que vive de algoritmos cada vez mais sofisticados, num ambiente que parece de ficção científica.

Marc Roche é um belga, de 64 anos, correspondente em Londres em assuntos financeiros para os jornais "Le Point" e "Le Soir", e até há pouco tempo para o "Le Monde". Há mais de vinte anos que acompanha a City. Anteriormente esteve radicado em Nova Iorque onde acompanhou Wall Street. O choque que lhe provocou a crise de 2008 tornou-o, confessa-se, "um liberal que duvida", um "prosélito do capitalismo em crise de fé". Com esse mal-estar em pano de fundo já escreveu três livros de choque em francês - "O Banco, como o Goldman Sachs dirige o mundo" (2010, traduzido pela A Esfera dos Livros em 2012), uma "potência do capitalismo" com quem ele confessa manter uma "relação de amor-ódio", "Le Capitalisme Hors la Loi" (O Capitalismo Fora da Lei, 2011) e, agora, "Banksters" (2014). 

 

Os recentes acontecimentos com o Grupo e o Banco Espírito Santo dariam mais um capítulo para o seu livro? Nunca tinha ouvido falar do Banco Espírito Santo. Em Londres, durante um cocktail na Câmara de Comércio Franco-Britânica encontrei um dos dirigentes da filial desse banco na City. Um banqueiro bem vestido, falando um francês impecável, ainda que sendo português, e ele explicou-me um pouco o que fazia o banco. Estranhei o nome e perguntei se era algum banco católico. Que não, não era, disse-me o meu interlocutor. Que era o nome de família. Estranhei, depois, que um banco de família estivesse cotado em bolsa. Explicou-me que era melhor para o financiamento. Marcámos um reencontro para setembro. Isto foi alguns meses antes da queda do banco e a esta distância não fico admirado com este escândalo. Uma sociedade cotada em bolsa mas uma família que não prestava contas a ninguém. Uma ligação estreita entre esta família e os meios políticos, de direita hoje, antes, sem dúvida, com a esquerda. Um sentimento de que estavam acima da lei, um regulador fraco, um banqueiro central que visivelmente não conhecia nada da regulamentação bancária. Todos os ingredientes estavam lá para um desastre, e foi isso que aconteceu. Refletindo sobre o que aconteceu aos Espírito Santo, eu tive o mesmo sentimento que quando estive em Nova Iorque no Lehman Brothers, então um banco tido como infalível, e depois viu-se o resultado.

O termo banksters é duro. Foi primeiro utilizado pelo juiz Ferdinand Pecora em 1933 quando dirigia no Senado dos EUA a Comissão que investigou os comportamentos de Wall Street e dos banqueiros que levaram ao crash de 1929 e poucos anos mais tarde por León Degrelle em 1937 na campanha de propaganda na Bélgica contra a finança. Porque o tirou, agora, da gaveta? É verdade que o termo foi usado pela Comissão Pecora nos anos 30 e pelo fascista belga Degrelle. Dito isto, na imprensa anglo-saxónica, a expressão regressou com a revista "The Economist" [uma capa em julho de 2012]  e com o "Financial Times" depois da crise de 2008, para apontar o dedo ao disfuncionamento da finança. A palavra é uma contração de banqueiros com gangsters. Mas isso não quer dizer que todos os banqueiros o sejam. O que eu quero dizer usando esse título é que, frequentemente, a profissão financeira ultrapassa a linha amarela da moral e por vezes da própria legalidade.

O que é o que fez tornar-se um desiludido do capitalismo financeiro? Por que razão mudou a sua conceção sobre os "amigos capitalistas" da alta finança? Sejamos claros não se pode ser jornalista financeira, como eu fui durante 27 anos tanto em Wall Street como na City londrina, sem se ser um liberal. É impossível. Não se pode ser de extrema-esquerda ou altermundialista e exercer essa profissão de cronista financeiro. Eu era um liberal que defendia o capitalismo financeiro, pelo menos o que eu pensava que era. Eu sou um jornalista financeiro generalista que estudou Economia e que tinha tendência a meter num pedestal os atores económicos. Não tinha uma noção clara dos instrumentos financeiros tóxicos. Não tinha uma noção em particular da engenharia financeira. Mesmo para o "Le Monde" eu fazia, por vezes, perfis de financeiros que eram laudatórios. Era o espírito da época. Com Lehman Brothers essa época desabou O meu mundo depois também desabou.

Ao fim destes anos de crise, o que é sintomático, como refere no livro, é que o peixe graúdo da alta finança se reciclou, só os traders foram para a prisão. Qual é a razão para esta impunidade penal sistemática? Hoje em dia há uma regulação muito mais estrita, convém começar por sublinhar. Mas, as multas colossais aplicadas ao Bank of America ou ao BNP Paribas, e em breve, creio, ao HSBC, só se aplicam aos bancos em si. Os banqueiros escapam. Só os bodes expiatórios são condenados, como, por exemplo, com Fabrice Touré, o antigo trader francês da Goldman Sachs, o soldadinho que pagou pelos outros. Os banqueiros escapam a toda a espécie de sanção penal. Porque é difícil de provar. A defesa deles diz que cometeram erros, que houve má gestão, e que isso não é crime. Os júris que os julgam não sabem grande coisa de finança e os juízes também não. Os banqueiros têm os melhores advogados que encontram todas as astúcias que lhes permitem de fugir à justiça. E, para além disso, escapam, também, a sanções financeiras. Na realidade, saem por uma porta e entram pela outra, ou melhor, usam a porta giratória.

E por que razão os reguladores e os supervisores são sempre tratados com pinças quando são corresponsáveis pelo que se passou? E escapam sem qualquer sancionamento. Mas vejamos, os políticos e os funcionários em regra escapam. É raro haver prisões por corrupção, como sabe. Em Portugal há o caso de um ex-primeiro-ministro na prisão que está a ser investigado. Mas é raro. Quanto aos reguladores, o problema central é que são mal pagos e são subfinanciados, pois os Estados estão em dificuldades, e por isso não podem recrutar os melhores. Se têm altos conhecimentos financeiros não vão para a carreira pública. Os melhores vão para a Goldman Sachs e não para a SEC (Comissão de Valores Mobiliários), nos Estados Unidos, ou para as congéneres britânicas ou europeias. Resultado, a regulação não é a melhor.

De todas as histórias que conta no livro, que tipo de gente mais o preocupou? Os auditores. Todos os escândalos passaram pelos auditores que não realizaram o trabalho que deveriam. Nenhum foi punido, à exceção da Arthur Andersen. A auditoria é um oligopólio de sociedades privadas em que a auditoria é um produto-chamariz para a consultoria, o verdadeiro negócio destas empresas. A posteriori, o que se passou com a auditoria do caso Espírito Santo chocou-me profundamente, também, como escrevi na Introdução para a edição portuguesa do livro.

No seu livro não usa o termo "financeirização" criado pelo político republicano norte-americano Kevin Philips nos anos 90 para ilustrar a captura da economia e da política pela alta finança. Acha mesmo, como advoga, que o sector financeiro pode regressar ao seu ofício inicial? Esse é um tema sensível. Nós temos necessidade dos bancos. A economia não pode funcionar sem eles. Mas é preciso que os bancos financiem a indústria, os empreendedores, os proprietários, os que acedem pela primeira vez  à propriedade,  ora, é para isso que temos os bancos de retalho. Estes bancos estão protegidos pelos contribuintes. Os depósitos estão protegidos. Tudo isso é normal. Mas não temos necessidade de proteger esses supermercados da finança, esses conglomerados dos demasiado grandes para poderem falir (too big to fail, TBTF no acrónimo em inglês). Por que razão o Estado tem de proteger o trading, a especulação, ou o private banking que tem o ofício de ajudar os ricos a não pagarem os impostos que devem?

O que é preciso, então, fazer? É preciso cindir os bancos. De um lado, os bancos de retalho, que se dedicam ao financiamento da economia no sentido amplo. Do outro lado, tudo o resto que se dedique ao que quiser com o seu dinheiro e que tem de ser extremamente controlado em matéria de governança e de regulação. Gosto de dar o exemplo das economias escandinavas, onde os bancos financiam a indústria. O caso do banco sueco Svenska Handelsbanken [fundado em 1871] que tem a melhor performance na Europa. Não atribui bónus aos seus dirigentes, só fazem banca de retalho e investem a longo prazo. Eis a solução.

No final do seu livro propõe uma "nova moral financeira" para evitar um novo crash. Mas será possível ao capitalismo financeiro deixar de ser um profissional da "instabilidade financeira" como chamou a atenção Hyman Minsky desde os anos 70? É moralmente inaceitável que os banqueiros não respeitem a ética que é exigida aos políticos e aos industriais, uma ética mínima. É inaceitável que os banqueiros ajudem gente a defraudar o fisco. É imoral. A única maneira de relançar a economia não é a austeridade, é uma política fiscal equitativa para acabar com o facto de os ricos pagarem menos do que os outros contribuintes em termos relativos - como dizia Warren Buffett comparando-se com a sua secretária. No fundo é uma questão de democracia.

Porquê? Quem está a pagar esta situação é a classe média. E este facto está a empurra-la para os braços dos extremismos. O centro está a afundar-se. A história deveria servir de exemplo com o que se passou na Alemanha nos anos 30. É toda a democracia que fica em perigo. Volto ao exemplo da Escandinávia - é preciso equilíbrio entre a finança e a indústria e sobretudo ter um sistema fiscal justo. Acabar com a situação dos ricos pagarem poucos impostos, e a classe média excessivamente. 

A próxima crise pode irromper em virtude do cocktail perigoso de que fala no livro quando fala de bombas ao retardador? Nunca sabemos de onde a crise aparece nem quando. Há essa regra média de uma crise de sete e sete anos, o que somando sete anos a 2008 dá um inquietante 2015. Mas é uma média, contudo. O que é certo é que há uma série de bombas ao retardador que podem gerar, em conjunto, um risco sistémico. A primeira, a negociação eletrónica de alta frequência (high frequency trading, na expressão inglesa), que não está regulamentada, e, pior do que isso, os seus computadores que funcionam ao nanosegundo estão nas bolsas. É um claro conflito de interesses e prejudica todos os outros. Depois, o sistema bancário sombra (shadow banking, na expressão inglesa consagrada) que está em pleno desenvolvimento, e sobretudo na China. Em terceiro lugar, os paraísos fiscais que continuam a existir, porquê? Continuam a existir por toda a União Europeia, por exemplo. Cada país protege os seus; eles fazem o que não se quer fazer oficialmente. Finalmente, a grande complexidade dos instrumentos financeiros.

O que é que pode acontecer? Isso tudo junto, mais a enorme quantidade de dinheiro injetada pelos bancos centrais, e mais o modo como os banqueiros podem contornar a legislação, é uma mistura de verdadeiras bombas ao retardador. Tem um enorme impacto sistémico e pode levar a um novo 2008. Eu não sou Nostradamus.  Não sei quando e como virá a próxima crise. Mas todos os ingredientes estão aí. Finalmente, acrescentaria que é preciso alinhar os bónus dos financeiros pelos dos industriais, no mesmo nível de competência.

Mario Draghi foi um dos homens do Goldman Sachs, que foi tema de um seu livro anterior. É considerado, agora, como o salvador do euro. Quem é Draghi? Eu nunca disse que Draghi é um bankster porque foi banqueiro no Goldman. Ou Mark Carney, atualmente governador do Banco de Inglaterra, que, também, passou pelo Goldman. Ou Emmanuel Macron, atual ministro da Economia do governo francês, que foi banqueiro de investimento na Rothschild. O que eu assinalei sobre Draghi e os outros foi a recusa em explicarem o que fizeram para os bancos em que trabalharam, bancos que frequentemente fizeram coisas condenáveis. É a questão da ética. A crise financeira teve a ver com isso, com a falta de ética profissional, de moral, que, convém reconhecer, vem de braço dado com a cupidez.

A "terceira via" inventada por Anthony Giddens em 1995, e colocada em prática por Tony Blair, foi uma espécie de mistura da social-democracia com o financismo contemporâneo? Em teoria, a "terceira via" devia juntar a social-democracia com a desregulamentação, conseguir o que muitos governos socialistas não conseguiram, unindo progressão social e boom económico.  O resultado foi um desastre total em Inglaterra. Os ricos ficaram mais ricos, a classe média empobreceu e os pobres continuaram pobres. Depois, Tony Blair colocou-se ao serviço do sector financeiro. Conselheiro do J.P.Morgan, de companhias de seguros e serve de intermediário com regimes autoritários. Ganha imenso dinheiro na maior opacidade. Ele usa a sua agenda de contactos, acumulada durante 10 anos de governo, para vender os seus serviços. É vergonhoso.

Uma das coisas que considera mais indignas é o "túnel" entre a política e a finança internacional. Entre os "abridores de portas", que chama, no seu livro, de apóstolos do "capitalismo relacional", qual é o caso que mais o chocou? Tony Blair (risos). Mas ele não está só. O ex-chanceler alemão Gerhard Schröder, ligado à Gazprom e recrutado também pela Rothschild. Dominique Strauss-Kahn, ministro em França e diretor-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), agora membro da direção do Banco de Desenvolvimento Regional Russo. O britânico Peter Mandelson, ministro de Tony Blair e Goldon Brown e ex-comissário europeu, a trabalhar com Lazard. O ex-primeiro-ministro belga Jean-Luc Dehaene que trabalha para a Dexia. O falecido António Borges, da Goldman Sachs, diretor do Departamento Europeu do FMI e responsável pela política de privatização em Portugal [junto da troika]. Romano Prodi, em Itália - Goldnan Sachs, primeiro-ministro, Goldman Sachs, presidente da Comissão Europeia. E tantos outros.

Uma coisa que o irrita é a constante campanha anti-euro no Reino Unido. Dedica mesmo um capítulo do livro ao seu diário de eleição, o "Financial Times", pelo facto dos detratores da moeda única monopolizarem as páginas. Mas o euro tem, de facto, futuro? O euro é um sucesso, até nova ordem. Há uma crise do euro que foi provocada pelo endividamento excessivo de alguns Estados encorajados pelos bancos. Mas o euro, como conceito, continua a ter atualidade. Com uma condição: que avance a integração política europeia. Não podemos ter um euro económico sem integração política. É o que falta ao grande projeto do euro. Os responsáveis do "Financial Times" (FT) dizem-me que os colunistas são livres de escrever o que entendem. Mas estes cronistas passam a vida a especular contra o euro, a denegrir o euro. Nas grandes salas de mercados o que é que as pessoas leem? O FT, sobretudo online. Os responsáveis do FT dizem que são a favor da Europa, que o Reino Unido deve permanecer na União Europeia. Mas ao mesmo tempo fazem tudo para a desestabilizar. É hipocrisia, diria mesmo perfídia (risos).