Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Operação Twist: Alto risco com o rock and rol de Bernanke

A Reserva Federal americana resolveu ir ao baú da história copiar a Operação Twist dos anos 1960. A "troca" feita, na altura, no perfil do portefólio de títulos do Tesouro continua a provocar polémica.

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

A Reserva Federal (Fed) desapontou ontem muita gente que esperava algo mais do que uma "operação twist" de venda de títulos do Tesouro de curto prazo, a 3 anos ou menos, para a compra de títulos do Tesouro de longo prazo, com maturidades entre 6 a 30 anos. Uma operação de alteração do perfil do portefólio de títulos que deverá desenrolar-se até final de junho de 2012, num montante de 400 mil milhões de dólares (cerca de €396 mil milhões).

Foi um balde de agua fria nos investidores que esperaram, até ao último minuto, um terceiro programa de "alívio quantitativo" (quantitative easing, em inglês, QE no acrónimo), ainda que o banco central vá tentar replicar alguns dos efeitos do QE no plano de reciclagem de dívidas hipotecárias que, também, anunciou ontem. Esta dupla frente de combate, contra o risco de double-dip (recaída na recessão) nos EUA, já mereceu o baptismo de double-twist por parte do Financial Times. 

Bem Bernanke, o presidente da Fed, foi ao baú da história da Fed buscar esta inovação dos anos 1960, uma operação que continua a suscitar paixões e ódios.

De falhanço de uma ingenuidade de Tobin...

O twist foi uma dança muito popular nos anos 1960 inspirada no rock and rol. Ela inspirou o Nobel James Tobin e a Reserva Federal numa operação que seria anunciada pelo, então, recém-eleito presidente John Kennedy em fevereiro de 1961. Kennedy tinha sido empossado no mês anterior.

O objetivo da Operação Twist original foi de baixar as taxas de juro de longo prazo e manter ou subir as de curto prazo num período em que os Estados Unidos viviam o final de uma recessão de 10 meses, provocando, como na dança provocatória, um "twisting", uma contorção, na curva das yields. A baixa das taxas de longo prazo suscitaria maior propensão ao investimento interno e a manutenção ou subida das de curto prazo atrairia o investimento estrangeiro.

A quebra nas taxas de longo prazo provocaria, no ponto de viragem de saída da recessão, um encorajamento do investimento empresarial e no imobiliário nos Estados Unidos. Além disso, estancaria a hemorragia de ouro para a Europa, que não estava em recessão. Na altura, o valor do dólar estava fixado ao equivalente em ouro.

A operação seria abandonada em 1965 e acabou por ser encarada como um falhanço, depois da investigação realizada pelos economistas Franco Modigliani (Prémio Nobel de 1985) e Richard Sutch. Os dois autores publicaram o balanço na American Economics Review (edição de maio de 1966), com o título "Inovações na Política de Taxa de Juro".

O próprio presidente da Fed, de então, William McChesney Martin, terá comentado, mais tarde, que a ideia de Tobin fora "irremediavelmente ingénua".

Durante esta operação nos anos 1960, a Reserva Federal comprou 8,8 mil milhões de dólares de títulos do Tesouro (1,5 mil milhões em obrigações com prazos superiores a 5 anos e 7,3 mil milhões em bilhetes do Tesouro entre 1 a 5 anos de maturidade), o que representava, na altura, 1,7% do PIB - a atual operação de Bernanke envolvendo 400 mil milhões de dólares representará 2,6% do PIB estimado para 2011.

... a um efeito macroeconómico efetivo

No entanto, um economista do Banco da Reserva Federal de São Francisco, Eric Swanson, estimou, recentemente, que a operação dos anos 1960 teve impacto efetivo nas yields dos títulos do Tesouro de longo prazo, na ordem dos 15 pontos base, o que seria equivalente, em termos macroeconómicos, a uma operação de descida surpresa da taxa de referência (fed funds rate) na ordem dos 100 pontos base. A avaliação feita por Modigliani e Sutch teria sido errada. O título do artigo de Swanson era sugestivo: "Let's Twist Again" (publicado em 14 de março de 2011).

A ideia, agora, é contorcer as taxas de juro de longo prazo para níveis próximos das de curto prazo, de modo a incentivar o investimento num contexto de risco de recaída na recessão. O analista Peter Cohan espera que a contorção da dança de Bernanke não seja excessiva e que não haja inversão da curva, com as taxas de curto prazo mais altas do que as de longo prazo, "o que empurraria a economia americana diretamente para a recessão".

O efeito no mercado secundário da dívida americana foi imediato. As yields para os títulos do Tesouro a 10 anos caíram, quarta-feira, para um mínimo histórico de 1,8576%, uma quebra durante o dia de 4,2%. O mesmo sucedeu com os títulos a 20 anos, que fecharam em 2,69%, um mínimo histórico desde que estes títulos foram reintroduzidos em 1993.

Na abertura de quinta-feira, as yields dos títulos do Tesouro americanos a 10 anos prosseguiam a queda, abrindo em 1,828%. A rendibilidade dos títulos de curto prazo estava em 0,10% para o prazo de 1 ano, 0,19% para 2 anos, e 0,61% para 3 anos.