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O mundo deita fora um bilião de euros por ano em alimentos que desperdiça

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FAO

Enquanto uma parte do mundo (desenvolvido) todos os anos deita para o lixo um terço dos alimentos que não consome, na outra parte há 805 milhões de pessoas com fome, segundo a FAO, organismo das Nações Unidas para a Alimentação.

Enquanto o mundo desenvolvido ou em vias de desenvolvimento desperdiça um terço dos 4 mil milhões de toneladas de alimentos produzidos todos os anos - num valor estimado de um bilião de euros -, noutras partes do globo (sobretudo em África) há 805 milhões de pessoas com fome. Mas o mais chocante, segundo a FAO, organismo das Nações Unidas para a Alimentação, é que por ano morrem 2,5 milhões de crianças devido à má nutrição.

Mas a lista de horrores das Nações Unidas continua: 100 milhões de crianças com baixo peso; 1,4 milhões têm sobrepeso e, do lado oposto desta balança das desigualdades, as Nações Unidas identificaram 500 milhões de pessoas obesas em todo o mundo. Em conclusão: além do desperdício, o mundo continua a não ser capaz de fazer chegar a comida a quem mais dela precisa: os pobres e os mais vulneráveis.

Para Hélder Muteia, representante da FAO em Portugal, tudo isto é "chocante", mas o pior é que a situação poderá agravar-se ainda mais. A população mundial vai aumentar dos atuais 7,2 mil milhões de seres humanos para 9 mil milhões em 2050, segundo os cálculos das Nações Unidas.

Produção de alimentos terá de aumentar 60%

Ou seja, nos próximos 35 anos a produção de alimentos a nível mundial vai ter de aumentar 60%, face aos valores atuais. Quer pelo facto de haver cada vez mais gente a procurar comida, quer ainda devido ao fenómeno crescente da urbanização. 70% da população irá viver em cidades e áreas circundantes, o que também quer dizer que vai haver cada vez menos gente disponível para cultivar os campos. Por outro lado, a FAO estima que a área cultivada aumente apenas 20% "e há projeções ainda mais pessimistas do que as nossas", refere Hélder Muteia.

A resposta poderá estar, segundo aquele responsável, na produção de super-alimentos (lentilhas, soja, batata-doce de polpa alaranjada e beterraba) e superplantas (como a mandioca, o milho e mesmo o arroz), assim como no cultivo dos desertos.

Há valores humanos, para além do lucro

Sobre a atual 'financeirização' do mercado das matérias-primas alimentares, por parte de investidores institucionais que nada têma ver com agricultura ou alimentação, Hélder Muteia sublinha: "todos sabemos que a ética do mercado é o lucro. Mas num mundo em que as pessoas percebem que é preciso pôr em jogo outros valores, o que conta não é apenas o lucro, há outro tipo de ganhos: sociais, de dignidade e também ambientais. Não nos podemos esquecer que, ao lado da sustentabilidade económica, está a sustentabilidade humana".

O representante da FAO em Portugal conclui, dizendo que "é preciso discutir o problema com os principais atores do mercado e estabelecer princípios, regras, práticas e valores. Se o mercado dos alimentos estiver despido de valores, a condição humana fica também ameaçada".