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O mito da periferia

Europa A contradição entre centro e periferia é para esquecer: a real divisão é o Norte contra o Sul.

Exclusivo Expresso/The Economist

Consta que as economias 'periféricas' da União Europeia estão todas em apuros, devendo portanto as economias 'nucleares' europeias, especialmente as do coração da zona euro, decidir como ajudar os colegas que vacilam à beira da falência e do mapa - sem destruir a disciplina orçamental necessária para fazer o euro funcionar. A cimeira de líderes da UE da semana passada, que teve início já após a publicação desta edição do "The Economist", deveria ser dominada por este debate, confrontando a Alemanha (o núcleo do núcleo) contra os governos que consideram que deve ser elaborado um plano credível para ajudar os membros esbanjadores do clube. A lista é encabeçada pela Grécia, havendo no entanto alguma ansiedade relativamente a Portugal, Espanha e até Itália.

A referência a uma periferia crítica na UE tornou-se tão frequente que basta uma espreitadela ao mapa para concluir quão estranho (e esclarecedor) é. O observador externo pode concluir que, na UE, o poder económico de um país (e a respectiva notação de risco de crédito) está directamente relacionado com a distância entre esse país e Bruxelas e Frankfurt. No entanto não é assim. A Finlândia é um país da zona euro muito distante de ambas as cidades mas consegue emitir uma dívida pública a dez anos mais barata do que países nucleares como a França e a Bélgica.

Em termos práticos, a referência à Europa periférica é, no fundo, uma forma de dizer algo bastante diferente. Quando jornalistas, altos funcionários e políticos começaram a usar a frase, era uma forma estenográfica para 'países meridionais com finanças públicas preocupantes, acrescidos da Irlanda' também num extremo do mapa europeu. Recentemente, no entanto, a Irlanda transformou-se num país na 'mó de cima', elogiado pelos altos funcionários e políticos pela adesão estóica à austeridade na sequência da explosão da sua bolha imobiliária. 'Periférico' deixou de ser um termo estenográfico para se tornar um eufemismo para 'meridional'.

As divisões Norte-Sul não são desconhecidas na UE. Quando o euro foi planeado, nos anos 90, muitos políticos alemães queriam uma zona monetária que apenas compreendesse a Alemanha, os países do Benelux e a França. A França queria um grupo maior, temendo que os países meridionais excluídos desvalorizassem, como se veio a verificar tanto com a Itália como com a Espanha em 1992-93, tornando as exportações francesas menos competitivas. Não obstante, os alemães suspeitavam que o empurrão da França a favor do Sul tinha outros objectivos: uma união monetária que mais provavelmente toleraria um maior laxismo fiscal e uma maior interferência política.

Na verdade, o sul da Europa não é um bloco monolítico. Embora sob menos pressão do que a Grécia, a notação de risco de crédito de Portugal foi reduzida esta semana. O país apresenta um elevado défice orçamental e graves problemas estruturais (mais de metade dos adultos portugueses abandonaram os estudos na idade mínima obrigatória). Portugal sofreu um choque quando os países ex-comunistas aderiram à EU e seduziram as multinacionais que gostam da mão-de-obra barata.

Por contraste, Portugal fez mais no sentido de pôr em ordem o sector público do que a Grécia ou Espanha e mais no sentido de reformar as suas pensões do que a Itália, tendo recentemente congelado as despesas sociais até 2013.

Em Lisboa está viva a memória de como os nortenhos se 'surpreenderam' quando Espanha, Itália e Portugal cumpriram as condições de adesão à moeda única. António Vitorino, ministro à época, recorda um colega holandês a comentar friamente: "bem, agora que se qualificaram para o euro, já não necessitam de fundos de coesão ou seja, ajuda regional da UE". No entanto, Portugal não fez o trabalho de casa para se preparar para aderir ao euro, comenta Vitorino. Depois de se conseguir habilitar às baixas taxas de juro alemãs de um dia para o outro, os cidadãos embarcaram numa espiral de endividamento privado. Portugal também não reformou os seus mercados laborais. "Desde 1999 que todos sabíamos que poderiam ocorrer choques assimétricos na zona euro", refere Vitorino, mais tarde comissário de justiça da UE. Mas a Alemanha "recusou-se a debater" as tensões que os diferentes níveis de desenvolvimento económico poderiam causar.

As actuais divisões Norte-Sul são mais acentuadas, mais populistas, e incorrem riscos maiores. A razão porque a chancelerina alemã, Angela Merkel, assumiu uma posição tão firme relativamente a uma fiança à Grécia e deu a entender que os países mais mal comportados deveriam ser expulsos do euro não é nenhum mistério político. Os eleitores alemães opõem-se veementemente a pagar para que a Grécia saia do incumprimento, e a constituição alemã também estabelece barreiras jurídicas a qualquer pagamento de fiança que possa ameaçar a estabilidade do euro.

A virtude alemã contra o vício grego

Na política, os argumentos têm uma força especial quando são fáceis de entender e reflectem preconceitos antigos. O debate alemão sobre a Grécia tem tomado forma com base no facto de alguns gregos se poderem reformar dez anos mais cedo do que os alemães, e pela fraude estatística levada a cabo pelos anteriores governos gregos para disfarçar o seu défice orçamental. Daqui até às manchetes alemãs que apelidam os gregos de "caloteiros na zona euro" (provocando manchetes gregas sobre crimes nazis e roubo de ouro durante a Segunda Guerra Mundial) é apenas um pequeno passo.

Este tipo de injúrias ignora a complexidade humana da Europa. A Grécia é mal governada há anos, com governos sucessivos a distribuir empregos vitalícios, reformas antecipadas e contratos lucrativos. Mas este tipo de clientelismo surgiu em parte devido ao facto de o país ter sido governado de forma severa durante muitos anos.

Os governantes socialistas alargaram o sector público na década de 80, em parte para reintroduzir os cidadãos esquerdistas no sistema, após décadas de exclusão e repressão por parte da direita. Os empregos vitalícios foram concedidos em parte para impedir os novos governos de despedirem os preferidos do seu antecessor.

Este tipo de história tem importância. Aos olhos dos nortenhos, os sulistas, a quem os patronos políticos concederam empregos vitalícios, aparentam ser privilegiados.

Aos olhos dos sulistas, esses mesmos trabalhadores da função pública sentem-se como vítimas, cujos empregos mal remunerados são apenas uma compensação pelas misérias passadas. (O sector público português cresceu em parte para absorver 800.000 cidadãos que regressaram após o colapso do seu império colonial em 1974.)

A Europa vai precisar de maior empatia para que o euro resista. O trabalho árduo de um regresso à verdadeira convergência será impossível sem o consentimento do eleitorado. Enquanto a Europa enfrenta essa tarefa, nenhuma economia, nortenha ou sulista, pode ser considerada periférica.

© 2010 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados. Em "The Economist", traduzido por Alice Stilwell para Impresa Publishing, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com