Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Nicolau Santos escreve sobre Belmiro de Azevedo, que não abre portas mas que as deita abaixo

D.R.

Há muitos empresários em Portugal, mas nenhum como ele. Construiu um império e uma das maiores fortunas do país a golpes de visão, engenho e trabalho, muito trabalho. Perdeu várias batalhas mas ganhou muitas guerras. E nunca se coibiu de criticar publicamente os políticos de qualquer quadrante.

Nicolau Santos

Nicolau Santos

Diretor-Adjunto

Chegou a pensar em candidatar-se a Presidente da República, mas não tinha a paciência necessária para os compromissos que tal implicaria. Afinal, disse um dia: "Eu não abro portas. Deito-as abaixo".

Com efeito, qual é o empresário português que se atreveria a dizer que não queria Luís Marques Mendes nem para porteiro da Sonae? Ou que Marcelo Rebelo de Sousa "deveria ser eliminado, pura e simplesmente. Não tem a categoria, a honestidade necessárias a um líder da oposição"? Ou que "Cavaco é um ditador"? Ou que Sócrates não era um primeiro-ministro, mas sim "o chefe de um grupo de empregados", e que não havia "exemplo de alguém ter feito tanta coisa tão mal feita em tão pouco tempo. Vai para o Guinness"? Só um: Belmiro Mendes de Azevedo, 77 anos feitos a 17 de fevereiro e que agora abandona todos os cargos no grupo que fundou.

Mais velho dos oito filhos de um carpinteiro/agricultor e de uma costureira, Belmiro de Azevedo começou a trabalhar cedo para pagar os estudos, que culminaram com a licenciatura em Engenharia Química. Antes, contudo, já começara a trabalhar, primeiro na Efanor, depois na Sonae (Sociedade Nacional de Estratificados), cuja liderança assume a partir de 1974 e dando origem a um conflito judicial com a família do fundador, Afonso Pinto de Magalhães, que se arrastou por vários anos. Esse seu traço, o de não fugir da conflitualidade e de dirimir as questões em tribunal, mesmo contra o Estado, há de marcar toda a sua trajetória.

Nos anos 80, quando Cavaco Silva era primeiro-ministro e Miguel Cadilhe ministro das Finanças, realiza a operação financeira que lhe deu os fundos necessários para tornar a Sonae o maior conglomerado empresarial do país: sete Ofertas Públicas de Venda (OPV) de empresas do grupo, realizadas simultaneamente.  

A partir daí, Belmiro tenta tornar-se acionista relevante de uma instituição financeira. Com um grupo de industriais do norte, liderados por João Oliveira, na altura presidente do Banco Português do Atlântico (BPA), tenta controlar o banco, mas falha e o BPA acaba nas mãos do BCP, liderado por Jorge Jardim Gonçalves.

Tenta igualmente ficar com o Banco Totta e Açores quando este é privatizado. Mas mais uma vez falha. José Roquette surge como o vencedor, mas afinal a mão que estava por trás era a de Mario Conde, presidente do Banesto. Nos dois casos perdeu. Mas nos dois casos fez importantes mais-valias.

Vira-se então para a Portucel, na altura em que António Guterres era primeiro-ministro e Sousa Franco o ministro das Finanças. O certo é que Sousa Franco desenha um modelo de venda da papeleira que leva Belmiro a desistir dos seus intentos. Pedro Queirós Pereira há de ser o novo dono.

Entretanto, o Grupo Sonae transforma-se. De um grupo industrial passa a ser um grupo de distribuição, com interesses na área das telecomunicações. A construção e gestão de centros comerciais tornam-se um ex-libris da Sonae Sierra, que ganha vários prémios internacionais. E a Optimus transforma-se no terceiro operador de telecomunicações no mercado português, lugar de onde nunca conseguiria sair.

Mais tarde, há de perder a oportunidade de ouro para criar um grupo de distribuição de dimensão internacional quando esteve em cima da mesa a fusão entre a Sonae e o Grupo Jerónimo Martins. E não se livra da fama de tratar mal os acionistas minoritários.

Pelo meio, Belmiro financia o projeto jornalístico que há-de mudar o panorama da imprensa portuguesa: o "Público". O jornal, que nunca teve sucesso comercial (Belmiro considerava que o "Público" era "uma nódoa na excelência da gestão do Grupo Sonae"), foi contudo, pelo seu rigor e qualidade, uma pedrada no charco nos media nacionais. Ao mesmo tempo, mudou a imagem de Belmiro: até aí era conhecido como "o empresário de Marco de Canaveses". Depois disso, passou a ser visto como um grande empresário português, que pensava para lá das questões de intendência.

Entretanto, a Sonae torna-se uma produtora de excelentes quadros. Belmiro é de uma enorme exigência. O engenheiro acredita no trabalho árduo, na competência, na dedicação, na exigência, na transparência. Ele próprio dá o exemplo. O seu foco é melhorar o grupo a todos os níveis. Na Sonae não há lugar para medíocres nem para acomodados, só para o "homem Sonae", cujas qualidades são definidas num documento divulgado por todos os quadros do grupo.

Esse sentimento da existência de inúmeras aptidões no Grupo Sonae leva-o a tomar a sua decisão mais arrojada: o lançamento de uma OPA sobre a Portugal Telecom (PT), muitíssimo maior que a Sonaecom, dona da Optimus. A operação é recebida com grande entusiasmo pelos mercados mas logo na altura Belmiro anuncia que, se vencer, abandonará o mercado brasileiro. A operação arrasta-se durante longos e penosos meses devido à análise da Autoridade para a Concorrência e o sentimento muda.

Aos acionistas da PT, liderada por Henrique Granadeiro e Zeinal Bava, é oferecido um pacote absurdo de dividendos - e a OPA é chumbada. Foi a última grande derrota de Belmiro. A fusão da Optimus com a Zon, controlada pela empresária angolana Isabel dos Santos, já tem a marca do seu filho e sucessor, Paulo Azevedo.

E o lançamento do Continente em Angola (mercado onde Belmiro sempre disse que a Sonae não estaria, por as regras ali praticadas não se adequarem aos valores da Sonae) também começou a dar passos sob a direção de Paulo Azevedo (mas já houve um sobressalto, com Isabel dos Santos a "roubar" os dois quadros que a empresa portuguesa tinha mandado para aquele país para instalarem o projeto). 

Sendo dono de uma enorme frontalidade (abrasiva, dirão os que já lhe sentiram os efeitos), Belmiro foi provavelmente prejudicado em várias decisões públicas. Isso nunca o fez recuar nas críticas que dirigiu a vários políticos, mas também aos supervisores ou mesmo aos seus pares. Ao mesmo tempo, é de uma enorme generosidade para com a terra que o viu nascer, Marco de Canaveses, e não esquece que a educação é o único elevador social garantido. Por isso, tem contribuído para novos estabelecimentos de ensino na cidade do Porto, quer nas formações intermédias, quer a nível superior.

Finalmente, sendo uma das pessoas mais ricas de Portugal, nunca fez questão de ostentar essa riqueza. Pelo contrário, os seus hábitos são de uma enorme frugalidade. Mantém o mesmo carro durante muitos anos ou os mesmos sapatos. Não é, claramente, o facto de ser cada vez mais rico que o fez mover durante 50 anos, tornando-o o mais importante empresário português no pós-25 de Abril de 1974.