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"Não há região na Europa com água, terra e clima como o Alqueva"

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José Pedro Salema presidente da EDIA

Nuno Botelho

O presidente da EDIA explica como o Alqueva está a mobilizar cinco mil milhões de euros e como quer atingir 170 mil hectares de regadio e impulsionar o turismo. Uma revolução feita com água que está a atrair investidores estrangeiros.

Rosália Amorim e Vítor Andrade

Um ano depois de ter tomado as rédeas do projeto de regadio do Alqueva, José Pedro Salema, 41 anos, já se sente um alentejano. Passa a maior parte da semana de trabalho em Beja ou a visitar as mais de 20 frentes de obra que ainda decorrem. Não dispensa o contacto permanente com os agricultores e garante que muitas vezes, quando vai almoçar a alguns restaurantes da região, é frequente ouvir falar inglês, francês ou espanhol. "São os quadros de algumas multinacionais estrangeiras que estão a ajudar a mudar a face do Alentejo. Vieram atrás desta terra fantástica e da água do Alqueva. O sol faz o resto." A produtividade por hectare em certas culturas está a atrair investidores de várias nacionalidades, mas também muitos jovens portugueses, que optaram pela agricultura. Alqueva mobilizou já quatro mil milhões de euros: 2,5 mil milhões em infraestruturas, mil milhões em projetos agrícolas, via PRODER, e mais de 500 milhões em investimentos complementares, incluindo o aproveitamento hidroelétrico do Grande Lago. Mas os números continuam a crescer e José Pedro Salema, presidente da EDIA -que em março comemora 20 anos, espera que até 2020 venham parar ao regadio pelo menos mais mil milhões de euros de financiamento comunitário a novos investimentos na lavoura. Onde estes números também se estão a fazer sentir é ao nível da criação de emprego: mais de 20 mil novos postos de trabalho induzidos pelo projeto, no seu total, assim que estiver em velocidade de cruzeiro, daqui a dois/ três anos. Para se ter uma ideia da dimensão do regadio basta dizer que só a rede primária tem 380 quilómetros de canais adutores, que são pequenos rios artificiais construídos para levar a água onde é precisa. Já em fase de rega estão 68 mil hectares, valor que deverá subir para 90 mil já na primavera. Até final do ano ficarão irrigados os 120 mil hectares previstos desde o início do projeto. A grande novidade é que há potencial hídrico para aumentar o regadio até 170 hectares.

Um ano depois de ter tomado os comandos da EDIA, está arrependido de ter aceite o cargo?

Antes pelo contrário. Encontrei uma empresa com uma equipa fantástica, feita de pessoas que vestem todos os dias a camisola, que se apaixonam pelo projeto. Ou seja, as condições essenciais para termos um bom ambiente de trabalho e alegria naquilo que fazemos. Por outro lado, o projeto é completamente apaixonante: contribuir para a mudança da paisagem do Baixo Alentejo e, em simultâneo, criar mais riqueza, gerar mais emprego, fixar populações e perceber que isto não é apenas conversa oca, pois basta irmos ao campo para nos apercebermos disso mesmo.

Alguma vez pensou gerir um projeto como este?

Assim que comecei a conhecer pessoas ligadas ao poder e à Administração Pública, pensei que havia dois desafios que era capaz de aceitar: presidir à EDIA ou à Companhia das Lezírias. Quando surgiu este convite, pensei que era bom de mais para dizer que não.

Estar aqui é mais desafiante que na Companhia das Lezírias?

Apesar de a Companhia das Lezírias ser a maior propriedade do país, aqui temos a possibilidade de mudar o panorama do regadio a nível nacional.

Em contacto com as populações abrangidas pelo regadio, nota que as pessoas estão a sentir que o seu dia a dia está a mudar com a chegada da água aos campos, que sempre foram de sequeiro?

Sim, sem dúvida. Agora claro que há sempre pessoas avessas à mudança, que não querem a água nos seus campos, que dizem que não pediram água. São normalmente pessoas mais velhas, com propriedades pequenas. Pessoas que têm outra fonte de rendimento e para as quais a agricultura é apenas uma herança familiar e nada têm a ver com o assunto. Mas quem está a viver da terra sabe qual é o verdadeiro valor que a água lhe pode trazer e é claramente multiplicar por dez o seu rendimento. Se o trigo gera 150 euros por hectare, o milho pode gerar 1500 euros por hectare.

De que forma se sente que este projeto mexeu com a economia da região?

Só no último PRODER, o investimento para a região do Alqueva ronda mil milhões de euros. O entusiasmo é de tal ordem que há agricultores a fazer investimentos em materiais de rega (pivôs, nomeadamente) antes de a água chegar às propriedades.

No total, o projeto do Alqueva já mobilizou quantos milhões de euros?

Desde o início do projeto, foram investidos 2,5 mil milhões de euros em infraestruturas e mais mil milhões de euros via PRODER do último Quadro Comunitário de Apoio, mais alguns investimentos privados, como o caso do aproveitamento hidroelétrico, que rondam já quatro mil milhões de euros. Do próximo lote de fundos comunitários para a agricultura espera-se que pelo menos mil milhões de euros se destinem a investimentos no Alqueva, o que perfaz um total de cinco mil milhões de euros.

Fica irritado quando alguém diz que a água do Alqueva só serve para regar campos de golfe?

Nem chego a ficar irritado. Fico desiludido e desanimado por as pessoas não conhecerem a realidade. Mas não as posso condenar por isso, pois mesmo eu, que sempre trabalhei na agricultura, pensava que conhecia bem o Alqueva até me sentar nesta cadeira. A dimensão e a abrangência da rede de rega é algo que quem não está por dentro não tem a mínima noção. Quando se fala de uma rede de dois mil quilómetros, é algo como um buraco desde Lisboa até Paris. É essa a dimensão da rede de rega no Alqueva.

Os campos de golfe são um mito?

Pois são. Mas mesmo que fossem campos de golfe, esses campos também são agricultura de regadio. É um prado que tem de ser permanentemente regado. Qual é o problema se a relva, em vez de alimentar gado, servir para americanos a darem umas tacadas?

Neste momento não há um único campo a ser regado?

Não. Era para haver um (do projeto de José Roquete, em Reguengos), mas não há.

O investimento estrangeiro tem cada vez mais peso no Alqueva. Há já projetos de quantas nacionalidades?

Espanha, em primeiro lugar, França, África do Sul, Marrocos, Alemanha, Escócia, Holanda e Austrália.

O que é que leva um investidor estrangeiro a optar pelo Alqueva e não por outra qualquer região da Europa, onde seguramente também há condições de cultivo igualmente atrativas?

Não há nenhum país da Europa que tenha esta combinação de disponibilidade de água, de terra e de clima ameno como nós temos aqui. Espanha, por exemplo, não tem nenhuma disponibilidade de água e terra como existe no Alqueva. Se progredirmos para norte, começamos a perder graus de calor e, portanto, deixamos de poder antecipar produções e ter mais açúcar e sabor nos produtos. Porque é que as uvas do Vale da Rosa são muito apreciadas pela doçura? Porque isso significa muita fotossíntese, e isso é radiação solar, conjugada com água. Estamos no sítio da Europa com maiores níveis de radiação solar.

Qual vai ser o plano de promoção internacional do regadio do Alqueva em 2015?

Vamos estar em Berlim, na maior feira de frutas e legumes do mundo, onde temos agendadas reuniões com potenciais investidores. Queremos despertar o interesse deles e a seguir ter missões inversas com eles a visitarem o Alqueva. Vamos estar também na Feira de Dom Benito, na Extremadura espanhola, que é um país com muita presença no Alqueva. Por isso também estaremos em Zafra e em Badajoz. São três eventos anuais com muita importância para nós, dada a proximidade da Andaluzia e da Extremadura. Por outro lado, muitas vezes acompanhamos a ministra da Agricultura em deslocações.

Um dos objetivos da EDIA é promover o projeto do Alqueva no estrangeiro, para trazer o maior número possível de investidores para o Alentejo...

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. Mas isso tem de ser feito já, pois a janela de oportunidade é até final de 2016. Não acredito que em 2020 existam muitas oportunidades para grandes grupos virem para Portugal instalarem-se em novas culturas, porque nessa altura já estará tudo tomado. Por isso penso que a melhor oportunidade é quando a água está a chegar aos campos e alguns proprietários ainda não sabem muito bem o que fazer e estão abertos a parcerias, propostas de arrendamento e de venda. Porque se isto for muito bom e nós acreditamos que sim quem é que irá querer vender? Aliás, as grandes oportunidades existem antes de a água chegar. Mas nós também já sabemos que o sistema vai conseguir regar mais que os 120 mil hectares previstos desde o início. Ou seja, há oportunidades que estão nos terrenos vizinhos do sistema.

Até que área pode crescer o regadio do Alqueva?

Facilmente, até 170 mil hectares.

Ou seja, assim haja vontade de investir e o regadio pode crescer mais 50 mil hectares para lá do previsto?

Exatamente. Porque as dotações planeadas há 20 anos, quando o sistema foi imaginado, eram de seis mil metros cúbicos de água por hectare. E as dotações que estamos a verificar hoje são de metade desse valor. Porque há, por exemplo, uma grande percentagem de olival que consome dois mil metros cúbicos por hectare, o que faz baixar muito a média. Há uma predominância de culturas com baixas dotações e, por outro lado, há um aumento da eficiência dos mecanismos de rega que permitem poupar água. Há 20 anos havia níveis de desperdício de 40% da água e hoje há pivôs (instrumentos de rega por aspersão) que reduzem esses desperdícios para 10% ou mesmo 5%.

Qual é o principal objetivo da EDIA para 2015?

O objetivo primário é a conclusão das obras. Temos 22 frentes de obra e todas elas têm de estar concluídas e operacionais na primavera de 2016.

Houve um recuo no investimento japonês da Kagóme na plantação e transformação do tomate?

Não se pode dizer que tenha havido um recuo. Simplesmente eles ainda não decidiram.

E o que se passa com o projeto dos italianos da DAI para a beterraba sacarina?

A última informação que tivemos foi que a DAI tinha decidido avançar para a reabilitação da fábrica de Coruche para produzir açúcar de beterraba. E querem fazê-lo já na campanha de 2016, mas com um grande foco na produção de beterraba nesta zona estamos a falar de 30 mil hectares.

E os agricultores estão dispostos a investir nessa cultura?

Os agricultores quererão sempre fazer culturas que lhes tragam rendimento. A beterraba tem um ótimo histórico na região. Deixou muitas saudades. Quando foi aqui produzida, conseguiu gerar rendimentos de que os agricultores têm saudades. Logo, se os preços forem semelhantes aos que se praticaram no passado, não há razão para não se conseguir fazer aqui novamente beterraba em larga escala.

Por esse raciocínio, o olival é uma boa aposta, independentemente de algumas críticas de ambientalistas que falam em excesso de olival no Alqueva?

Sim, claro. Para mim não há excesso nenhum de olival no Alqueva. Há muito e há oportunidade de crescer.

Quantos hectares estão plantados?

Na nossa área, mais de 20 mil.

A área de olival pode crescer até quanto?

O mercado é que irá dizer. Enquanto o azeite for bom negócio e enquanto os agentes económicos continuarem a conseguir vender o seu azeite e a ter procura, com certeza que vai haver mais.

Então, porque persistem as críticas ao olival?

A crítica que existe ao olival tem mais a ver com as práticas pouco sustentáveis do ponto de vista ambiental do que com a espécie olival, porque é possível ter olival com baixíssimo impacto ambiental, com muita biodiversidade e muito valor ambiental associado. As nossas equipas de monitorização, que estão no terreno, têm avistamentos de espécies fantásticas por cima de oliveiras. O olival não afasta a biodiversidade.

Em relação à floresta regada, não haverá futuro para isso enquanto a legislação não for alterada?

Esse tema é tabu. Não falo sobre isso porque é mal entendido e não vale a pena.

Na área do turismo, há ilhas do Alqueva com potencial. O que pretende fazer nessas ilhas?

São 426 ilhas no Alqueva e a EDIA gostava muito que o território estivesse ordenado com regras muito claras. Temos um estudo já preparado sobre determinadas ilhas que podem ter utilizações turísticas em dois graus, ou seja, com permanência ou sem permanência, com cadernos de encargos ambientais associados consoante esses graus. O que desejaríamos é que este espaço estivesse a ser utilizado e a ser concessionado a agentes locais. Não acredito que a conservação do território se faça sem o homem. Ao excluirmos o homem da equação a situação não fica nada melhor, precisamos da presença do homem que utilize o espaço com regras.

Das 426 ilhas, quantas seriam convertidas ao turismo?

O estudo que temos aponta que existem 40 com valor ambiental elevado e deveriam ser dedicadas unicamente à preservação ambiental, mas as outras poderiam ter utilização turística. Poderão não ser todas, mas, por exemplo, há cinco que já têm construções e seriam os locais ideais para instalar algum tipo de turismo, como restaurante, hotel ou local de pernoita, e com presença humana permanente e possibilidade de serem concessionadas ao privado.

A EDIA explorará ou será concessionária?

Eu antevejo a concessão. A EDIA pode dar o exemplo em alguns casos, para mostrar como é que seria o modelo ideal de utilização daquele espaço.

O projeto está só no papel?

Está nas intenções e nos estudos dos nossos engenheiros do ambiente que estudaram o assunto. Estamos a quantificar esses investimentos e a tentar perceber como poderiam ser feitos.

Seria mais uma fonte de receitas para a EDIA?

Sim, mas antes de ser fonte de receitas tem de haver investimento, e para o fazer temos sempre de perceber onde é que vamos buscá-lo.

E onde vão buscar esse financiamento?

Antevejo que será aos fundos estruturais.

O que podem ser esses investimentos na prática?

Um investimento tipo pode ser uma recuperação, a criação de uma rede de caminhos interpretativos, acessibilidades e informação no local. Quanto é que isto pode custar? Não sei, umas centenas de milhares de euros talvez.

Tem ainda a intenção de concessionar algumas estruturas que estão construídas junto à barragem?

Sim, são duas já existentes e que na construção da obra albergaram funcionários; uma delas tem 80 quartos. Essas estruturas poderão servir também fins turísticos. A EDIA pode dar esse exemplo e um estímulo à atividade de turismo, porque é uma infraestrutura que está sob gestão da EDIA, que não está a ser utilizada e pode ser potenciada. É uma bandeira para podermos mostrar o que pode e deve ser feito na área do turismo.

Nessas, a EDIA investirá ou serão grupos hoteleiros privados?

A ideia é que sejam grupos hoteleiros privados.

Em termos de captação de receitas, além da água e do turismo, há ainda as da eletricidade. Quanto é que estas últimas representam?

A EDIA tem cinco centrais mini-hídricas e estão todas em velocidade de cruzeiro. Quando estivermos a distribuir toda a água prevista, pode significar 1,5 milhões de euros de receitas pela venda de eletricidade das mini-hídricas.

Para as receitas de venda de água que previsão tem?

Em velocidade de cruzeiro, podem chegar a 25 milhões de euros. Nós estamos num período em que ainda há descontos significativos para os agricultores e estamos a distribuir um volume de água que é cerca de um quinto da nossa concessão. Assim, só em volume podemos multiplicar por cinco e, crescendo mais o preço, chegaremos à velocidade de cruzeiro, mas nunca antes de 2020.

Com 12,5 milhões de euros de receita vinda da EDP pela concessão para eletricidade, mais 1,5 milhões de euros das mini-hídricas e as futuras concessões de turismo, daqui a cinco anos poderemos ter a EDIA a dar lucro?

É possível. Se conseguirmos ultrapassar o problema da dívida.

E como será ultrapassado esse problema?

Isso tem de ser perguntado ao acionista. As decisões de financiamento nunca foram tomadas pela EDIA. O pressuposto inicial foi que o Estado injetaria capital à medida que os investimentos fossem feitos e que a EDIA não conseguisse encontrar financiamento comunitário. Infelizmente, as injeções de capital pararam no ano de 2007. Em 2009 houve uma, mas foi insignificante. Desde então, o negócio nunca foi pensado para pagar o endividamento. Foi pensado para pagar a operação, para ser sustentável do ponto de vista operacional e não do ponto de vista financeiro. Este governo o que disse foi que iria concluir o Alqueva e não iria aumentar a dívida, e isso tem cumprido. Temos conseguido financiamento a 100%. Contudo, há um problema de efeito de bola de neve da dívida, que por via dos juros vai crescendo sozinha. Hoje está num total de 750 milhões de euros.

A EDIA, em vez de dever à banca, passou a dever ao IGCP. Pode explicar esta situação?

A EDIA, tal como outras empresas do setor empresarial do Estado, passou a fazer parte das contas públicas, e, portanto, o orçamento passou a fazer parte do Orçamento do Estado e a dívida passou a ser dívida portuguesa a partir deste ano, tal como aconteceu com a Carris, o Metro, etc. A EDIA resolveu um problema de dívida do curto prazo de 189 milhões de euros, dos 700 milhões de euros do total, e estava contraída com a banca comercial e com taxas que tinham vindo a descer mas que há dois anos eram muito pesadas. O que o acionista decidiu fazer foi reestruturar essa dívida de curto prazo com um empréstimo de médio prazo, a sete anos, com uma taxa de juro igual à do financiamento da República. Isso fez com que o nosso custo com a dívida de curto prazo baixasse para cerca de metade.

Tem um compromisso com este governo de ficar três anos em funções. O que será para si deixar uma missão cumprida no final desse tempo?

Deixar a obra concluída; deixar bandeiras como a do turismo, com investimentos e concessões sempre com relevância, dimensão e significado para o turismo na região; na energia, a EDIA pode ser um exemplo na utilização de renováveis, como é o caso da fotovoltaica.

Isso minoraria os altos encargos com energia...

Os encargos com energia são significativos e, dependendo do que chove, são milhões, são cinco, seis ou sete milhões de euros, e em cruzeiro podem ser 20 milhões de euros. No limite, teríamos capacidade para instalar grandes centrais fotovoltaicas que eliminassem por completo esse custo, mas isso é sonho, se não fosse poderíamos pelo menos ser líderes em soluções inovadoras de energia fotovoltaica para bombagem solar. Está na moda e não há muitos exemplos com estas dimensões.

Que outras bandeiras gostaria de deixar?

No ambiente, os valores ambientais têm sido muito preservados e uma marca de sucesso seria comunicar melhor aquilo que já é feito e mostrar que essa atividade é regular e tem resultados constantes. No património temos já 1800 sítios arqueológicos identificados, mas serão seguramente mais. Um bom exemplo de sucesso seria conseguir mostrar ao grande público o que foi descoberto e o que é que o Alqueva permitiu mudar no conhecimento da História pelas escavações que originou. Noutro dia, no Museu Nacional de Arqueologia, o diretor dizia--me que "o museu tem 125 anos e alberga o espólio de três mil sítios arqueológicos, e vocês [EDIA] têm dois mil".

Podemos almejar um museu arqueológico do Alqueva?

Sim, podemos sonhar. Mas o tempo não está para investimentos! Que existe material, isso existe! Mas não temos a ambição de fazer um museu como Foz Côa, temos a ambição de mostrar este património. Dou-vos o exemplo do PPN -Parque de Natureza de Nodar, pois junta ambiente, turismo, património e gestão sustentável. Só tem um problema: estar longe de tudo, a três horas de Lisboa, mas é uma joia do Alentejo!

Alqueva precisaria de um parque ambiental?

É isso mesmo que falta. Falta ter um parque que permita estar perto da água. Quem vem de fora quer vir para perto da água, ver o lago. Um parque natural das ilhas do Alqueva teria essa vantagem e permitiria usufruir das ilhas. Porque no passado a EDIA fez uma rede de ancoradouros, mas falta fazer o resto, porque ninguém vem para ali se não houver infraestruturas como a rampa para o barco, o restaurante, o balneário, o estacionamento e o turismo rural. Hoje há um limite junto à água que está atribuído à gestão da APA -Agência Portuguesa do Ambiente e a atuação da EDIA faz-se acima da quota 153, só acima desta é que temos 'jurisdição'. Portanto, se conseguíssemos criar um parque natural das ilhas do Alqueva, teríamos de estar articulados com a APA.

Tem ainda intenção de vender alguns dos 800 hectares de terra que a EDIA detém?

Sim, até para tornar a operação da EDIA eficiente, manter ou melhorar os resultados operacionais, focarmo-nos no essencial e cortar naquilo em que podemos cortar. Se há património que podemos alienar e que foi só resultado da obra (resultam das expropriações), acho que deveremos fazê-lo.

Tem falado da necessidade de promover melhor o Alqueva. Como pretende fazer isso?

O objetivo da promoção é aumentar a taxa de adesão. O sonho é chegar a 80% em dez anos. A média nacional de utilização dos regadios públicos é de 50%. Aqui, o sonho é atingir 80%, até porque os 100% são utópicos, na medida em que há sempre rotação de terras. Hoje temos uma taxa de 64% e já estamos acima da média nacional.

Quanto à expansão, de futuro só se deve fazer mais regadio em zonas em que a procura esteja garantida. Se houver um pedido de um grupo ou de um agricultor, e se até estiver disposto a comparticipar parte do investimento, sei que essa área, de certeza absoluta, vai ser regada, e então vale a pena. Hoje essa expansão já está a acontecer. Já há muitos hectares chamados de 'regantes precários', que são proprietários que estão fora do mapa de regadio mas que nos pedem acesso à água. Hoje é política desta administração viabilizar todos os pedidos que tenham viabilidade técnica e ambiental, ou seja, se o sistema tem capacidade e está num sítio com condições ambientais para fazer regadio, então iremos autorizar. Temos legalizado muitos pedidos de captação direta na nossa rede.

 

 

BI

 

Nome

José Pedro Salema

 

Idade

41 anos, dois filhos, com 3 e 6 anos

 

Formação

Engenharia Agrónoma e MBA e mestrado em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa

 

Percurso

Antes de presidir à EDIA, geria a empresa que fundou, a Agro-Gestão, dedicada à produção de software para a agricultura e consultoria

 

Lição que aprendeu na passagem do setor privado para o público

"Primeiro, aprende-se a não julgar rapidamente a Administração Pública, porque normalmente, quando estamos fora, somos muito rápidos a dizer que os organismos não servem para nada, que têm excesso de pessoas, que gastam muito dinheiro; quando passamos para o outro lado, vemos que as coisas não estão assim tão mal geridas ou até estão muito bem geridas e se fosse uma empresa privada, se calhar, não havia muitas diferenças. Essa é hoje a minha grande mudança. Quando a ministra me convidou para este cargo, eu disse-lhe que por vezes era um crítico da EDIA e a resposta dela foi 'ainda bem, precisamos dessa perspetiva a bordo'."

 

Próximo passo na carreira

"Ter um cargo executivo no governo não, de todo. Não me atrai minimamente. Qualquer pessoa que tira o curso de Agronomia tem como sonho, como ideal de vida, estar a produzir, e, portanto, adorava ser agricultor."

Este artigo é parte integrante da edição de fevereiro da revista EXAME