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Moedas temeu que problemas do BES tivessem impacto na saída da troika

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FOTO ALBERTO FRIAS

Ex-secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro confirma ter sido alertado por Ricardo Salgado para os riscos sistémicos do BES, a 2 de maio, e ter admitido que isso poderia ter implicações na saída limpa da troika. Mas Moedas optou pelo silêncio e não disse nada à missão tripartida, alegando não ter funções relacionadas com o sistema financeiro.

Anabela Campos e Filipe Santos Costa

Carlos Moedas, comissário europeu para a Investigação, Ciência e Inovação, admitiu em resposta escrita à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) ao BES e ao Grupo Espírito Santo, ter tido receio de que os problemas do banco liderado por Ricardo Salgado pudessem afetar a saída da troika, prevista para 17 de maio de 2014. Mas acabou por não nada fazer com a informação que o ex-banqueiro lhe tinha transmitido a 2 de maio.

"Depreendi que a situação poderia ser mais preocupante do que se supunha pelo que admiti que pudesse haver implicações para o processo de saída do programa em que Portugal se encontrava. Recorde-se, que o programa tinha acabado formalmente no dia 17 de maio, mas ainda não tínhamos obtido aprovação formal na última avaliação do programa por parte do Fundo Monetário Internacional", afirma Carlos Moedas, ex-secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro, nas respostas escritas que fez chegar a 26 de fevereiro à comissão parlamentar de inquérito (CPI) ao colapso do BES e do Grupo Espírito Santo.

Moedas diz, porém, numa das 32 respostas que deu à CPI, que não tinha de ser informado dos problemas do BES, apesar de ter como missão fazer a ponte com a troika. "A minha missão no Governo consistia na gestão e acompanhamento da execução das reformas estruturais previstas no memorando de entendimento, o que excluia portanto as questões relacionadas com o sistema financeiro assim como as questões puramente orçamentais". 

Carlos Moedas confirma aos deputados ter tido uma reunião com Ricardo Salgado a 2 de maio de 2014, mas diz que como não tinha responsabilidades em matéria do sector financeiro não deu seguimento ao assunto, não deu instruções ao presidente da Caixa Geral de Depósitos, nem falou com qualquer responsável no Luxemburgo sobre os processos que envolviam o GES, como lhe tinha pedido Salgado num telefonema que fez a 2 de junho de 2014. Moedas assegura que informou apenas o gabinete do primeiro-ministro de que iria receber um pedido de audiência do então presidente do BES, que lhe comunicara que, na sua opinião, os problemas do Banco Espírito Santo poderiam constituir um risco sistémico para o país. 

"O dr Ricardo Salgado entendeu comunicar-me a mim, assim como a outros membros do Governo, a sua opinião sobre o facto de os problemas do GES poderem constituir um risco sistémico para o país. Outros responsáveis do transmitiram-me em diferentes ocasiões preocupações similares. Naturalmente, essa opinião preocupou-me, também à luz da fase delicada em que vivíamos de conclusão do Programa de assistência. O dr Ricardo Salgado informou-me de que iria comunicar o mesmo a outros membros de governo, o que me pareceu importante. Dado que não tinha, no âmbito das minhas funções, qualquer responsabilidade em matéria de setor financeiro, não dei qualquer seguimento ao assunto", explica Moedas nas resposta à CPI, datadas de 26 de fevereiro de 2015.