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Latas de conserva da Ramirez encontradas na despensa de Hitler

A Ramirez é a mais antiga marca portuguesa e na sua origem coexistiu com uma fábrica de tecidos.

No ano em que morreria Dona Maria II e rebentava a guerra da Crimeia, o andaluz Sebastian Ramirez descia o Guadiana e fundava em Vila Real de Santo António a primeira conserveira portuguesa.

O investimento combinava a preparação de atum em salmoura com a produção de tecidos e fardas. Mas depressa a família abandonou o têxtil e se concentrou no negócio que lhe daria fama e proveito. Na sua peregrinação fabril, passou por Albufeira, Olhão e Setúbal antes de se focar em Matosinhos e Peniche, quando a escassez de matéria-prima ditou o encerramento de Vila Real de Santo António.

Cinco gerações depois, a Ramirez permanece como uma das marcas mais antigas do mundo a operar no mercado. Por ano, mais de 20 milhões de latas viajam para 35 mercados. Até no bunker de Hitler foram encontradas três latas de sardinhas made in Portugal.

Manuel Ramirez puxa de documentos para falar do passado. O futuro pertence aos seus dois filhos, os herdeiros do negócio familiar. A fundação da marca, em 1853, diz ele, "está certificada no primeiro cadastro realizado pelo Consórcio Português de Conservas de Peixe". A unidade iniciara a actividade sob a direcção de um mestre conserveiro catalão, que aprendera a tecnologia emergente na Bretanha.

"O peixe chegava à lota a qualquer hora do dia ou da noite e os potentes apitos da fábrica convocavam os trabalhadores, na sua maioria mulheres", diz Manuel Ramirez.

Os operários "trabalhavam a partida do atum e depois regressavam a casa até que chegasse um novo barco". Este modelo só se alteraria radicalmente com a vulgarização da tecnologia do frio, na década de 60 do século passado, eliminando o carácter sazonal da actividade.

Em 1908, a unidade de conservas empregava 16 soldadores, 40 operários, 160 mulheres e seis paquetes. Na altura, o salário diário dos operários oscilava entre 400 e 900 réis e os pescadores recebiam 12 vinténs e 10% do valor da pesca.

Sebastian Ramirez combinou a diversificação de produtos com a expansão geográfica. Acrescentou a cavala e a sardinha ao portefólio da marca, focada desde sempre na exportação para grandes países como a Espanha, Brasil e Itália. Durante muitos anos liderou o mercado italiano de atum, através da exportação recorrendo a latas de formato gigante de 5 e 10 quilogramas.

A sucessão de Sebastian Ramirez foi assegurada por dois dos cinco filhos. Dos outros, dois teriam mortes trágicas, causadas por uma queda e por um naufrágio, e um terceiro lançara negócios próprios em Espanha. Frederico tornou-se conselheiro e político, o irmão Manuel passou a conduzir o barco da família. Foi ele que verticalizou a empresa, desde a pesca ao fabrico das embalagens.

Reconhecendo que a indústria conserveira depende da incerteza do mar e das condições dos mercados, Manuel tomou a decisão arrojada de lançar ao mar o primeiro galeão sardinheiro a vapor português, o "Nossa Senhora da Encarnação". "O meu avô revelou-se visionário pois foi com ele que a marca encetou um programa de expansão internacional e de fidelização dos mercados", diz Manuel Ramirez.

Na fábrica de Vila Real de Santo António (foto dos anos 30), os operários eram convocados pelas sirenes quando chegava o atum

Na fábrica de Vila Real de Santo António (foto dos anos 30), os operários eram convocados pelas sirenes quando chegava o atum

Foi, todavia, com as guerras que o negócio da Ramirez e da generalidade da indústria conserveira portuguesa prosperou. Se no fim do século XIX Portugal tinha 76 fábricas, no fim da Primeira Guerra Mundial, o universo alarga-se para 300. A empresa percebeu que "o consumo era anormal e transitório" e, ao contrário de outros concorrentes, aguentou-se na ressaca dos anos 20. Ainda assim, sofreu com a pressão de preços e a depressão em que o sector mergulhou e que levaria até Oliveira Salazar a publicar um diagnóstico sobre as ameaças que as conservas enfrentavam.

A Segunda Guerra Mundial ajuda à retoma. Portugal beneficia do facto de ser dos raros países com a produção a funcionar. A Ramirez fornece a Cruz Vermelha e exporta para mercados como a Bélgica, Reino Unido e Alemanha. Por isso, a família não estranhou um telefonema do seu agente em Hamburgo, no início dos anos 50, dando conta que tinham na sua posse três latas muito especiais. Eram conservas de sardinha em azeite que tinham sido recolhidas do bunker de Hitler. "Não sei como lhe foram parar às mãos, lembro-me que as enviou ao meu pai", recorda Manuel Ramirez. Meses depois, a família decidiu prová-las, verificando que estavam em perfeito estado de conservação. "Estavam óptimas", recorda o empresário que aproveita o episódio para troçar das leis europeias que impõem um prazo de caducidade a todos os produtos.

Nessa altura, já a família Ramirez rumara ao Norte e escolhera Matosinhos como sua base fabril. Os ventos da indústria estavam a mudar. Os anos 50 são marcados pela crescente escassez de atum. A Ramirez recorre à refrigeração e, mais tarde, inova nas latas de abertura fácil. Há quatro anos, refrescou a sua identidade corporativa, adoptando as cores da bandeira portuguesa para vincar a sua origem.

Em 2008, pela primeira vez, a exportação da Ramirez superou o mercado doméstico (51% vs. 49%). A este resultado não é alheio o contrato assinado com o Governo de Chávez, no âmbito do programa de troca de petróleo por alimentos. A marca já operava na Venezuela, mas a sua presença era residual.

O negócio de €3 milhões (4 milhões de latas) foi um impulso valioso nas vendas de €20 milhões da empresa. A marca Ramirez representa metade. Este ano, a exportação volta a crescer. Com unidades em Leça da Palmeira e Peniche, a conserveira vende por ano 40 milhões de latas, distribuídas pelas suas 14 marcas, algumas das quais criadas para mercados específicos como o árabe ou do Benelux. China e Japão são os novos mercados de exportação da Ramirez, adaptando os sabores às tradições locais.

1824 Surge a primeira fábrica de conservas de sardinha, em Nantes;

1853 Sebastian Ramirez funda, em Vila Real de Santo António, a sociedade S. Ramirez, que se dedica ao fabrico de tecidos e à salga de atum. Nascia a primeira fábrica portuguesa de conservas;

1865 Ramirez articula a sua fábrica de salga com uma unidade de preparação de conservas de atum em azeite;

1890 A conserveira adopta o autoclave, que permite obter rapidamente a temperatura desejada e reduz o tempo de esterilização;

1904 A Ramirez recebe o primeiro de cinco Grand Prix, em Londres;

1906 Conquista os mercados da Bélgica, Holanda e Luxemburgo, ainda hoje rendidos às sardinhas que a empresa comercializa com marcas próprias;

1908 É fundada a Ramirez & C.ª Lda, com sede em Vila Real de Santo António;

1910 Em Maio, são constituídas mais duas empresas, com sede em Albufeira e Olhão;

1928 Depois de Setúbal, a marca passa a ser produzida em Matosinhos, em instalações precárias;

1931 Em Dezembro, o ministro das Finanças, António de Oliveira Salazar, publica um diagnóstico sobre a indústria conserveira;

1946 Em Abril, a Ramirez inicia a construção da nova fábrica de Matosinhos;

1959 Emílio Ramirez adquire uma unidade produtiva em Peniche;

1968 Desaparecem as armações de pesca do atum. A última grande companha é realizada em Tavira;

1972 Surgem as latas de conservas de abertura fácil, com argola, uma estreia mundial da Ramirez;

1992 Renovação da imagem e do logo-símbolo da marca;

1996 Escassez de matéria-prima leva fábrica de Vila Real de Santo António a fechar;

2003 A marca e a empresa comemoram 150 anos de actividade;

2005 Adopta as cores da bandeira nacional nas suas latas para vincar a origem portuguesa;

2009 Cria um Centro de Nutrição, em parceria com a Universidade do Porto

Texto publicado na edição do Expresso de 22 de Agosto de 2009