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Juros da dívida portuguesa a 2 anos perto de 17,5%

Ainda não regressaram aos máximos acima de 20% durante a crise de julho, mas a tendência altista não abranda. Ao "fator exógeno" (Grécia, Itália, divergências no BCE e entre os políticos da União Europeia, clima de abrandamento económico) juntou-se o recente fator interno "Rogue Island".  

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

As yields (juros implícitos, um indicador de rendibilidade) das obrigações do Tesouro  (OT) português continuam a tendência altista no mercado secundário, refletindo a deterioração da situação de crédito do país.

As yields relativas às OT a 2 anos fecharam em 17,48% e as relativas às OT a 10 anos em 11,67%, ambas acima do valor de fecho de ontem, segundo dados da Bloomberg. É de sublinhar que continua a ser manifesta a diferença entre as yields das OT e as relativas aos títulos irlandeses - para as duas maturidades referidas, fecharam em 9,37% e 8,67%.

Analisando por outro ângulo estes níveis de rendibilidade já altos (ainda que muito distantes dos gregos) das OT no mercado secundário, verificamos que os papéis portugueses estão a ser avaliados já com "cortes de cabelo", dependendo das maturidades. Por exemplo, uma obrigação de longo prazo vencendo em março de 2021 apresentava hoje um preço atual de 56% em relação ao seu valor facial. Uma outra, de menor prazo, vencendo em outubro de 2013 revelava hoje um preço atual de 81,22% em relação ao seu valor facial.

A par do fator "interno" recente que foi batizado pelo Financial Times como "Rogue Island" (o problema das contas da Região Autónoma da Madeira), a conjuntura "exógena" é dominante em termos de sincronia "sistémica" da crise de dívida dos países "periféricos" da zona euro. Ou seja, o efeito de "contágio" não abranda.

Grécia "adiada"

A Grécia continua a dominar a conjuntura. A agência de notação de crédito Fitch declarou ontem que "espera que a Grécia entre em default, mas que não sairá do euro". A troika deu, entretanto, mais uns dias ao governo em Atenas; regressa na próxima semana para prosseguir a análise da situação e decidir se desbloqueia a tranche de €8 mil milhões em outubro.

Tem-se referido a iminência de um evento de incumprimento por parte do país. E o risco de default aponta para probabilidades já acima de 90%. No entanto, o risco imediato, a partir de meados de outubro, não é um default externo (que desencadeie um vendaval nos mercados da dívida soberana), mas uma rutura interna de pagamentos. A Grécia só volta a ter de pagar dívida pública em dezembro. Esta semana honrou €769 mil milhões no cupão de duas grandes emissões de obrigações com maturidades em 2037 e 2040.

Alguns títulos gregos a 12 meses apontavam hoje para uma rendibilidade (yields) de mais de 230% com um preço de 56%, o que significa um corte de cabelo implícito de 44% em relação ao valor facial. Outros rondavam o valor médio que está acima de 125% e apontavam para um valor atual de menos de 50% do valor facial.

Itália: o "elefante" enlouquecido na piazza

A decisão da agência de notação Standard & Poor's de cortar o rating da Itália desencadeou um processo de disparo do preço dos credit default swaps (seguros contra o risco de incumprimento da dívida soberana), que fecharam ontem em 511 pontos base, segundo a Mark it. O limiar dos 500 pontos é tido - de acordo com a experiência da Grécia, Irlanda e Portugal - um ponto de viragem na deterioração da situação de crédito.

As yields dos títulos do Tesouro italiano (BTP) abriram hoje em alta e as relativas aos BTP a 10 anos prosseguem a escalada no patamar dos 5% - estavam a meio da manhã em 5,72%.

A situação de Itália abala profundamente a zona euro, se prosseguir esta escalada. Os analistas falam de "um elefante enlouquecido numa piazza (praça) cheia de gente", algo pior do que um elefante numa loja de porcelanas.

Divergências no BCE podem agudizar-se

Enquanto, por um lado, a agência Fitch não vê outra solução senão a intervenção ativa no imediato do Banco Central Europeu (BCE) no mercado secundário, o Bundesbank iniciou hoje tentativas de formar uma "coligação informal" de bancos centrais contra a estratégia seguida por Jean-Claude Trichet, o presidente do BCE.

Segundo o jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung, o Bundesbank teria convidado vários banqueiros centrais para uma reunião em Eltville, sobre o Reno, citando que Yves Mersch, do Luxemburgo, e Klaas Knot, da Holanda, teriam aceitado estar presentes.

Olivier Blanchard, o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) declarou ontem que há 38% de probabilidades dos EUA entrarem em recessão. Para o Reino Unido - o centro financeiro mundial mais importante em termos sistémicos - essa probabilidade desceria para 17%.

Esta semana, Michelle Mayer, do Bank of America Merrill Lynch, afirmou que se "a crise na Europa escalar, poderá ser o choque que empurra a economia americana para a recessão". E Franck Biancheri, do gabinete de prospectiva europeu LEAP, afirmou que o fogo vai pegar nos dois centros globais financeiros, Wall Street e City londrina, mais cedo do que se julga.

O economista francês do FMI não se coibiu de dizer que a economia mundial entrou "numa perigosa nova fase", palavras fortes que são interpretadas como pressão para as grandes potências que estarão presentes nas reuniões do FMI, do Banco Mundial e do G20 em Washington DC no final desta semana serem influenciadas pela estratégia "interventiva" que tem sido defendida pela francesa Christine Lagarde, a diretora-geral do Fundo.

Apesar de a recessão poder não estar na esquina, o FMI reviu em baixa as suas previsões. O crescimento mundial para 2011 e 2011 não irá além dos 4% - a anterior previsão de junho apontava para 4,3% e 4,5% respetivamente. Neste abrandamento, os países desenvolvidos terão o crescimento reduzido para 1,6%  em 2011 (com os EUA, a maior economia do mundo, a crescer, apenas, 1,5%, contra os 2,5% da previsão anterior). As próprias economias emergentes crescerão 6,4% em 2011, em vez dos 6,6% previstos anteriormente.

Para a zona euro, Blanchard referiu a previsão de um crescimento de 1,6% em 2011 e ainda menor em 2012, apenas 1,1% - as anteriores previsões apontavam para 2% e 1,7% respetivamente. Um balde de água fria sobre as expectativas de que a zona euro tenha no seu conjunto um crescimento que permita a alavancagem dos países "periféricos" em crise de dívida.

O economista-chefe do FMI repetiu, também, os avisos de Lagarde de que será necessário um processo de recapitalização bancária "especialmente na Europa".

O relatório do FMI divulgado esta semana, intitulado Global Financial Stability Report, estima que o risco dos bancos, em vários países europeus, face às dívidas soberanas aumentou em €204 mil milhões desde o começo do 2010. A repartição desse aumento foi a seguinte: €71 mil milhões para o os bancos italianos; €56 mil milhões para os bancos gregos; €44 mil milhões para os bancos espanhóis; €17 mil milhões para os bancos portugueses; e9 mil milhões para os bancos belgas; e €7 mil milhões para os bancos irlandeses.

O FMI clarifica, no entanto, que não se trata de uma "medida das necessidades de capital dos bancos, mas sim de uma aproximação ao aumento do risco à dívida soberana vivido pelos bancos nos últimos dois anos".