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Itália: a semana da verdade para Berlusconi?

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A entrada do FMI em Roma é um dos "colaterais" do G20 que maior impacto pode ter na segunda-feira nos mercados da dívida. Terça-feira, o governo italiano enfrenta uma votação sobre pendentes do orçamento de 2010 no Parlamento. Juros a 10 anos abrem em 6,6%.

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

As yields (um indicador de rendibilidade) dos títulos do Tesouro italianos a 10 anos abriram em alta segunda-feira (7 de novembro), com os juros a atingir 6,6%, já tendo estado a negociar perto dos 6,7%. O patamar dos 7% (a linha vermelha definida pelo ex-ministro das Finanças português Teixeira dos Santos). O custo dos credit defaut swaps (os seguros contra o risco de default da dívida italiana) abiram acima de 510 pontos base - os 500 pontos base são considerados outro limiar de alarme.

"O sentimento dos mercados financeiros está contra Berlusconi. A próxima segunda-feira será crucial para perceber a sina de Itália. A monitorização das contas italianas pelo FMI é provavelmente um dos últimos atos do primeiro-ministro italiano", refere-nos Fabrizio Goria, do Linkiesta.

Um dos resultados "colaterais" da cimeira do G20 de Cannes foi o anúncio da "entrada" do Fundo Monetário Internacional (FMI) na Itália, monitorizando trimestralmente o andamento das contas públicas e das medidas de ajustamento.

Os mercados da dívida quando souberam a notícia reagiram de imediato. Os investidores internacionais tiraram as suas conclusões - o FMI procedia a uma "inovação", entrava sem trazer dinheiro atrás, por ora, sinalizando que Roma tinha um problema de "credibilidade", como sublinhou a diretora-geral do fundo, Christine Lagarde.

Na quinta-feira, o jornal italiano Corriere dela Sera publicava uma carta aberta de antigos apoiantes do primeiro-ministro Berlusconi, propondo uma mudança. Uma rebelião dentro das fileiras da maioria governamental poderá estar em preparação, dizem alguns analistas italianos.

"Saia!", diz o Financial Times

O jornal britânico Financial Times (FT) titula mesmo o seu editorial colocado quase à meia-noite de sexta-feira: "Em nome de Deus, saia!". E parafraseando palavras de Oliver Cromwell nos Comuns em Londres em 20 de abril de 1653, o FT conclui, "Em nome de Deus, da Itália e da Europa saia!".

A probabilidade de incumprimento da dívida italiana subiu mais de um ponto e meio percentual ao longo da manhã de sexta-feira, depois abrandou um pouco, mas fechou quase três pontos percentuais acima do início da semana. Segundo dados da CMA DataVision, o risco de default italiano subiu de 32,2% em 31 de outubro para 34,85% a 4 de novembro. Em termos de custo dos credit default swaps - ou seja do preço para segurar o risco de incumprimento daquela dívida -, durante a semana passou de 445 pontos base para 492,65 pontos base. O patamar dos 500 pontos base - que foi atingido em picos durante os dias 2 e 3 de novembro - é considerado de alarme.

No mercado secundário da dívida soberana, as yields dos títulos do Departamento do Tesouro italiano (BTP) a 10 anos fixaram um novo recorde histórico em valor de fecho na sexta-feira, atingindo um nível de 6,37%, segundo dados da Bloomberg. Na segunda-feira, último dia de outubro, haviam fechado em 6,09%. A aproximação ao nível de 7%, considerado a linha vermelha nos juros da dívida soberana, é o maior risco que Berlusconi corre durante a semana. O spread em relação às yields dos Bunds, os títulos alemães, era sexta-feira superior a 4,5 pontos percentuais.

Dois dias críticos na próxima semana

O comportamento dos mercados financeiros segunda-feira irá condicionar, certamente, a votação no dia seguinte de matérias orçamentais pendentes de 2010 no Parlamento italiano. "Na próxima terça-feira há na prática, de novo, a votação de confiança ao governo. Se os mercados se afundarem com um disparo do spread dos BTP em relação aos Bunds, será muito difícil para a maioria governamental se manter", adianta Fabrizio Goria.

Berlusconi, como as sete vidas de um gato, já sobreviveu a 53 votos de confiança desde 2008, o último dos quais a 14 de outubro.

"Sabemos que estas são as últimas semanas de Berlusconi, mas a questão continua a ser quando cairá", conclui o analista italiano.