Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Inteligência económica para enfrentar a crise

O especialista europeu em consultoria estratégica, Christian Harbulot, inventor do conceito de "guerra cognitiva", falou com o Expresso sobre uma ferramenta crítica para os empresários enfrentarem a crise e as mudanças do xadrez mundial.

"Esta crise era previsível pelo menos em parte no plano do imobiliário, pois é um sector que vive crises cíclicas, e a última havia sido em 1997", atira-nos Christian Harbulot, de 56 anos, considerado um dos peritos europeus em "inteligência económica" (IE).

Ele considera que a IE é uma ferramenta ainda mais crítica em tempos de crise financeira e económica e de alteração nas correlações de força entre potências à escala mundial. Harbulot veio a Oeiras, a convite do Taguspark, agitar o tema numa conferência sobre o tema. "É precisamente na gestão da informação destinada a enfrentar a competição comercial que a inteligência económica pode jogar um papel decisivo na orientação das empresas", refere Harbulot, particularmente face à ofensiva das novas multinacionais e da própria diplomacia económica dos países emergentes.

O conceito de IE nada tem a ver com qualquer variedade de quociente intelectual. A expressão designa uma das funções vitais na gestão das empresas e também dos próprios Estados, nomeadamente para a diplomacia económica. Significa "a acção coordenada e sistemática de recolha, tratamento e difusão da informação útil para os actores económicos com vista à sua exploração para fins estratégicos e operacionais", dizem os manuais.

Durante muitos anos ela foi confundida com espionagem industrial, tecnológica e comercial e contra-informação à margem da lei, mas insiste-se hoje que a sua base é a ética empresarial. O que não impede a noção de que, no mundo altamente concorrencial e muitas vezes opaco em que se desenrolam os negócios, particularmente os internacionais ou os de grande vulto financeiro, vivemos uma autêntica "guerra cognitiva" - uma expressão que Harbulot cunhou e na base da qual criou uma escola de estratégia empresarial em Paris, a École de Guerre Économique.

Pregar no deserto

Harbulot insiste que a IE permite antecipar e reagir rapidamente à surpresa, como foi o caso do "efeito dominó" que veio a seguir aos primeiros sinais da crise do subprime em meados de 2007. Para quem tivesse acompanhado o disparo inacreditável do que o perito francês considera como "a irresponsabilidade do mundo bancário e financeiro anglo-saxónico" desde a queda do Muro de Berlim, poderia antever que o mundo acabaria por ter uma bomba nas mãos.

"Fui um dos raros a sublinhar no final dos anos 1980 que as relações entre potências não tinham desaparecido e que os afrontamentos de tipo económico iriam tomar um lugar cimeiro na cena mundial. Mas eu pregava no deserto. Só Edith Cresson [primeiro-ministra nomeada pelo presidente Mitterrand em 1991], em França, tomou nota desta mensagem. Mas o seu próprio campo não a compreendia", diz Harbulot, que concedeu uma entrevista mais longa, em francês, que pode ser lida aqui.

O especialista em estratégia acha que o mundo Ocidental em particular se deixou cegar desde a implosão da URSS, desviou a atenção da geoeconomia, e embarcou numa nova onda de especulação financeira. Acha que um sinal claro ocorreu, logo, num primeiro tempo, com o caso Enron (2001). Esse primeiro episódio "fragilizou os próprios fundamentos do credo sobre o qual os EUA se baseiam para influenciar as elites mundiais".

Danos colaterais

Ora uma grande parte da projecção de poder da América deriva dessa capacidade de influência do seu "credo" - depende da força do que os especialistas em estratégia chamam soft power. "É ainda cedo para dizer se os EUA já entraram numa situação de prisioneiros de dilemas estratégicos, mas há indicadores de que a sua posição se enfraqueceu", diz Harbulot.

Não só no plano político-diplomático, mas também no plano geoeconómico: a perda de legitimidade do seu discurso ideológico sobre a economia de mercado, o declínio dos seus sectores industriais (o caso GM em foco ultimamente é paradigmático), a dificuldade manifesta em "domar" a crise bancária, a descredibilização total da política financeira (uma plateia de alunos universitários chineses mimoseou, recentemente, o secretário do Tesouro americano Timothy Geithner com uma gargalhada geral quando ele assegurava, com ar sério, de que os activos chineses em dólares não corriam risco).

Ora este enfraquecimento do "tio da América" vai ser problemático para a Europa. "Os europeus vão ter de formar as suas elites políticas e empresariais para uma abordagem nova da estratégia e das relações de força geoeconómicas", refere, chamando a atenção para o novo "estado-estratega" dos tempos actuais: a China. Em certa medida, a história repete-se, e a China seguiu muitas das pisadas do Japão, o "estado-estratega" dos anos 1970 e 1980. "Mas os chineses juntaram às receitas de patriotismo económico japonês o savoir-faire de um regime comunista que aprendeu ao longo da sua história a enganar um adversário inicialmente mais forte", conclui.

Artigo adaptado da edição impressa do Expresso de 5/06/09