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Caça aos Dividendos. Faz sentido?

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Em períodos de forte instabilidade bolsista e de baixa inflação, os investidores tendem a procurar refúgio em ações que distribuem os melhores dividendos. Por regra, as empresas que apresentam melhores níveis de dividendos, apresentam uma correlação menos acentuada com o desempenho dos respetivos índices (na gíria dos mercados financeiros são as ações com um nível mais baixo de Beta), sendo ainda categorizadas como ‘títulos defensivos’, embora seja oportuno realçar que estão sujeitos às variações de subidas e descidas dos mercados de ações, como é característico nestas situações, assim como ao risco específico da própria empresa.

Assim, as empresas que apresentam um forte compromisso com a distribuição de dividendos são, normalmente, empresas mais sólidas e com maior nível de previsibilidade da geração de receitas.

A maior parte das empresas distribuem os seus dividendos em forma de dinheiro, no entanto, em alguns casos, é possível optar por 'reinvestir' esses dividendos em novas ações dessa mesma empresa. Neste caso, dependendo do rácio de atribuição das novas ações e das perspetivas futuras da empresa em causa, o investidor deverá tomar a sua decisão: ou aumenta a sua exposição acionista à empresa ou receber em dinheiro os seus dividendos.

Para compreender melhor o impacto da política de dividendos no âmbito da empresa, da evolução da sua cotação em bolsa e na rendibilidade final de um investimento, iremos apresentar de seguida algumas das suas características.

O que é o ex-dividendo?

No caso das ações nacionais, por regra, nos dias de hoje, para ter direito aos dividendos pagos pelas empresas cotadas em bolsa, o investidor necessita de comprar as ações, pelo menos, três dias de negociação antes da data de pagamento do dividendo. Isto acontece porque, no segundo dia de negociação anterior à data de pagamento, as ações da empresa em causa iniciam o período de cotação designado por ex-dividendo. No dia em que a ação se torna ex-dividendo, automaticamente é descontado na sua cotação o valor que foi pago por cada ação, ou seja, o que se ganha em dividendo perde-se no valor da ação. A título de exemplo, se determinada ação tem um dividendo de 0,30 Eur e estava cotada a 5 Eur no dia anterior, no dia de ex-dividendo as ações abrem a 4,70 Eur. É natural que a cotação não cai exatamente pelo montante do dividendo, porque é afetada pelos habituais movimentos da bolsa. Até é possível que a cotação suba no dia de ex-dividendo, mas tal dever-se-á a outros fatores que não o dividendo em si.

Indicador privilegiado dos investidores

Como identificar as empresas que pagam melhores dividendos? O indicador mais utilizado resulta da divisão do dividendo anual por ação, pela cotação dessa mesma ação e designa-se por dividend yield. Desta forma, os investidores podem avaliar qual é a remuneração anual que conseguem obter do seu investimento, caso a cotação do título não sofra qualquer variação (que pode acontecer, é importante realçar este facto).

Os valores médios do dividend-yield, atualmente na ordem dos 2%, têm variado ao longo dos anos. Na realidade a evolução deste rácio tem apresentado um comportamento padrão que se caracteriza por um aumento do rácio em períodos de maior instabilidade bolsista e por um decréscimo do mesmo em alturas de bull-market, sendo que as empresas que apresentam um forte compromisso de distribuição de dividendo tendem a ter um comportamento mais favorável quando os mercados acionistas atravessam períodos e correção (daí serem consideradas de 'títulos defensivos').

Um estudo publicado pela Ned Davis Research revela que as empresas incluídas no índice S&P 500 que pagam dividendos registaram uma valorização anual de 9,28% no período entre 1972 e 2013, ultrapassando em quase 7 pontos percentuais a rendibilidade das empresas que não pagam dividendos, cujo resultado anual foi de apenas 2,34%.

É melhor a empresa que paga maiores dividendos?

Tão importante como o valor dos dividendos é a consistência com que esse valor é pago ou incrementado ao logo dos anos. Não servirá de muito que uma empresa pague dividendos elevados num ano, se no ano seguinte reduzi-los a metade ou mesmo não os consiga pagar. Na realidade, quando uma empresa reparte dividendos elevados em situações de crise ou quando o negócio não vai bem, está simplesmente a descapitalizar a empresa quando deveria deixar de pagar dividendos, até que chegue uma altura em que seja capaz – e tenha a sustentabilidade recomendada – para continuar a pagar.

Para responder a esta preocupação dos investidores a Standard&Poor´s criou em 2005 novos índices (S&P Dividend Aristocrats) para acompanhar o universo de empresas que aumentam os seus dividendos de forma regular, cobrindo não só o mercado acionista norte-americano, como também o europeu. O S&P 500 Dividend Aristocrats monitoriza as empresas norte-americanas incluídas no S&P 500 que aumentaram os seus dividendos todos os anos nos últimos 25 anos. Entre as empresas atualmente incluídas no índice, encontram-se a AT&T, Chevron, Exxon Mobil, Procter & Gamble, Wal-Mart, Coca-Cola, Mcdonalds, Johnson & Johnson, entre outros. Por sua vez, o índice S&P Europe 350 Dividend Aristocrats acompanha as empresas europeias incluídas no S&P Europe 350 que aumentaram os seus dividendos todos os anos nos últimos 10 anos. Entre as empresas incluídas neste índice assiste a uma predominância dos setores de retalho, cuidados de saúde e industrial.

Cuidados a ter na seleção das empresas

Um dos cuidados a ter por quem privilegia esta abordagem de investimento consiste em desconfiar das empresas que apresentem dividend yield exagerados. Ou seja, se o dividendo se mantiver estável, mas a cotação da empresa registar uma quebra significativa, o rácio dividend yield irá subir dada a relação matemática (o numerador é constante e o denominador diminui). Nesta situação, o investidor deverá procurar mais informação sobre a empresa e compreender de forma mais assertiva, os motivos pelo qual a empresa registou esse desempenho. A queda das cotações poderá resultar da quebra de confiança nos futuros resultados da empresa, o que poderá colocar em causa o ritmo de crescimento dos resultados e dividendos no futuro. Desta forma, considera-se que empresas com dividend yield acima de 5% devem ser bem escrutinadas antes de qualquer investimento.

O mesmo acontece com as empresas que apresentem um elevado payout ratio, ou seja, empresas que apresentem uma elevada percentagem dos seus resultados distribuídos aos acionistas sob a forma de dividendos. Caso esse rácio seja elevado, por exemplo acima de 60%, tal pode significar que a empresa apresenta poucas perspetivas de crescimento rentáveis para o futuro, pelo que prefere aumentar a remuneração dos acionistas.

Em suma, deverá privilegiar-se as empresas que apresentem boas perspetivas de crescimento de resultados já que no longo prazo tanto as cotações como o nível de dividendos distribuídos tendem a acompanhar os resultados das empresas. Assim, não deverá tomar uma decisão de investimento baseado somente num indicador; deverá complementar com outros elementos, como seja a situação financeira da empresa, do ciclo económico em que se encontra o seu setor de atividade, possibilidades de negócio e perspetivas de geração de valor futuro.