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Galp anuncia em Londres que vai apertar o cinto

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FOTO LUÍS FAUSTINO

A petrolífera portuguesa anuncia esta terça-feira ao mercado de capitais que fará um reajuste no volume de investimento anual que pretende concretizar até 2019. A Galp diz que será mais eficiente. Mas há condicionalismos que explicam esses cortes.

J. F. Palma-Ferreira

A Galp vai "apertar o cinto" até 2019. Essa será a principal mensagem que a petrolífera portuguesa anuncia esta terça-feira em Londres aos investidores institucionais. Na perspetiva da Galp, o tema será apresentado como resultado do aumento da eficiência na gestão do investimento. Fornecimentos mais baratos, projetos mais racionalizados levam a uma diminuição do capital que será investido anualmente. No entanto, há outras questões que poderão contribuir para reajustar o volume total a investir.

As indefinições que afetam a Galp - o fim do mandato de Manuel Ferreira de Oliveira, os elevados cortes orçamentais decretados por Angola e o escândalo de corrupção do "Petrolão" no Brasil - são alguns dos fatores que contribuem para um ajustamento no plano de investimento que a Galp conseguirá concretizar até 2019.

Sobre o teor da apresentação que a Galp fará esta terça-feira, no "Capital Markets Day 2015", os principais analistas de mercado que escrutinam a atividade da Galp antecipam um reajustamento do investimento anual, com amplitudes que admitem cortes até 500 milhões de euros.

Em relação ao plano de investimento feito pela Galp até 2018, os valores em causa serão "expressivamente" reduzidos. O investimento anual que a Galp deverá agora anunciar - que compara com o plano anterior, que apontava para um valor máximo de 1,7 mil milhões de euros - dificilmente ultrapassará os 1,2 mil milhões anuais até 2019, segundo previsão da equipa de analistas do Santander.

Mais: os analistas de mercado que acompanham a atividade da Galp admitem que a empresa portuguesa nem manterá o volume de investimento revisto no reajuste que efetuou durante o primeiro semestre de 2014, onde foram contempladas reduções no investimento de alguns projetos que equivaliam a cortes de 20% face às inicialmente verbas alocadas.

Para o mercado de capitais, o historial da liderança executiva de Ferreira de Oliveira na Galp tem sido um fator de estabilidade e confiança junto dos investidores institucionais, mas como se mantém em aberto a indefinição sobre o perfil do presidente executivo para o período do próximo plano de investimento (até 2019), esse é mais um motivo que deixa os investidores institucionais na expectativa do perfil do próximo responsável pela empresa.

O "dinheiro não estica"

Desta forma alguns dos 61 projetos petrolíferos desenvolvidos pela Galp em nove países deverão ser 'recalendarizados'. Um dos projetos que envolve maior investimento é o de Moçambique, onde a Galp está a trabalhar na zona de Cabo Delgado - e que possui uma das maiores reservas de gás natural recentemente descobertas. A data de arranque admitida para a produção de gás natural em Moçambique era 2019 e essa meta pode agora estar em risco de derrapar um ou dois anos.

Inevitavelmente, no novo ajustamento que a Galp apresenta esta terça-feira em Londres aos investidores institucionais, o plano de negócios que conseguirá concretizar até 2019 vai acomodar condicionalismos de mercado relacionados com a queda das cotações internacionais do petróleo - que reduziu fortemente o retorno estimado no plano anterior, relativo ao valor do petróleo que vai extrair nos próximos quatro anos.

No entanto, o impacto internacional dos escândalos de corrupção no sector petrolífero brasileiro que envolvem políticos carismáticos - afetando a credibilidade internacional da estatal brasileira Petrobras - dificultam o nível de certeza sobre o desenvolvimento de projetos da Galp no pré-sal da costa brasileira, em que a Petrobras é líder de consórcio.

Fontes conhecedoras deste dossiê admitiram ao Expresso que os projetos em curso nos maiores campos do offshore brasileiro não deverão ser afetados porque já começaram a produzir e a Petrobras precisará de encaixar o aumento do petróleo que está a extrair desses campos do pré-sal para gerir o seu balanço. Ou seja, a receita do petróleo extraído dos campos de Lula e Iracema será fundamental para reduzir e controlar o endividamento da Petrobras

Baixo endividamento

Por outro lado, a Galp continua a ser uma das petrolíferas com um nível de endividamento mais baixo do seu sector (apesar de ter aumentado já em 2015). Através da sociedade participada Petrogal Brasil, dispõe de financiamento suficiente para desenvolver os projetos que já estão a produzir - boa parte desse financiamento foi obtido junto dos chineses da Sinopec, que compraram 30% da Petrogal Brasil.

Em Angola, onde o presidente José Eduardo dos Santos decretou um forte corte orçamental, a Galp não espera alterações significativas nos projetos petrolíferos correntes, porque se tratam de investimentos que foram iniciados há vários anos e estão atualmente em velocidade de cruzeiro - em alguns casos, são poços petrolíferos que já atingiram o auge da extração de petróleo.

Mais 17 mil barris por dia num ano

Pela primeira vez na história da Galp, a empresa dá os primeiros passos como pequeno produtor de petróleo. Só no último ano aumentou a sua produção total em mais de 17 mil de barris por dia, passando de cerca de 25 mil barris diários de petróleo no final de 2013 para 42 mil barris no final de 2014.

Mesmo com a queda da cotação internacional do petróleo, este aumento de produção permitiu aumentar as receitas neste sector, embora com valores que são muito inferiores às estimativas que a empresa projetou há três anos.

O grande esforço de investimento - quase 90% daquilo que a Galp investe - é aplicado na exploração e produção de petróleo. Em 2014 investiu aproximadamente 1,14 mil milhões de euros e, desse bolo total, cerca de 87% foram aplicados nos projetos petrolíferos.