Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Fundo Europeu não consegue resgatar Itália

Investigadora Cinzia Alcidi acha que a Itália não caminha para um resgate. Há a probabilidade de uma crise política com a formação de um "governo de tecnocratas" como em 1992, aquando do ataque à lira.

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

"A fotografia mudou". Esta é a primeira reação de Cinzia Alcidi, do think tank Center for European Policy Studies, sedeado em Bruxelas. O que a investigadora sublinha, em declarações ao Expresso, é que ocorreu na vaga das crises das dívidas soberanas na zona euro - e na Europa - um ponto de viragem.

O que era cenário passou a realidade. "O cenário que todos temíamos desde há um ano - desde o começo da crise grega - está a acontecer diante dos nossos olhos: uma enorme pressão nos mercados dos títulos soberanos alastrou para Espanha e Itália. Ambos os países são sistémicos para a zona euro e se a situação não acalma será muito difícil resgatar esses países".

Grande volatilidade

A atual Facilidade Europeia de Estabilização Financeira (FEEF) - que já interveio na Irlanda e em Portugal - "não tem condições" de intervir para casos como Itália. "A Itália é uma grande economia com uma dívida elevada e o atual FEEF não tem meios suficientes para se envolver em qualquer ação credível. Se a Itália necessitar, então a Espanha também necessitará. Provavelmente, num caso desses, só o Banco Central Europeu poderá dispor de meios para fazer algo significativo".

A Itália esteve, de facto, sob os holofotes nos últimos dias. Subitamente a probabilidade de incumprimento da sua dívida soberana disparou e as yields (juros implícitos) dos títulos do Tesouro italiano atingiram recordes. Em apenas treze dias, o risco de default saltou de 14,73% para 22,10% e os juros dos títulos italianos a 10 anos passaram de 4,87% para 5,49%.

O país entrou no "clube" da bancarrota (grupo dos 10 países com mais alto nível de probabilidade de incumprimento da sua dívida) diretamente para o 9º lugar na segunda-feira e assistiram-se ontem às mais incríveis reviravoltas, com a saída a meio da tarde e o reingresso à noite para o 10º lugar. Hoje subiu para 9º lugar na abertura destes mercados. A volatilidade é enorme e as "alterações selvagens" dominam os gráficos do risco e dos juros.

Fragilidades políticas internas

O que aconteceu, então?, interrogam-se os leitores. Cinzia Alcidi é de opinião que a tormenta foi provocada "por razões políticas internas", pelo que a solução passa pela Itália "resolver o assunto". Os investidores internacionais focaram a sua atenção no que se passa no país dirigido por Sílvio Berlusconi desde as últimas legislativas de abril 2008. "A queda deu-se precisamente depois da definição das medidas a serem incluídas no pacote orçamental. Ora, elas são claramente insuficientes, dada a atual situação, e muitos dos cortes propostos só se verificarão depois de 2012 e 2013", diz a investigadora. Porquê? Alcidi adianta a explicação para o mistério: "No fundo, só serão aplicadas depois de eleições. Berlusconi já não concorrerá, mas o seu partido, o Polo delle Liberta, poderá enfrentar dificuldades" se a austeridade fosse aplicada já e não diferida.

O próprio jornal de esquerda Il Manifesto referia que a "Itália paga por uma dupla fraqueza - política e estrutural".

Para os investidores internacionais a dor de cabeça centra-se em saber como vai ocorrer o vencimento de dívidas num total de €300 mil milhões nos próximos 12 meses. O leilão de ontem de bilhetes de Tesouro a 1 ano conseguiu o objetivo de arrecadar €6,75 mil milhões, ainda que a uma taxa média de remuneração para os tomadores da dívida italiana superior em 1,5 pontos percentuais à obtida no anterior leilão de 10 de junho. A atenção vira-se, agora, para o leilão de títulos do Tesouro de amanhã.

Situação muito "sensível"

A situação italiana é muito "sensível" para a comunidade investidora internacional - é o terceiro maior mercado de títulos do mundo, depois dos Estados Unidos e do Japão. É, também, o país líder no valor líquido dos credit default swaps (seguros financeiros contra o risco de incumprimento de dívida) ligados à dívida soberana, com 24 mil milhões de dólares, segundo dados da Markit e da Depository Trust & Clearing Corporation.

Em junho o sinal de alarme disparou - de acordo com o balanço feito pela Markit, no final do 2º trimestre (Markit Sovereign Report Q2 2011), as mais elevadas variações mensais no spread dos credit default swaps verificaram-se na Itália (+28%), China (+ 25%) e Espanha (+23%).

Em maio, a agência de notação Standard & Poor's mudou a perspetiva sobre uma revisão futura do rating para negativa e a Moody's expressou a possibilidade de baixar a notação do país que ainda está no patamar de AA, no nível AA2.

Crise pode levar a "governo de tecnocratas"

O Parlamento italiano deverá discutir no domingo esse plano de austeridade apresentado pelo ministro das Finanças Giulio Tremonti. Ele prevê um objetivo de €47 mil milhões, bem como um reforço na linha de privatizações, incluindo a decisão de levar os municípios italianos a venderem as suas participações em algumas joias da coroa italianas, como a Eni, Enel e Finmeccanica. O governo pretende, também, apresentar uma lei constitucional, designada por "regra de ouro", permitindo défices públicos apenas na conta de investimentos do Estado.

O presidente italiano Giorgio Napolitano apelou a um pacto nacional e aparentemente os partidos da oposição não votarão contra, mas exigem que, após a votação do pacote, Berlusconi saia.

Cinzia Alcidi vê com apreensão a situação política interna. Há uma degradação da própria maioria governamental, mas não há uma mudança clara para apoio à oposição. "A minha previsão é que se as tensões não abrandarem, e se não houver um envolvimento credível por parte do governo em por em ordem as contas e aplicar reformas que fomentem o crescimento, haverá necessidade para um 'governo de transição' - em italiano designa-se de governo de tecnocratas, não eleito, com um objetivo específico", sublinha a investigadora. O que não seria novo em tempos de crise: "Foi o que salvou a Itália em 1992 depois do ataque especulativo à lira e do seu abandono do Sistema Monetário Europeu". Seria irónico se 20 anos depois se repetisse o padrão.

A Itália tem, de facto, a segunda maior dívida pública em relação ao produto interno bruto (PIB) da zona euro, cerca de 120%, abaixo do líder, a Grécia, com mais de 140%, para dados de 2010. Mas há dois detalhes: ela é detida em 55% por investidores nacionais e em grande parte está financiada a longo prazo (em média 7,1 anos para entrar em vencimento, contra 5,9 no caso português, 6,8% no caso grego, 6,3 no caso irlandês e belga, e 6,2 no caso espanhol), sublinhava ontem o jornal alemão Der Spiegel.

No entanto, a Itália tem uma baixa dívida externa (pública e privada) em relação ao PIB, pouco acima de 100%, que compara com 1100% para a Irlanda, 471% para a Holanda, 266% para a Bélgica, 217% para Portugal, 182% para a França e 174% para a Grécia.

Mais crítico, ainda, é o designado indicador de "posição líquida de investimento internacional" (medida em função do PIB), em que a Itália tem a situação negativa mais baixa no grupo dos quatro "colegas" da zona euro que também são membros do "clube" da bancarrota. O valor líquido negativo é apenas de 24,3% do PIB para a Itália, comparando com outros valores negativos bem piores: 110,5% para Portugal (o campeão nesta fragilidade estrutural), 97,8% para a Irlanda, 93,6% para a Espanha e 83,1% para a Grécia (paradoxalmente é o país já resgato com melhor posição). A Bélgica está noutro campeonato, tem uma situação positiva, muito confortável, de 45% do PIB, pelo que a sua dinâmica de crise não pode ser confundida com os outros "periféricos".

Para uma radiografia desta situação à escala mundial veja-se a assimetria de posições: o Japão (com 56%), a Bélgica com 45%, a China (com 37%), a Alemanha (com 37%) e a Holanda (com 29%) estão no "clube" dos privilegiados, enquanto os cinco "periféricos" da zona euro já referidos mais os Estados Unidos (17% em valor negativo), Reino Unido (13% em valor negativo) e França (11% em valor negativo) estão no "clube" dos estruturalmente frágeis nesta dimensão económica e financeira.