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Fornecedores apanhados de surpresa

O Pingo Doce fez "papel de Pai Natal", mas os produtores não acreditam no velhinho de barbas brancas. E esperam para ver quem vai pagar a promoção.

Carla Tomás, Conceição Antunes e Abílio Ferreira

Os produtores e fornecedores do Pingo Doce foram apanhados de surpresa com esta campanha do Pingo Doce e agora só esperam que a fatura não lhes vá parar às mãos.

"Fazem o papel de Pai Natal para dar ao povo e depois espremem os produtores e a indústria", critica Carlos Neves, dirigente da Associação dos Produtores de Leite de Portugal (Aprolep).

É que apesar de a Jerónimo Martins nada lhes ter comunicado até agora, produtores e fornecedores contactados pelo Expresso têm a memória fresca de outros casos em que acabaram por ter de pagar parte das campanhas de desconto. Mas os acertos de contas são normalmente feitos só ao fim de três meses.

O Expresso apurou que os contratos de fornecimento do Pingo Doce têm cláusulas relativas a promoções que podem ser invocadas para transferir uma parte dos custos para os fornecedores. Além disso, os preços dos produtos variam com a quantidade vendida, o que significa que se vender 500 em vez de 100, o preço a pagar ao fornecedor pode cair 20%.

Segundo João Paulo Girbal, presidente da Centromarca - Associação Portuguesa de Produtos de Marca - também é recorrente os hipermercados debitarem aos produtores "tudo e mais alguma coisa": desde produtos que alegadamente não estão em condições, a roubos em prateleira, ou até pacotes de arroz que o cliente deixa cair ao chão. Por isso teme as consequências já que "alguém vai ter de pagar". É que "a margem bruta de 37%, assumida pela cadeia Pingo Doce, está longe de cobrir descontos de 50% nos preços finais de todos os produtos".

Outra forma de cobrir os gastos com esta campanha, segundo vários produtores contactados pelo Express, são as aplicações financeiras do dinheiro dos clientes que só será pago aos fornecedores 90 dias depois.

Os dois grandes grupos nacionais que dominam 60% do mercado em Portugal - Jerónimo Martins e Sonae - têm grande poder sobre os fornecedores e até impõem reduções na fatura para pagar a 10 dias por exemplo.

"Estas situações só ocorrem porque há um problema de regulação no setor, em que a força está do lado da distribuição, e a legislação precisa de ser revista", sustenta Girbal". A mesma opinião tem Carlos Neves, da APROLEP: "O poder político deve refletir sobre o poder das cadeias de distribuição. Se têm uma margem muito grande devem é ajudar o Banco Alimentar e as IPSS", defende.

Por seu lado, o presidente da associação de industriais do leite (ANIL), Pedro Pimentel, também critica este tipo de campanhas: "Levantam imensas questões do ponto de vista legal, mas até agora não houve qualquer desfecho em relação à queixa que apresentámos em janeiro contra o Continente e o Pingo Doce por dumping".

Em janeiro a ASAE apreendeu 240 mil litros de leite que estava a ser vendido abaixo do preço de custo com base numa campanha de descontos em cartão ou do lema "leve dois pague um". O processo foi remetido à Autoridade da Concorrência, mas não há conclusões. A Sonae argumentou que estava a cumprir a legislação e que se não chegasse a acordo com os produtores de leite (o único produto em que o país é autossustentável passaria a importar este bem de consumo prioritário.

Manuel Ramirez (das Conservas Ramirez) ou Jorge Paiva raposo (da Bacalhoa Vinhos) estimam que o Pingo Doce integre esta campanha como um custo de marketing, reduzindo por exemplo as verbas nas campanhas de televisão.

A ideia é partilhada pelo presidente da Frutus. Torres Paulo considera que "do ponto de vista do marketing foi uma campanha espetacular que coloca o Pingo Doce nas primeiras páginas dos jornais sem custos". Por isso, acha "inconcebível que haja consequências para os fornecedores".

Resta lembrar, que esta iniciativa desviou as compras do mês dos outros hipermercados e que esta foi apenas mais uma batalha da guerra entre as principais cadeias.