Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

FMI. EUA e Índia são 'locomotivas' de crescimento, zona euro continua a ser o pior aluno

  • 333

FOTO REUTERS

Níveis de crescimento mundial na ordem dos 5% (como em 2007 e 2010) não surgem ainda nas perspetivas do FMI, nem mesmo para 2019, em que a previsão é de 4%.

O crescimento mundial anual não vai sair do patamar dos 3% em 2015 e 2016, segundo as novas previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI), publicadas esta terça-feira no World Economic Outlook (WEO) de primavera. É um dos mais importantes documentos que a organização dirigida por Christine Lagarde apresenta para a assembleia que vai decorrer a partir de sexta-feira em Washington. O FMI divulgou agora o capítulo 1 do WEO, que apresenta as previsões e as recomendações gerais de política.

As previsões do FMI apontam para 3,5% em 2015 e 3,8% em 2016, umas décimas a mais do que o crescimento de 3,4% registado em 2014. O patamar dos 3% tem-se verificado desde 2011, depois de um crescimento de 5,4% em 2010, próximo do registado em 2007 antes do rebentar da crise financeira global. A retoma de 2010 acabou por ser um momento extraordinário em virtude da estagnação verificada em 2009 à escala mundial, fruto de recessões importantes nas grandes economias desenvolvidas. Níveis de crescimento mundial na ordem dos 5% não surgem ainda nas perspetivas do FMI, nem mesmo para 2019, em que a previsão é de 4%.

A par desta retoma modesta, há três factos marcantes, segundo o WEO: os EUA destacam-se como 'locomotiva' de crescimento no mundo desenvolvido, a zona euro continua a ser o 'pior aluno' em termos de região e a Índia ultrapassa a China em dinâmica de crescimento.

Recessão e deflação menos prováveis na zona euro A zona euro saiu da recessão de 2012 e 2013, registou uma retoma fraca de 0,8% em 2014 e não consegue subir acima de 1,5%-1,6% no horizonte de 2015-2019. O FMI considera, agora, que a probabilidade de recessão até ao 4º trimestre de 2015 desceu na zona euro em relação à simulação realizada em outubro de 2014, mas mantém-se acima de 20%, a mais elevada nas economias desenvolvidas.

A probabilidade da zona euro ficar refém da deflação também desceu. Segundo a simulação do FMI, a probabilidade entre o 3º trimestre de 2015 e o 2º trimestre de 2016 mantém-se elevada, próxima de 30%, mas desceu em relação à previsão de outubro de 2014.

Os EUA afirmam-se como a grande economia desenvolvida, que consegue manter um ritmo de crescimento no patamar dos 3% em 2015 e 2016. Depois de um período recessivo em 2008 e 2009, o crescimento norte-americano ultrapassou desde 2012 o registado em 2007.

Nos BRIC, a China desce do patamar de crescimento de 7%, com previsões de 6,8% e 6,3% para este ano e o próximo, inferiores às oficiais de Pequim, e a Índia destaca-se como a grande economia emergente, com taxas de crescimento de 7,5%, um ritmo superior inclusive aos 7,2% registados no ano passado. A situação nos BRIC é profundamente assimétrica: recessões previstas para a Rússia em 2015 (-3,8%) e 2016 (-1,1%) e para o Brasil (-1%) em 2015, abrandamento da dinâmica de crescimento na China (com o FMI a admitir o risco no médio prazo de uma "aterragem violenta") e aumento da dinâmica de crescimento na Índia, que se torna a líder deste grupo de grandes potências emergentes.

Os mercados emergentes e as economias em desenvolvimento vão continuar a não conseguir regressar à dinâmica de crescimento do período anterior à crise financeiro global (8,6% em 2007) ou mesmo às taxas de 2010 e 2011, de 7,5% e 6,2%, respetivamente. As previsões do Fundo apontam para 4,3% em 2015 e 4,7% em 2016. A "locomotiva" China, que chegou a segunda maior economia do mundo, viu o seu ritmo de crescimento abrandar e toda a dinâmica do mundo emergente e em desenvolvimento se ressentiu.

Riscos a não esquecer Mas mesmo as previsões realizadas estão sujeitas a alguns riscos. No curto prazo, há uma enorme incerteza sobre a evolução do preço do barril de petróleo, ainda que as previsões do FMI apontem para um preço médio anual de 58,14 dólares em 2015, de 65,65 dólares em 2016 e de 73 dólares em 2019. Valores médios (das três variedades principais de crude, Brent, Dubai e WTI norte-americana) muito abaixo da média anual de 96,2 dólares em 2014.

Assim, este ciclo de preços baixos do crude continuará a influenciar a inflação mundial. No caso das economias desenvolvidas, a inflação prevista para 2015 é de apenas 0,4% e para 2016 sobe para 1,4%, ainda claramente abaixo da meta de política monetária dos principais bancos centrais das economias desenvolvidas (próximo de ou 2%). Um contexto de baixa inflação e de fraco crescimento é particularmente preocupante para a zona euro, e dentro dela para as economias com um nível elevado de endividamento em relação ao PIB, como é o caso do grupo dos periféricos.

O FMI chama ainda a atenção para três áreas no curto prazo: as tensões geopolíticas marcam o ritmo em determinadas regiões (como o leste da Europa, Médio Oriente e partes de África), o stresse financeiro pode regressar à zona euro em função do desenrolar da situação da Grécia e do emergir de turbulência política e há o risco de ocorrerem mudanças disruptivas nos preços dos ativos nos mercados financeiros.

A médio prazo, o Fundo está muito preocupado com a consolidação de uma "nova mediocridade". Assiste-se a um declínio do crescimento potencial e há o risco de uma "estagnação secular", como explicaram os técnicos do Fundo no capítulo 3 do WEO divulgado na semana passada. Também ninguém tem a certeza que a China não possa ser forçada a uma "aterragem" tudo menos "suave".

Os tópicos das recomendações políticas para as economias desenvolvidas já haviam surgido no capítulo 3 do "World Economic Outlook"  (WEO) divulgado na semana passada e estão em linha com o que o Fundo Monetário Internacional (FMI) vem insistindo face a uma retoma "modesta" e a um cenário "medíocre" que Christine Lagarde, a sua diretora-geral, diz não querer transformar em "nova realidade" marcada por uma eventual "estagnação secular".

Os técnicos do FMI consideram que, nas economias desenvolvidas, as circunstâncias de curto - retoma "modesta" com colapso do investimento privado - e de longo prazo - declínio do crescimento potencial do produto - exigem investimento público, em particular em infraestruturas em algumas economias. Na mira, explicitamente a Alemanha, um país com folga orçamental que deveria avançar para um programa de investimentos desse tipo que pudesse ter um efeito de alavancagem do investimento privado - como sublinham os técnicos do FMI esse investimento público provoca "crowding in" do investimento privado, no capítulo 4 do WEO divulgado na semana passada.

Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI, frisou, em conferência de imprensa, que "em muitos países, o investimento público, o capital público é muito baixo, e, por isso, há margem para mais. Tendo em conta, as taxas de juro extremamente baixas a que muitos governos se podem financiar, pensamos que faz sentido um elevado investimento em infraestruturas".

Um ponto de vista que coincide com o pensamento do Departamento do Tesouro norte-americano. No relatório semestral ao Congresso, apresentado na semana passada, recomenda-se explicitamente que "um crescimento da procura mais forte na Alemanha é absolutamente essencial". Os norte-americanos insistem que na zona euro a política monetária de estímulos, que está a ser levada a cabo pelo Banco Central Europeu, deve ser complementada pela política orçamental. O WEO critica o facto de ter havido "um progresso modesto nas principais economias do centro [da zona euro] em relação a uma orientação orçamental mais acomodativa e no sentido da redução dos excedentes externos excessivos".

A recomendação do WEO não se limita aos países com folga orçamental nas economias desenvolvidas, e em particular na zona euro. O FMI aconselha que os países com menor espaço orçamental na zona euro devem usar a "flexibilidade" do Pacto de Estabilidade e Crescimento para impulsionarem o investimento público e as reformas estruturais. E inclusive deixa uma porta aberta ainda mais interventiva: se a atividade económica e a inflação desapontarem, ameaçando a queda para uma situação deflacionária, deve ser considerado mais apoio orçamental.

Num sentido político mais geral, Blanchard sintetizou a receita: "São necessárias medidas para suster o crescimento tanto no curto prazo, sobretudo políticas viradas à procura, como no longo prazo através de políticas dirigidas à oferta. Ambas continuam a ser necessárias".