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Negócios de chocolate

O aroma adocicado do cacau começa a pairar no ar de norte a sul do país e deixa adivinhar novos negócios de chocolate, numa receita que combina investimentos na frente industrial, em lojas e até em roças

Em Portugal, o negócio do chocolate vale 200 milhões de euros. É um número modesto num país onde o consumo per capita se aproxima de 1,7 kg/ano, incluindo as tabletes de culinária para confecionar sobremesas, mas promissor quando comparado com a média europeia, de 5,2 kg per capita. As causas apontadas por quem conhece os segredos da arte são várias, do IVA a 23% ao clima quente do Sul da Europa. Mas o futuro promete mudanças no mundo do chocolate, onde há novos e velhos negócios a crescerem e a multiplicarem-se.

Uma volta ao país mostra como a tentação empreendedora do chocolate, quase sempre vivida em família, às vezes como resposta ao desemprego, está na moda e promete pôr os portugueses a experimentarem cada vez mais novos sabores derivados do cacau, estimulante da serotonina, um neurotransmissor associado à sensação de bem-estar, e talvez até a citarem Álvaro de Campos: “Come chocolates, pequena; come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.”

Vila Verde com pimenta

Chama-se Chocolate com Pimenta e apresenta-se ao público como uma chocolataria que serve de montra à marca e a uma pequena fábrica onde Pedro Sousa, um pasteleiro que ficou desempregado aos 40 anos, contou com o apoio da mulher, Cristina Pimenta, para começar do zero em 2012 e “levar os portugueses a descobrirem a cultura do chocolate”. Porque “a Suíça não precisou de ter cacau para ficar conhecida no mundo como país do chocolate”.

A matéria-prima chega já em pastilhas, feitas a partir de cacau de S. Tomé, Equador e Venezuela, e é trabalhada para receber recheios como Queijo da Serra, Vinho do Porto, Moscatel ou azeite transmontano, mas também diferentes tipos de pimenta, a par da criação de um licor exclusivo de chocolate com pimenta.

As vendas locais são reduzidas, porque Vila Verde, no distrito de Braga, é uma vila pequena, com quatro mil habitantes, o que obriga a distribuir a marca por diferentes pontos do país em eventos dedicados ao chocolate e também em lojas de produtos portugueses no estrangeiro. As propostas de franchising poderão permitir abrir um segundo espaço em Braga ou no Porto já em 2017, com as mesmas ofertas à volta do chocolate, do café ao chá, bolos, crepes e gelados, além dos bombons e tabletes, porque este negócio, com um faturação de 200 mil euros e seis trabalhadores, “está a crescer”, diz o casal de empresários.

Hotel do chocolate, em Viana do Castelo

Hotel do chocolate, em Viana do Castelo

Jose Campos Architectural Photographer

Uma fábrica de experiências

A Fábrica do Chocolate é uma proposta tipo 4 em 1, com hotel, restaurante, loja e museu no centro de Viana do Castelo, no local onde a Avianense funcionou entre 1922 e 2004. O projeto juntou três empresários locais apostados em “devolver a memória do chocolate à cidade, depois da falência da mais antiga fábrica de chocolate portuguesa [ver texto nas páginas seguintes], num projeto multifuncional que contou com apoios ao investimento e abriu as portas ao público em junho de 2014.

A ideia âncora foi criar o museu interativo com um centro de interpretação do chocolate. “O hotel, o restaurante e a loja vieram ajudar a dar viabilidade financeira ao conceito e a enquadrar todo o pacote no tema, para oferecer experiências à volta do universo do cacau. Foi um salto fácil e óbvio”, explica a diretora de Marketing, Madalena Dinis.

No hotel, os quartos têm nomes que remetem diretamente para o chocolate e ajudam a adivinhar a decoração, como a suíte Regina, criada numa parceria com a Imperial, onde há um candeeiro decorado com sombrinhas de chocolate em versão XXL e réplicas de fantasias de chocolate nas paredes, ou o quarto Willy Wonka, personagem central do filme Charlie e a Fábrica do Chocolate, ou a suíte Hansel and Gretel, personagens de um conto dos irmãos Grimm. Por todo o lado há paredes que parecem tabletes, bancos que lembram bombons ou sabonetes que replicam quadradinhos de chocolate. No restaurante, a oferta respeita a tradição da cozinha minhota, mas também inova através de propostas como a cabidela com cacau ou o lombo com molho de chocolate. Ao pequeno-almoço há uma fonte de chocolate pronta a cobrir fruta fresca e há sumo de polpa de cacau. Nas massagens domina a chocoterapia e na loja há uma linha de produtos próprios, criada pelo chefe Pedro Araújo, que junta aos bombons e tabletes reduções balsâmicas, compotas, creme de barras, azeite com infusão de grué (grão de cacau torrado e moído), alho e louro.

Neste caso não foram apresentados números sobre o valor do investimento nem vendas. Madalena Dinis diz apenas que “o balanço é positivo, mas há ainda muito trabalho pela frente”, desde logo para combater a sazonalidade. E adianta que um dos projetos em curso é reforçar o lado temático nos quartos em que essa vertente foi menos trabalhada. porque a experiência já mostrou ser isso o que os clientes procuram.

Fábrica de chocolates Imperial

Fábrica de chocolates Imperial

Rui Duarte Silva

O império do chocolate

As 10.500 toneladas produzidas anualmente em Azurara, Vila do Conde, garantem à Imperial o título de maior produtor português de chocolate, com um crescimento médio de 7% em cada exercício e vendas de 28 milhões de euros em 2015, depois de um pacote de investimentos contínuos que somou 15 milhões de euros na última década. Deverá reforçar o quadro de 175 trabalhadores em 28%, até 2020.

Na estratégia da empresa, o foco tem estado na inovação e antecipação de tendências de consumo, “o que significa criar novos sabores e formatos, mas também recuperar produtos lançados ao longo dos anos, num total de 400 referências”, sublinha Manuela Tavares de Sousa, à frente da Imperial desde 2001. Habituada a garantir 25% da faturação anual em novos produtos, a empresa tem 65% das vendas concentrados entre o Natal e a Páscoa, mas já trabalha a três turnos durante todo o ano, muito por força da aposta na internacionalização, que absorve hoje 20% do volume de negócios e exige flexibilidade na oferta — o que inclui produtos vegan, certificação kosher, caixas de medidas especiais, como acontece nos EUA, adeptos de embalagens de um quilo, e no Japão, cliente de minidoses.

No mapa-múndi do negócio, Ásia-Pacífico, Médio Oriente e África apresentam-se como regiões com potencial, com a África do Sul a caminho de se tornar o maior mercado internacional da empresa. Na estratégia de ação, um dos focos é o público jovem e infantil, como prova a decisão de triplicar a capacidade de produção de Pintarolas, agora nas 400 toneladas por ano, depois da inauguração da terceira unidade industrial do grupo, em Vila do Conde, em setembro.

“Atenta a novas oportunidades que possam surgir no exterior e que criem sinergias com o negócio da Imperial”, Manuela Tavares de Sousa já leva até 45 destinos os chocolates desta empresa, fundada em 1932, sob o controlo do Grupo RAR entre 1973 e 2015, ano em que foi comprada pelo Fundo Vallis e assumiu a missão de “crescer, ganhar músculo, globalizar”, mantendo a liderança em alguns segmentos de mercado em Portugal com as marcas Regina (1928), Pantagruel (1982), Pintarolas e Jubileu.

Certa de que “a relação emocional forte do consumidor com as marcas da Imperial” é uma enorme vantagem competitiva, a companhia quer ter um dos novos motores de crescimento no segmento dos “produtos saudáveis”, uma das tendências da procura na indústria alimentar, que no caso dos chocolates significa produtos sem açúcar, sem glúten, sem lactose, com baixas calorias ou baixo teor de hidratos de carbono.

Fábrica de chocolates Arcádia

Fábrica de chocolates Arcádia

NFACTOS/FERNANDO VELUDO

Uma marca na terceira geração

Se não podes vencê-los, junta-te a eles, foi o lema que inspirou os irmãos João e Margarida Bastos, na terceira geração da icónica marca de chocolates portuense Arcádia, a dar alma nova ao negócio e a espalhar os seus chocolates pelo país, a partir de 2003, logo depois de a casa, fundada em 1933 pelo seu avô, Manuel Bastos, entrar em dificuldades.

Quando o encerramento da velha confeitaria se tornou inevitável, na viragem do século, numa rota de declínio marcada por novas centralidades que ofuscaram a Baixa portuense e provaram o sucesso de outros formatos de retalho, os dois irmãos acreditaram que poderiam combinar tradição e modernidade. Transformaram a marca num “caso exemplar de capacidade de adaptação e reinvenção do comércio tradicional”.

Mantiveram uma pequena loja junto à fábrica, no coração do Porto, e lançaram o novo formato da Casa do Chocolate a partir dos centros comerciais, onde se concentrava o tráfego de potenciais consumidores. Resistiram e regressaram à rua.

Em 2000 tinham um negócio minguante, com vendas de 200 mil euros. Hoje faturam 5,5 milhões de euros, empregam 160 pessoas, criaram uma rede de 23 Casas do Chocolate, 10 das quais em franchising, batem as principais marcas belgas em vendas numa loja nos aeroportos nacionais, estão a apostar no novo conceito Arcádia Café — com espaços separados para os chocolates e cafetaria e possibilidade de franchising —, entram nas grandes superfícies no Natal e na Páscoa, quando as vendas disparam, e investiram 150 mil euros num novo centro de produção em Grijó — porque o espaço na Rua do Almada se tornou pequeno, trouxe “muitas dores de cabeça logísticas” e parece feito à medida para se transformar num Museu do Chocolate.

O economista, formado na escola Sonae, e a irmã farmacêutica estão agora a tempo inteiro no negócio da família, para trabalharem mais de 70 toneladas de chocolate por ano, num total de três milhões de bombons distribuídos por 70 referências, entre as históricas línguas de gato e novidades como as amêndoas do FC Porto, SL Benfica e Sporting CP, ou os chocolates criados para celebrar os 150 anos da Torre dos Clérigos. Com o aumento da capacidade de produção, há projetos para internacionalizar a marca, numa estratégia que pode juntar lojas próprias e franqueadas, a par da presença na distribuição moderna.

Loja DuMonde na baixa do Porto

Loja DuMonde na baixa do Porto

LUCILIA MONTEIRO

A volta ao mundo do chocolate

No mapa-mundo estampado no teto da DuMonde a linha do Equador, marcada a vermelho, mostra os países produtores de cacau e convida o cliente a viajar até às origens do chocolate logo que entra neste pequeno espaço de 24 metros quadrados, no coração da Baixa portuense.

Nas prateleiras há 350 referências de 40 marcas de chocolate de todo o mundo, cuidadosamente escolhidas por Hugo Resende e Antónia Germanova para iniciarem os portugueses na cultura do cacau. Todas são oferta exclusiva desta chocolataria, criada há um ano de acordo com um conceito inovador, num país onde as escolhas se resumem habitualmente às opções de leite, negro e branco.

“Valorizamos a importância da origem do cacau e 80% das marcas que vendemos trabalham na lógica bean to bar (“do grão à tablete”), o que significa que têm plantações de cacau ou vão diretamente às plantações escolher o seu cacau. E quase todas são marcas de pequena produção”, explica Hugo Resende, decidido a “vender viagens” em cada um dos seus chocolates até destinos como o Brasil, Madagáscar, S. Tomé ou Vietname.

Quando investiram neste projeto, Hugo e Antónia cruzaram competências no marketing e na nutrição para trabalharem o culto do chocolate junto dos consumidores portugueses e ajudarem o país a descobrir os diferentes sabores locais do cacau.

O boom turístico que está a agitar a cidade alargou a base de clientes e até trouxe propostas de franchising para o estrangeiro, mas a prioridade nesta fase é consolidar o negócio em Portugal, onde o casal de namorados, ambos com 25 anos, quer ter cinco lojas de rua entre o Porto e Lisboa até 2019. Já à procura do segundo espaço, mais uma vez no centro do Porto, para abrir em 2017, a DuMonde admite franchisar o conceito em Lisboa e quer duplicar o espaço das suas lojas, onde também há gelados, no verão, chocolate quente, no inverno, e clientes fiéis de 
café + bombom depois do almoço.

A oferta lusa limita-se às marcas Denegro e Feitoria do Cacau, mas os chocolates do mundo incluem propostas como a tablete com grãos de cacau embebidos em whisky de uma marca escocesa premiada, um chocolate lituano com lúpulo ou uma marca de Madagáscar que junta rostos às suas embalagens, numa homenagem às tribos que plantam o cacau.

A DuMonde não quer fazer o seu chocolate, porque “seria preciso muito tempo até chegar ao nível da oferta que já existe na loja”, mas tem a ambição de “despertar os sentidos dos consumidores” e “inspirar a criação de marcas de qualidade”. Ao mesmo tempo, está a desenvolver novos projetos, que passam por replicar o que se faz no mundo do vinho no universo dos chocolates e até combinar um pouco os dois universos, com provas, degustações, workshops.

No último trimestre de 2016 duplicou a estrutura, para quatro pessoas. No final do ano registou uma faturação de 120 mil euros, que poderá subir para 200 mil já em 2017, através de crescimento orgânico, da comercialização de algumas marcas de chocolate na grande distribuição, de eventos e lojas especializadas e de uma nova frente dedicada à alimentação saudável, em que vai trabalhar com a marca DuMonde Nature, tentando contrariar a sazonalidade que continua a marcar o consumo de chocolate em Portugal.

Loja Maria Chocolate

Loja Maria Chocolate

Lucília Monteiro

Brigadeiros e companhia

Esta história começa na cozinha de uma luso-brasileira, que foi conquistando amigos, e não só, com os seus brigadeiros, “aportuguesados com notas de licor ou Vinho do Porto” que o genro gostava de acrescentar. Foi assim que Fernando Monteiro acabou por deixar um emprego no sector automóvel para fazer formações em França, Bélgica e Brasil e trabalhar a tempo inteiro no chocolate, numa pequena empresa familiar, onde faturou 130 mil euros em 2016, mais 50% do que em 2015.

Ao todo, a marca Maria Chocolate emprega seis pessoas, apresenta 150 referências, trabalha cinco toneladas de chocolate por ano, apostando em sabores nacionais como a banana da Madeira, a cereja do Fundão, a ginja de Óbidos, o ananás dos Açores, o Moscatel do Douro, a avelã da serra da Estrela ou a flor de sal de Aveiro para fazer os seus recheios, exporta 5% do que faz, tem uma parceria com o turismo de Gaia para receber visitas com marcação na sua oficina, na margem esquerda do Douro. E desde fevereiro conta com uma loja para turistas e portuenses verem, comprarem e comerem os seus chocolates, no centro do Porto.

Feitoria com cacau

Na Feitoria do Cacau tudo começou numa viagem por S. Tomé. Desempregada de fresco, Susana Tavares partiu disposta a “arejar as ideias e encontrar um projeto para o futuro”. Visitou roças de cacau, falou com os produtores e acabou inscrita num curso online de uma escola canadiana para aprender os segredos da arte de trabalhar o chocolate.

O passo seguinte foi montar uma empresa com a japonesa Tomoko Suga, a trabalhar em Portugal como tradutora e intérprete. Criou, assim, o seu próprio emprego, em Aveiro, no final de 2015, conseguiu de imediato uma primeira encomenda para o Japão, através de um contacto da sócia, e dedicou-se a 100% ao chocolate, decidida a trabalhar todo o processo, desde o grão de cacau, num trabalho de valorização da origem da matéria-prima.

As vendas no primeiro ano rondaram 25 mil euros, “um resultado satisfatório para quem não está nisto para enriquecer”. 85% deste valor foram obtidos na exportação para o Japão, Bélgica, Espanha, Inglaterra. No seu caso, o mais difícil parece ser vender chocolates em Portugal, talvez porque os portugueses são dos europeus com o mais baixo consumo per capita ou porque na hora de fazer compras pensam duas vezes antes de pagar 5,50 euros por uma tablete de 50 gramas da Feitoria do Cacau, com propostas de sabores como o café de S. Tomé ou a flor de sal de Aveiro.

Susana admite que os consumidores podem estranhar o custo, mas garante que no valor pedido procura um “equilíbrio entre qualidade e preço justo. Se uma árvore dá 400 gramas de cacau num ano, é impensável vender tabletes de 100 gramas a um euro”, justifica a empresária, já a pensar trabalhar diretamente com produtores, num perfil de fermentação de cacau adequado ao gosto dos seus chocolates.

E qual é o investimento necessário para criar uma fábrica de chocolate em que há apenas um trabalhador? “Apenas uns 30 mil euros, para começar”, diz.

O bombom mais caro do mundo

O bombom mais caro do mundo

Um bombom de luxo

Um pequeno bombom pode valer 7728 euros e rivalizar com os diamantes como “o melhor amigo das mulheres”, tal como cantava Marilyn Monroe no filme Os Homens Preferem as Louras? A Daniel’s Chocolate acredita que sim e por isso criou o Glorious, apresentado como o “bombom mais caro do mundo”. Feito de modo artesanal, com o formato de um diamante, recheado com filamentos de açafrão, pepitas de ouro, óleo de trufa francesa, raspa de trufa e baunilha, sob um revestimento de folha de ouro comestível, este bombom para milionários nasceu em Leiria, na Daniel’s Chocolate. Vem embalado numa caixa única com 5500 cristais Swarovski e já chegou à Rússia, Emirados Árabes, Angola, Brasil e Colômbia.

O mestre chocolateiro Daniel Gomes, de 33 anos, começou por abrir uma chocolataria em Leiria, mas depois de criar o Glorious, em 2015, numa jogada de marketing para diferenciar o seu produto, acabou por reorganizar um negócio onde emprega quatro pessoas e faturou 250 mil euros em 2016, 25% dos quais relativos à exportação.

Fechou a loja, mas passou a servir a classe executiva da TAP, a responder a encomendas online, muitas vezes para chocolates com mensagens personalizadas, porque “esta também é uma forma de comunicação”, a participar em eventos, a servir a hotelaria, sempre pronto a fazer experiências e a “despertar sensações degustativas”.

Entre os bombons mais vendidos está a sua criação com malagueta, em forma de lábios, mas a diversidade da oferta abarca recheios como o leitão ou o chícharo, uma leguminosa com direito a festival anual em Santa Catarina da Serra, perto de Fátima, onde Daniel começou por vender 500 unidades, há quatro anos, e chegou às 8500 na última edição, em novembro.

Festival Internacional do Chocolate, em Óbidos

Festival Internacional do Chocolate, em Óbidos

Municipio de Obidos

A receita de Óbidos

E se Óbidos, além do Festival Internacional do Chocolate, tivesse também a sua fábrica de chocolate? A ambição pode concretizar-se a curto prazo, através de uma parceria entre investidores portugueses e produtores de cacau brasileiros dos Estados do Pará e da Baía, onde também se realiza um festival de chocolate, anuncia Ricardo Ribeiro, da Óbidos Criativa E. M.

“A ideia é criar um projeto fiel ao conceito do grão à tablete, para trabalhar o chocolate em função do gosto europeu, reforçar a ligação de Óbidos ao mundo do chocolate e, simultaneamente, abrir as portas da Europa a estes produtores brasileiros”, sublinha o presidente da empresa responsável pela organização do festival, em cena desde 2002, um ano depois de o controlo da Câmara local passar do PS para o PSD.

À procura de ideias para trabalhar, a nova equipa autárquica, que tinha feito da criação de eventos mediáticos e inovadores uma das bandeiras da campanha eleitoral, aceitou prontamente a sugestão de um norte-americano que participou na campanha de Ronald Reagan para a presidência dos EUA e vivia, na altura, em Óbidos para cruzar o mundo mágico do chocolate com a atmosfera medieval do seu castelo. “Foi a receita certa para atrair pessoas de todas as idades ao concelho, na época baixa”, garante Ricardo Ribeiro. E apresenta provas: o festival recebe 60 a 80 mil visitantes por ano, gera anualmente receitas diretas e indiretas avaliadas em 3,5 milhões de euros na economia local, atraiu 50 expositores na última edição, em abril, e inspirou réplicas um pouco por todo o país, com os eventos à volta do chocolate a multiplicarem-se de Grândola a Lisboa, Matosinhos, Póvoa ou Valença.

Bombons da Melgão Chocolates

Bombons da Melgão Chocolates

Um doce sabor no Alentejo

Quando António Melgão decidiu ser um pasteleiro especializado em chocolates e bombons, há 20 anos, havia apenas “mais três ou quatro pessoas a trabalhar na mesma área em Portugal”. No seu caso, a descoberta do cacau começou dentro de portas, na pastelaria Capri, que abriu em Montemor em 1990, mas a descoberta de técnicas, ingredientes e texturas levou-o a viajar por diferentes países e até a estudar química e física.

Hoje emprega oito pessoas, três das quais na arte da chocolataria, trabalha 2,5 toneladas de chocolate por ano para vender localmente, mas também em lojas gourmet em todo o país e via Internet, faz bombons para todos os gostos, sem esquecer recheios exóticos, como o de vinagre balsâmico e manga, nem sabores portugueses variados, da azeitona ao Queijo da Serra com marmelada e à ginja, ou a produtos da cerveja, organiza quatro workshops de formação para profissionais por ano e não para de provar que neste negócio o limite é a imaginação.

Já pensou em ter lojas de chocolate, mas sabe que o tempo não chega para tudo e acredita que neste trabalho “o controlo é fundamental”. Está a desenvolver uma nova linha com sabores da infância, como a pastilha elástica e o pão com manteiga, tem uma parceria com o Instituto Superior de Agronomia (ISA) dedicada aos bombons probióticos, registou uma patente, depois de dois anos de trabalho com o ISA, para aumentar a validade dos bombons de três para seis meses, sem aditivos. Há um ano aderiu à nova tendência que trabalha o cacau do grão à tablete. “Exige um investimento inicial entre 800 e quatro mil euros, dependendo do que se pretende ter e fazer, e tem a vantagem de aproximar a produção das origens da matéria-prima”, diz. Por isso, a Melgão Chocolates apoia um concurso de criações de chocolate no próximo evento O Chocolate em Lisboa, em fevereiro, em que o primeiro prémio é equipamento e formação do grão à tablete.

Bombons com mel de rosmaninho caramelizado, da Mestre Cacau

Bombons com mel de rosmaninho caramelizado, da Mestre Cacau

Também no Alentejo, o Mestre Cacau nasceu há 11 anos, em Beja, num projeto inspirado nas “lojas de chocolate com uma pequena oficina nas traseiras”, que João Dias e a mulher, Célia, foram descobrindo em viagens à Bélgica, Suíça e França,

Nesta aventura, o engenheiro agroindustrial, que acabaria por fazer um doutoramento na área do chocolate, e a mulher, assistente social, procuravam “algo mais, além da atividade profissional”, e descobriram uma nova vocação, em que já tiveram o apoio de alunos da Escola Superior Agrária de Beja em desenvolvimentos como a azeitona confitada. Depois de receberem formação na Bélgica, Célia passou a trabalhar com as mãos metidas no chocolate, enquanto João continuou a dar aulas, ajudando a produção familiar em “noitadas, em especial antes do Natal, que vale 40% das vendas”, de 180 mil euros. O investimento total é também de 180 mil euros, inclui três máquinas para temperar chocolate e já permitiu passar a oficina inicial para fora da cidade, de forma a ganhar espaço para a operação. Juntos trabalham cerca de 10 toneladas de chocolate por ano, para vender na sua loja, a par de croissants, crepes, gelados e café, mas também em 80 lojas gourmet distribuídas pelo país, no Centro de Ciência da Delta, para onde fazem o grão de café coberto de chocolate, e a portugueses que vivem no Luxemburgo, Espanha e França. O próximo passo será apostar na exportação, diz João Dias, a pensar levar a sua marca a feiras da especialidade no exterior para apresentar o Mestre Cacau alentejano ao mundo.

Chocolataria Leonidas, no Porto

Chocolataria Leonidas, no Porto

Rui Duarte Silva

A invasão belga

Os chocolates e bombons frescos, sem corantes nem conservantes, do gigante da chocolataria belga Leonidas aterraram no Porto e em Lisboa em 2015, confiantes no segredo do seu recheio para vencer em Portugal, o único país da Europa que ainda não tinha sido conquistado pela marca. Ricardo Puga, que tem a representação da insígnia — criada pelo grego Leonidas em 1935 e que ainda hoje é produzida a 100% na Bélgica, para servir uma rede de 1500 lojas na Europa —, definiu como objetivo para o primeiro ano de atividade ter três estabelecimentos. Já soma 12, quatro dos quais próprios, onde foram criados 40 postos de trabalho.

Confiante, diz que o objetivo é liderar o mercado nacional no número de lojas e ter 40 espaços da marca no país em quatro anos, adiantando que uma loja custa 20 a 35 mil euros, mas as margens de rentabilidade “são simpáticas”, rondando, em média, 50%. Note-se que só a loja da Grand Place, de Bruxelas, com 35 metros quadrados, fatura mais de quatro milhões de euros por ano. Ricardo Puga acredita, tal como a família fundadora, na fidelização dos clientes e na vocação da marca para ser “o chocolate de todos os dias, sem medo de deixar para os outros o título de chocolate do Natal” e, para justificar o seu otimismo, diz que “na Grécia, a Leonidas tem mais de 40 lojas, e nenhuma delas fechou com a crise”.

Na análise que fez do mercado percebeu que Portugal “era o país mais atrasado da Europa no negócio do chocolate”, mas isso permite perspetivar “boas margens de crescimento e oportunidades. O consumo em Portugal pode duplicar ou triplicar a médio prazo”, acredita.

Este artigo é parte integrante da edição de fevereiro de 2017 da Revista EXAME