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Em busca do pretérito perfeito

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Marcos Borga

A Kodak relança as fotografias instantâneas, a Olaio regressa em força, a Famel torna à estrada. A moda é cíclica, mas será que trouxe consigo o consumo à velocidade antiga?

Rute Barbedo

Talvez não esperássemos que as andorinhas de Raphael Bordallo Pinheiro (1846--1905) voassem em pleno 2016, lado a lado com drones, ou que pousassem sobre mobiliário Ikea. Não sonhávamos que o mosaico hidráulico geométrico (que atingiu o auge no início do século XX) avançasse do esquecimento para o conforto de cafés e pastelarias. Tudo em convivência com o caseiro, o típico, o artesanal, o tradicional, junto ao “bolinho da avó” e ao “feito com amor”, mesmo agora, na era da velocidade maior do que a luz.
A sociedade quer o passado de volta? Ou, mais uma vez, corre atrás de uma tendência? Pedro Quelhas Brito, professor na Faculdade de Economia da Universidade do Porto e especialista em psicologia do consumidor, responde com a palavra “nostalgia”. “Se forçarmos na psicologia humana (e do consumidor), temos uma necessidade grande de desenvolver sentimento e de procurar experiências que estimulem o nosso imaginário sobre épocas relevantes para nós e para as quais projetamos felicidade.” Para a construção desse imaginário contribuem o cinema, a televisão (séries como Mad Men ou “Conta-me como Foi), a publicidade (vejamos a estratégia de retrobranding do Licor Beirão, que chega a comercializar telas vintage online) ou os relatos de gerações passadas. Em paralelo, o presente é muitas vezes um lugar de incompletude. “Provavelmente, se pudéssemos, viajávamos no tempo”, acrescenta Quelhas Brito. Assim, mais do que objetos, os produtos vintage e retro são experiências pelas quais o consumidor está disposto a pagar mais.
Mas serão vintage os automóveis produzidos nos anos 2000 com referências estéticas aos anos 70 ou o mobiliário em contraplacado (produzido em grande escala), a fazer lembrar a escola Bauhaus? Talvez andemos perdidos entre o vintage, o clássico, a antiguidade e o retro (e entre os produtos e a filosofia vintage), por isso vale a pena recuar para nos situarmos na cadeia de valores: o termo vintage tem origem no contexto da enologia, referindo-se a colheitas (e vinhos) de qualidade superior, exclusivas a anos de excelência. Foi mais tarde adotado pela cultura jazz dos Estados Unidos, num movimento contra o consumismo e a massificação. No presente, “detém duas facetas principais – uma associada à defesa de valores e a uma clara posição contra a cultura e a política dominantes, e a outra que está essencialmente associada à moda, à aparência e a uma nostalgia superficial pela qualidade de produtos de outrora”, analisou Ana Raquel Rodrigues na dissertação de mestrado A Tendência Vintage: Utopia, Retrofilia e Revivalismo Cultural (de março de 2015). Para adensar a complexidade, convivemos com os dois conceitos – o vintage e o “vintage” –, na “busca eterna de uma Golden Age.
O vintage (mesmo o falso) é comercialmente atrativo e o mercado não poderia ficar indiferente a isso, como explicou o especialista dinamarquês em neuromarketing Martin Lindstrom numa apreciação sobre o novo culto do gin, publicada no Fast Company. “Tudo sobre [a marca] Hendrick’s recua até ao século XIX – um tempo de alquimistas, inventores, balões de ar quente, dançarinos de burlesco […] Mas, contrária à aparência vintage, a sua primeira garrafa chegou aos estabelecimentos alvo apenas em 1999. E o Hendrick’s não foi a única marca a ter sucesso na criação de uma aura de nostalgia […] Quanto mais stressado, atormentado, frenético e inseguro o nosso mundo se torna, mais ansiamos pelas certezas do passado.”

Uma tendência crescente
“Sem dúvida que o universo vintage é uma tendência crescente há bastante tempo na Europa e há menos tempo em Portugal”, avalia Teresa Aragonez, professora no IPAM – The Marketing School. O que se procura neste conjunto de nichos é “a exclusividade e a originalidade dos produtos”. Quando entramos no plano da réplica, deparamo-nos com “um consumo menos informado e mais impulsivo”, em que “as motivações são relacionadas com a satisfação emocional e a associação a uma geração e a um estilo de vida desejado”. Sob o sentido original do vintage, explica a professora, este “é um mercado orientado para a exclusividade, e não para as massas”.

Reinventar a(s) roda(s)

A cultura da bicicleta tem mexido no sector da mobilidade como poucas, na direção contrária do consumo barato e em quantidade. Já os carros clássicos, que contam dias felizes lá fora, fazem uma curva apertada em Portugal

Ao longo de 2014, as vendas de bicicletas em Portugal dispararam 30%. O aumento da sua utilização enquanto meio de transporte é uma das explicações para o fenómeno, que gerou uma receita de 178,3 milhões de euros para o país, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), e deu confiança à indústria nacional – no mesmo ano, foram produzidos mais de 1,6 milhões de bicicletas e as exportações atingiram a fasquia de 315 milhões de euros, tornando Portugal o terceiro maior produtor de bicicletas a nível europeu.
Já tinha entrado o país nesta reta quando Miguel Barbot, Sérgio Moura e Hugo Cardoso criaram a Velo Culture, um projeto que engloba a venda de bicicletas (novas e usadas) e de peças, o restauro e a componente mecânica. Abriram a primeira loja em Matosinhos, em janeiro de 2012, e foram crescendo organicamente à velocidade dos pedais. Hoje existe também uma loja no Porto e outra em Lisboa, rondando o volume global de transações 150 mil euros anuais (uma bicicleta nova supera facilmente 500 euros, mas o centro do negócio assenta na venda de peças e no trabalho de manutenção).
Quando a EXAME os contactou para falar sobre a ascensão da cultura vintage em Portugal, terá existido um impulso de resistência. “Não me vejo no vintage, naquele sentido de estar a surfar a onda, e nem gosto da palavra”, admite Miguel Barbot, descolando-se de qualquer visão superficial. “O que fazemos é o essential vintage. Algumas marcas com que trabalhamos não tinham introduzido inovações significativas na linha de produtos até há quatro ou cinco anos. Não há mais vintage do que isto.” “Bicicletas bonitas” é o slogan para marcar uma característica essencial a qualquer modelo que entre na loja, porque a estética contribui para a criação de “empatia” com o objeto, analisa Sérgio. Mas a alta qualidade, a pequena escala e a manufatura são também critérios de peso. “Estamos a falar de um consumo lento. Comprar melhor, com sustentabilidade, saber qual é a origem, quais os valores por detrás da marca”, retoma a palavra Miguel Barbot.
A Órbita (que foi notícia em 2011 pela exportação de 22 mil bicicletas urbanas para Paris e que assume cerca de 70% da produção para o estrangeiro) é a única marca 100% portuguesa na Velo Culture. “São 45 anos passados em Portugal e isso interessa-nos; se fosse a produzir na China, não”, enquadra o responsável. A coerência está no centro do negócio, só que Portugal “está muito atrasado” neste plano, lamenta. “O preço da gasolina sobe, mas a utilização do automóvel também, em contracorrente com o resto do mundo.” Em 2012, a União Europeia viu, pela primeira vez, a comercialização de bicicletas ultrapassar os números do sector automóvel (o que, claro, contou com a redução de vendas deste último segmento), e a mudança continua a trilhar-se.
O que torna hoje possível um negócio como a Velo Culture é, em grande parte, o facto de a indústria estar “a voltar para o velho mundo, com escalas mais pequenas e uma qualidade diferente”, em paralelo com o crescimento do ciclismo utilitário de cidade, acompanhado por autarquias, que investem cada vez mais em infraestruturas cicláveis. “Os micronegócios urbanos são o futuro”, acredita Miguel Barbot.
Ainda no plano da estrada, a viagem da mítica (e extinta) FAMEL é outra: a do revivalismo. O engenheiro automóvel Joel Sousa comprou a marca e da reabilitação do modelo XF17 promete relançar a motorizada de assinatura portuguesa em 2017. Seguindo estratégias como as do Grupo BMW, que investiu numa reinterpretação do Mini nos anos 2000, ou da Volkswagen, que trouxe de volta o Carocha, o objetivo assenta numa ótica retro com a tecnologia do presente. Sim, porque as poluições sonora e atmosférica de uma FAMEL não podem voltar.


Impostos penalizam
O mesmo terão pensado os legisladores portugueses sobre o universo automóvel quando, em 2007, publicaram o Decreto-Lei n.º 22-A/2007, de 29 de junho, fazendo aumentar a carga fiscal sobre a importação e circulação de automóveis de acordo com a sua antiguidade e cilindrada (habitualmente elevada nos veículos antigos). A medida contribuiu para “o arrefecimento enorme de uma indústria que se estava a afirmar” e que não envolvia “só os carros, mas também oficinas, pintores, bate-chapas… Estava a criar-se um cluster à volta dos carros de coleção”, afirma Luís Cunha, secretário-geral do ACP (Automóvel Clube de Portugal) Clássicos, que explica que, embora os carros antigos sejam normalmente mais poluentes, a sua reduzida circulação afasta-os do rótulo de ameaça para o ambiente.
Em Portugal, o interesse por automóveis antigos terá começado na década de 60, mas foi na época dourada dos 90 que ganhou maior fôlego. “Apareceram imensos clubes e, em 2001, foi fundado o ACP Clássicos”, situa Luís Cunha. Desde então, ao grupo aderiram 4080 sócios, com cerca de 15 mil automóveis. José Pereira, de 71 anos, é um deles. Na garagem, conta com “9,5 carros” – um foi comprado a meias com o irmão.

Miguel Barbot, Sérgio Moura (ambos na foto) e Hugo Cardoso criaram um negócio de “bicicletas bonitas”, em Matosinhos, há quatro anos. Hoje, a Velo Culture está também em Lisboa e no Porto

Miguel Barbot, Sérgio Moura (ambos na foto) e Hugo Cardoso criaram um negócio de “bicicletas bonitas”, em Matosinhos, há quatro anos. Hoje, a Velo Culture está também em Lisboa e no Porto

Rui Duarte Silva

“Gosto de conservar as coisas e de as recuperar, por uma questão de cultura e de respeito. É uma forma de procurar a originalidade e de manter o que os nossos pais nos deixaram”, explica o médico reformado. Tudo começou na Suíça, quando um Fiat 1100 TV descapotável, de um doente seu, estava destinado a abate. A partir daí vieram mais, porque, “quando uma pessoa tem uma coisa na vida, procura sempre outra, excetuando a mulher”, brinca o amante de automóveis. Ficou em segundo lugar nas 500 Milhas ACP, a 30 de abril, com um Porsche 256 Roadster, de 1961. Mas desde que a lei mudou não atualiza a frota. Sabe que “houve muitos carros que saíram do país” e reconhece que “hoje é impensável importar um carro”, até porque, “com uma cilindrada de 5000 [cm3] o imposto a pagar seria quase o preço de um carro novo” (no caso de um automóvel fabricado antes de 1970, na União Europeia, movido a gasolina e com 5100 cm3 de cilindrada, o simulador do Portal das Finanças aponta para um valor anual de 20.534,98 euros de imposto sobre veículos).

ACP Clássicos

ACP Clássicos

Rui Duarte Silva

Talvez o arrefecimento deste segmento faça com que Portugal não figure no estudo encomendado em 2014 pela Fédération Internationale des Véhicules Anciens (FIVA) à GfK, sobre a propriedade de veículos históricos (com pelo menos 30 anos, restringe a definição) em 15 países europeus. A conclusão é de que, embora a maioria (42%) dos automobilistas se tenha afiliado ao universo clássico por motivações recreativas, 27% dos inquiridos declararam tê-lo feito por nostalgia. “[O carro] é um adereço da cultura vintage”, admite Luís Cunha, do ACP, e o consumidor “tende a procurar o automóvel que o faz lembrar da sua juventude”.
Em termos de valor de mercado, a média europeia é de 21.043 euros por veículo de passageiros, sendo que cada proprietário detém habitualmente mais do que um automóvel, maioritariamente a rondar os anos 60. Portugal não escapa à regra: “Os compradores no ativo estão mais virados para os automóveis dos anos 50 e 60. Mas há uma crescente procura por automóveis dos anos 80 e 90, o que tem um efeito enorme sobre a oferta, com valorizações absolutamente espantosas quando estamos a falar de Porsches ou Ferraris, por exemplo”, adverte Luís Cunha. Entre as marcas mais populares de automóveis históricos, a Citröen ocupa a posição cimeira na Europa, com a Volkswagen, Fiat, Volvo e Ford a assumirem lugares de destaque. A Leste, a Mercedes encabeça a lista.

O sabor da nostalgia

A lembrança de um produto pelo cheiro, sabor ou experiência pode ser mais forte do que qualquer campanha visual. Haverá melhor exemplo de comfort food do que o chocolate da infância?

Não é apenas porque estes alimentos são saborosos. É porque eles nos fazem sentir menos sozinhos.” Assim arranca um artigo publicado na revista Time em julho do ano passado sobre o conceito de food nostalgia, que toca no coração dos gelados de verão, nas compotas artesanais, nos biscoitos da avó. É natural que associemos um determinado alimento a membros da família ou a momentos da vida social, reconheceu um grupo de cientistas da University of the South, nos Estados Unidos. “A comida [comfort food (que confere conforto emocional ao relacionar-se com uma determinada pessoa ou momento da vida afetiva)] é poderosa para ativar recordações da nossa infância”, declara à EXAME o professor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto Pedro Quelhas Brito.
Em abril do ano passado, a investigadora Alexandra Vignolles escrevia o seguinte: “O consumo de comida envolve os nossos cinco sentidos, e mais particularmente o olfato e o paladar, que imprimem memórias fortes nas mentes dos consumidores; daí o seu vínculo com a nostalgia.” E é nos cinco sentidos que se baseia a publicidade do futuro, contra o investimento dos últimos anos no estímulo visual, defendem vários especialistas.
Mas associados ao sabor e ao cheiro estão os modelos de apresentação de cada produto, que nos farão recuar a tempos como o das saudosas Bombocas ou dos rebuçados Dr. Bayard. Foi este pensamento de regresso ao clássico que fez com que, no Natal de 2013, a chocolateira Imperial (que havia adquirido a marca Regina no ano 2000) relançasse a Caixa de Furos Regina, um jogo em que o “pior” que pode acontecer é sair um chocolate. Trata-se de “uma das apostas no âmbito da tendência do revivalismo e dos produtos vintage”, assume a administradora, Manuela Tavares de Sousa, e a estratégia parece ter resultado. “Logo no primeiro ano foram feitos mais de três milhões de furos, um número que superou largamente as expectativas iniciais.” Ao mesmo tempo, renasceram as clássicas sombrinhas, o “vermelhinho”, as tabletes de aromas e o Floc Choc, originais da década de 40.

DR

Retromarketing
“Os produtos históricos conquistam cada vez mais adeptos e são mesmo a primeira opção para um conjunto considerável de consumidores”, reconhece a gestora, apontando para a valorização da tendência vintage, por um lado, e para “consumidores de uma faixa etária habitualmente superior a 25 anos, que mantêm uma ligação emocional com os produtos que fizeram parte da sua vida”.
A aposta no retromarketing estendeu-se, no ano passado, a uma parceria com a rede de lojas A Vida Portuguesa, onde estão de volta as tabletes Regina n.º 1, originalmente lançadas nos anos 30, “com uma imagem vintage que tem encantado os consumidores”. Também o “Chocolate Confortável para Turistas”, como era conhecida a edição especial dos “Costa do Sol”, que remetiam para o glamour do Estoril em meados do século passado, não foi esquecido. Para Manuela Tavares de Sousa, é uma forma de recuperar “o potencial das marcas, contando a sua história através dos produtos e das embalagens e transportando os consumidores para uma época que associam a doces e felizes recordações. Queremos que os consumidores revivam bons momentos ao encontrar nas prateleiras das lojas algo que conhecem e que pertence à memória alimentar coletiva portuguesa"

Património entre família

Podemos ver o abaular de um aparador em derivado de madeira MDF ou voltar à madeira maciça, beber café na caneca 61.978 ou numa peça única. “Descendentes” das empresas SECLA e Olaio querem que as escolhas continuem a ser possíveis

Entre as mais recentes produções da portuguesa SECLA – Sociedade de Exportação e Cerâmica, L.da, estão duas encomendas da SECLA Vintage para a Area e A Vida Portuguesa, em 2007. Um ano depois, a fábrica das Caldas da Rainha encerrava, mas Marta Galvão Lucas, que trabalhou esta coleção, levou com ela a herança cultural (é filha de um dos ex-administradores da sociedade) de uma fábrica que marcou o imaginário nacional. Em 2011 montou o Estúdio – Caldas da Rainha e mudou-se para a cidade “adotada” pelo ceramista e caricaturista Bordallo Pinheiro para desenvolver peças “a partir da investigação da história da cerâmica portuguesa e do trabalho conjunto com os núcleos cerâmicos portugueses de criação e fabrico”. No final de abril recebeu-nos no seu estúdio, no piso térreo do extinto Hotel Central.
“Acho que agora não usaria essa palavra [vintage, para a coleção da SECLA], mas na altura significava ‘colheita especial’. Agora usa-se o vintage, se calhar, no sentido em que na altura se falava de retro. Há o vintage banalizado e como chavão de tendência, para vender, e há as peças originais, de época”, diferencia a escultora de formação. Um dos seus principais projetos é a reedição de modelos da SECLA, “na sua maioria desenhados nas décadas de 50, 60 e 70 do século XX”. Há variações nas cores, “com a paleta tradicional a ser gradualmente complementada com os novos corantes sintéticos”, mas o fundamental permanece. O conceito, o desenho e a técnica visam conservar a autenticidade dos moldes e dos vidrados inventados pela cerâmica caldense e já fora de produção.
Entre 2014 e 2015, as vendas (de reedições da SECLA) quase triplicaram – a subida foi de 261%. Comparando o primeiro trimestre de 2016 ao de 2015, o aumento foi de 180%. E a acompanhar esta dinâmica numérica existe ainda o saldo da exportação – 19% de encomendas enviadas para o estrangeiro em 2014 passaram a 28% no ano seguinte, com o Reino Unido como principal destino.
Talvez “a crise” tenha contribuído para mudar mentalidades, acredita Marta. “Fechou muita coisa e agora voltou-se a comprar mas de outra maneira.” Mas ao contrário da SECLA, que chegou a fabricar 12 milhões de peças por ano, no Estúdio a produção é residual. “Ter stock é complicado, o desenvolvimento das peças é muito caro e leva muito tempo”, justifica a escultora. “Nunca se poderá dar azo a encomendas de grande volume. Tínhamos de desvirtuar completamente a peça.” Ao mesmo tempo, pensar na massificação destas canecas ou pratos conduz a um choque de conceitos: conhecer a história de cada modelo e levar o cliente nessa viagem são detalhes que levam tempo, o que não se enquadra no ritmo das grandes superfícies.

 A fábrica fechou em 2008, mas, três anos depois, Marta Galvão Lucas recuperou o seu traço

A fábrica fechou em 2008, mas, três anos depois, Marta Galvão Lucas recuperou o seu traço

Luís Barra

Não é nostalgia, é continuação
Agora imagine-se que os modelos desenhados pela SECLA assentam numa mesa Olaio, não de 1966, mas de 2016. “A Olaio está a ser relançada” através de “um trabalho intenso, acompanhado de muita investigação e estudo”, garante João Olaio, bisneto do fundador de uma das assinaturas de mobiliário mais marcantes da história nacional. Depois da prototipagem, acerto de detalhes e atualizações técnicas, a fábrica (cuja localização se mantém em segredo) encontra-se em fase de produção de novos exemplares.
Sem querer adiantar muito sobre a estratégia ou os modelos a lançar no mercado, João Olaio garante que a revitalização da marca será “em força”. Esperou por 2016, não porque uma onda vintage se mova à sua volta, mas porque precisava das “pessoas certas” a seu lado. “Queria que o projeto continuasse, mas na perfeição”, confessa o empresário, que acompanhava as viagens da Olaio pelo mundo desde pequeno. A aposta surge fundamentalmente porque a família acredita que “é viável fazer mobiliário português de qualidade e porque há histórias que merecem outro final”. Têm sido frequentes as mensagens de interesse que chegam à marca, que conta com muitos anos de arrefecimento, por isso João Olaio não tem dúvidas de que encontrará público.
Comparar a “nova Olaio” à “antiga Olaio”, ainda assim, é uma falácia. O que está para acontecer é a “continuação da Olaio que sempre houve, que por algum tempo interrompeu a sua produção e que voltou agora”. A diferença está na evolução em termos industriais e de fabrico e na chegada de novas interpretações. Quando o questionámos sobre um pensamento voltado para a nostalgia, João é perentório: “Nostalgia é uma palavra triste e a história da Olaio reescreve-se de forma animada.”
Antes do relançamento, a casa que mobilou o país, por ter sido fornecedora do Estado, e que chegou a produzir peças da sueca Lundia decidiu aflorar-nos a memória com uma exposição patente até dezembro no Museu de Cerâmica de Sacavém: Móveis Olaio – Produção, Inovação e Qualidade. “Estes últimos tempos têm sido pautados por várias iniciativas, que de alguma forma têm trazido maior visibilidade à Olaio”, confirma o bisneto do fundador. Estratégia? Volta-se a preferir o segredo.

A marca portuguesa regressa em força este ano, numa aposta no mobiliário de qualidade, adianta o bisneto do fundador, João Olaio

A marca portuguesa regressa em força este ano, numa aposta no mobiliário de qualidade, adianta o bisneto do fundador, João Olaio

Luís Barra

O corpo do vinil e o swing no corpo

Também o mercado da experiência foi apanhado na tentação de olhar para trás. O mundo anda atrás do vinil, mesmo na era do digital. Para quem não consegue ficar parado a ouvir, as danças vintage chegaram em forma de escola e festivais

Já lá vão 23 anos de Carbono, a loja de discos que apadrinhou o conceito do usado na música em Portugal. Entre dias melhores e outros mais escuros – como os do MP3 e do YouTube –, João Moreira, fundador da marca, antevê um futuro com “casas onde livros, DVD, CD, discos de vinil, jogos e PlayStation não irão existir. Estará tudo disponível na box”. O que restará? Apenas “alguns doidos” a “colecionar artigos do passado”, porque, garante João, “o que existe hoje com o vinil é uma moda, que já dura há alguns anos e poderá estar no auge, mas que em breve irá passar”.
Acontecerá algo semelhante com os livros ou com outros objetos que exigem tempo numa sociedade que corre entre redes e tecnologias: “As pessoas compram discos de vinil, mas poucos os ouvem.” Têm “medo que se estraguem”, acham que não é prático ou constroem a rotina em discos de computador e iPod. Colecionar vinis ou compact discs (CD) passa, assim, a assemelhar-se a atividades como a filatelia, compara João Moreira, mas com uma pequena (grande) diferença: “O objeto contém músicas que marcam períodos da vida e, devido a isto, os discos que mais vendo são sempre os clássicos”, nota o colecionador, remetendo para os marcantes Nevermind, dos Nirvana, ou o álbum dos Pink Floyd The Dark Side of the Moon. Mas há outros fenómenos pontuais: “Depois da morte do David Bowie [em janeiro], o último álbum estava esgotado em todo o lado.”
Na ótica do criador da Carbono, o boom do vinil (que atingiu cadeias de grande alcance como a FNAC, por exemplo) é passageiro, porque “nem toda a gente está disposta a pagar 30 euros por um LP que é novidade quando pode ter a versão digital de borla”. É graças aos visitantes estrangeiros que esta discoteca pode manter as portas abertas na Rua do Telhal, em Lisboa, mas também a uma espécie de magia, como explica o comprador e vendedor de música: “Ao longo de 23 anos, passaram-me pelas mãos milhares de discos e o feitiço de ver, mexer e comprar ainda dura. É como uma doença de longa duração, e este tipo de sintomas é algo comum em colecionadores e acumuladores de discos.”
Como nos livros, o que valoriza um disco de vinil – além da sua raridade, estatuto do artista e estado de conservação – é também o facto de se tratar de uma primeira edição ou de uma peça considerada vintage, com a ajuda da “arte visual da capa”, que já foi elemento central de exposições da Carbono, como a de 2005 Os discos mais raros editados em Portugal.
Em plataformas de venda online, como o eBay, são comercializados exemplares por valores muito acima da média. O single Good Luck Charm (1962), de Elvis Presley, por exemplo, foi vendido por 24 mil dólares (cerca de 21 mil euros ao câmbio atual), e uma cópia do álbum Yesterday and Today, da banda britânica The Beatles, foi comprada em 1999 por 38.800 dólares (cerca de 34 mil euros). Muitos dos negócios são feitos por amantes da música, mas uma boa parte é liderada por investidores. Outros consumidores, os do universo low budget, “compram em grandes quantidades para ‘fazer business’, para ‘samplar’ [retirar samples, ou seja, amostras de uma gravação áudio para a utilizar numa nova música] ou têm por lema não pagar fortunas por um disco”.
Em loja, a realidade é outra: “Um disco caro demora imenso tempo a vender-se”, até porque a Internet colocou o conceito de raridade em cheque e criou uma concorrência pródiga em baixar a fasquia de preços.

Loja Carbono

Loja Carbono

Marcos Borga

Swinging in the rain
Em 2016, ver um grupo de pessoas a dançar lindy hop nas ruas de Lisboa ou do Porto já não é estranho. Em nove anos, Portugal passou a ter (começando do zero) mais de 200 amantes de danças vintage americanas. Pode parecer pouco, mas, segundo Abeth Farag, fundadora da escola Swing Station, os movimentos do lindy hop ou do blues foram difíceis de introduzir na coreografia nacional. Quando, em 2003, Abeth chegou ao Porto para viver, já com o jazz entranhado no corpo, e percebeu que não havia quem partilhasse desta paixão, a pergunta foi repentina: “Como é possível?” Viajava regularmente para outros países à procura de festivais onde pudesse dançar, mas não era suficiente e por isso a californiana começou a dar aulas e a espalhar o vintage que havia em si. “A música jazz toca nas coisas mais fundamentais da nossa alma, fala de toda a sujidade e alegria da vida. E conseguir dançá-la é fabuloso.”
Se o jazz faz parte do crescimento de qualquer jovem norte-americano, é visível o “fascínio por essa cultura”, afirma a professora, que, quando era miúda, passava “as tardes a escolher filmes antigos na televisão”. O jazz, em formato dançável, liga-se, assim, à infância e às “épocas de ouro” de uma sociedade. “Os anos 20 foram de muita mudança na cultura americana. As mulheres estavam a descobrir a liberdade, o cinema estava em força, a maneira como as pessoas se vestiam era muito mais elegante, a arquitetura era glamorosa.” Esta é a nostalgia. Por outro lado, “também foi uma altura de grande depressão, como a que vivemos agora, e acho que estes escapes ajudam a ultrapassar essa sensação, criando um sentimento de bem-estar”.
As motivações emocionais estão expostas, mas como se fez crescer uma escola num lugar onde a tradição toca outros acordes? “A onda do vintage chegou a Portugal há cerca de três anos e ainda está viva, e isso ajudou-nos”, analisa a norte-americana. Em paralelo, as festas realizadas em locais carismáticos, como o Maus Hábitos, no Porto, ou as aulas no âmbito do projeto 1001 Danças, em Lisboa, contribuíram para a popularização das danças swing. “Foram anos duros, com duas escolas a crescer”, conta Abeth Farag, que entretanto se fixou na capital, onde organiza aulas abertas, festas, espetáculos, workshops para iniciantes, entre outros eventos. Desde 2011, a Swing Station programa o Atlantic Swing Festival, em Lisboa, e há dois anos deu a conhecer ao Porto o festival Atlantic Blues.

Abeth Farag, fundadora da escola Swing Station, em Lisboa, diz que os movimentos do lindy hop ou do blues foram difíceis de introduzir na coreografia nacional

Abeth Farag, fundadora da escola Swing Station, em Lisboa, diz que os movimentos do lindy hop ou do blues foram difíceis de introduzir na coreografia nacional

José Caria

O vintage na pele

Será vintage usar malhas portuguesas recuando a técnicas de fiação de outros séculos ou no guarda-roupa o vintage implica a segunda-mão?

Entre a abertura de Uma Casa Portuguesa, em 2004 (hoje A Vida Portuguesa) – que fomentou (e continua a fazê-lo) o contacto com um passado comercial do país –, e a criação, em 2009, da cadeia de Quiosque de Refresco (tendo por detrás a mesma cofundadora, Catarina Portas) surgia um marco importante na comercialização de vestuário em Lisboa. A Outra Face da Lua desembargou os conceitos de roupa vintage e em segunda-mão, tentando esbater o preconceito sobre o seu uso.
Entretanto, abriram muitas outras lojas com artigos do mesmo segmento, impulsionando a circulação de um guarda-roupa fora de produção. Mas o que Rosa Pomar fez foi olhar para o património de malhas portuguesas (e outras tradições) e contá-lo em livro (Malhas Portuguesas, publicado em 2013), num blogue (A Ervilha Cor de Rosa, desde 2001) e na Retrosaria, uma loja de tricot e tecidos, crochet e costura especializada em marcas e produtos de alta qualidade e fibras naturais. Rosa pôs aldeãs a fazer lã para ela e tem parcerias com fábricas de lanifícios e pastores. É formada em História, “portanto, esta coisa de olhar para trás ou é defeito de formação ou...” é qualidade, arriscaríamos. Mas precisamente por esta circunstância o seu trabalho divide-se entre a atividade comercial e a investigação no terreno (na parede da Retrosaria há um mapa pontuado de ovelhas que conta a história de fios do país), com o objetivo de fazer o saber ancestral persistir.
“As coisas de há 50 anos foram feitas para durar no tempo, enquanto agora são feitas propositadamente para ter uma vida muito curta. Acho interessante estarmos a assistir a duas correntes que conseguemconviver: a do fazer barato, ‘usa e deita fora’, e, ao mesmo tempo, um núcleo que se torna cada vez mais importante em termos económicos, de sustentabilidade, que é o da roupa de algodão bio, cultivado pela dona xis”, analisa a blogger.
Rosa Pomar é da “geração em que as miúdas aprendiam a fazer qualquer coisa com as mãos”, portanto não surpreende que um dia tenha começado a fazer bonecos de pano por entretenimento. Os amigos sugeriram que os vendesse. Em 2003, nasceu a filha, Elvira. Rosa começou a fazer peças para ela ao mesmo tempo que o blogue ganhava visibilidade. Em 2008, criou a versão online da Retrosaria e um ano mais tarde deu-lhe portas e móveis de mercearia.
Foi uma janela de negócio, confessa, até porque antes “não havia lojas em Lisboa onde pudesse comprar fio para fazer malhas de boa qualidade”. Desde que apareceu a Retrosaria, “foi aparecendo um monte de lojas”, relata, não porque se considere vanguardista mas porque teve “a sorte de ir à frente da onda e de apanhar a coisa”. Em mercados como o inglês ou o espanhol o mundo dos lanifícios é uma parte importante da economia, com a geração de pequenos negócios, eventos especializados e iniciativas de cariz turístico (Rosa conta que o projeto Talleres Nómadas, que tem organizado expedições culturais a Marrocos com enfoque no artesanato local, está a preparar uma viagem com o mesmo intuito a Portugal).
“Os clientes destes fios valorizam todo o processo” e não a aparência ou a suavidade de uma lã, explica a investigadora, até porque nenhum destes materiais artesanais é tão macio quanto os de produção industrial. Depois, “a textura, o toque, as cores remetem para outros tempos, e as pessoas fazem associações”. Tudo na Mercearia, uma ex-fábrica de manequins, é à antiga: desde os móveis, passando pelas etiquetas, até à forma de atendimento. Por isso, o vintage, aqui, prende-se com a filosofia e a noção de reaproveitamento. “Os meus móveis são gavetas apanhadas na rua, o que hoje é uma coisa banalíssima, mas na altura nunca se tinha visto. Neste momento sinto-me mais enquadrada, porque já há montes de lojas com este tipo de decoração”, reflete. Quer dizer que são lojas vintage? “Bom, aquela coisa de ter um quadro da escola com as letras escritas a giz [encolhe os ombros]… eh pá, não dá…”, solta Rosa, lembrando que grandes cadeias como a Ikea “andam sempre atrás destas modas. São réplicas em que temos um vintage que já não é vintage, em que se aproveitaram apenas da estética. E isso é outra coisa muito interessante: como é que ideias de nicho, fundamentadas por um idealismo, chegam à população em geral, perdendo o contexto e sendo só estética, na procura das vendas?” Trata-se de “capitalizar uma ideia sem aquilo que a tornou de facto interessante”, critica a lojista.
Para Rosa Pomar, as grandes marcas interessam-se por alguns conceitos lançados por pequenos negócios porque, “originalmente, eles são de facto uma boa ideia”. “No seu core, são ideias anticonsumistas, mas depois passam para outro plano.” Mas nem tudo é indesejável neste processo, considera a responsável. “Estas coisas [de retomar a tradição] são in na cidade, mas nas aldeias ninguém quer saber disso, porque ainda está associado a um estigma de necessidade, de pobreza. Por isso, por um lado, quem me dera que o mainstream se aproprie disto o suficiente para que a neta da senhora da aldeia queira começar a tecer. Quem me dera a mim que aparecessem montes de senhoras a fazer malhas nas telenovelas

 Enquanto em Inglaterra ou Espanha os lanifícios integram uma parte importante da economia, em Portugal encontrar fios de qualidade é uma tarefa árdua, analisa Rosa Pomar

Enquanto em Inglaterra ou Espanha os lanifícios integram uma parte importante da economia, em Portugal encontrar fios de qualidade é uma tarefa árdua, analisa Rosa Pomar

Nuno Botelho

Números da nostalgia

5
milhões de Instax (as câmaras de fotografia instantânea da Fujifilm que começaram a ser produzidas em 1998) foram vendidas em 2015. Nos anos 70, chegaram a ser comercializadas 13 milhões das suas precursoras, as Polaroid
400
dólares é o preço estimado da nova câmara de filmar Super 8, da Kodak, após a bancarrota da empresa, em 2012. A original Super 8 foi lançada em 1965
1,1
mil milhões de dólares é o balanço anual de vendas de bens catalogados como vintage ou retro através da plataforma eBay. Em 2014 foram comercializados mais de 26 milhões de itens vintage, retratando a estabilidade de vendas online deste segmento
36
mil visualizações de um vídeo com atmosfera retro publicado por Thomas Worth Swears no YouTube incentivaram-no a criar a app VHS Camcorder, através da qual filmagens por telemóvel ganham um “ar de anos 80”. Em 10 dias, a aplicação alcançou o segundo lugar da lista de aplicações pagas da Apple

Este artigo é parte integrante da edição de julho de 2016 da Revista EXAME