Siga-nos

Perfil

Exame

Exame

“Objetivos? Ser líder mundial!”

  • 333

José Duarte reconhece que o sol, a luz e o clima de Lisboa deixam saudades a quem vive na Holanda. Pertence ao restrito número de executivos portugueses “internacionalizados” das tecnologias de informação, cujos desafios profissionais surgiram de várias zonas do globo

Luís Barra

José Duarte deixou o gigante alemão SAP - “rei” do software de sistemas integrados de gestão empresarial - e rumou à Holanda, onde hoje dirige a Unit4. O seu objetivo é ambicioso: tornar a empresa no n.º 1 planetário

Numa sala de reuniões para empresas, localizada no último piso de um hotel em Lisboa, tendo como pano de fundo o panorama do Aqueduto das Águas Livres e a mancha verde de Monsanto, José Duarte, veterano das tecnologias de informação (TI), reconhece que o sol, a luz e o clima de Lisboa deixam saudades a quem vive na Holanda. Pertencente ao restrito número de executivos portugueses “internacionalizados” das TI, os desafios profissionais surgiram-lhe de várias zonas do globo e por isso acabou por sair do país depois de ter cessado funções no gigante alemão SAP, que lidera o software ERP – Enterprise Resource Planning (sistemas integrados de gestão empresarial).
Hoje, a casa onde vive com a sua família - “home, sweet home” - fica a umas quantas horas de voo de Lisboa. Embora não desfrute da “saudosa” claridade refletida pelo Tejo, ao fim de poucos dias fora confessa que anseia por apanhar o avião de regresso à Holanda, para voltar a jantar em família. Esse sentimento é recorrente, porque o gestor faz “muitas horas de avião por mês” devido às frequentes deslocações de trabalho a várias cidades da Europa e dos EUA.
José Duarte completou 48 anos a 8 de fevereiro e “fervilha em projetos”. Já fez um pouco de tudo. Subiu a pulso até chegar ao topo do topo. E, para não estagnar, recomeçou tudo de novo, aceitando o atual desafio de criar um novo gigante. Mas a principal lição da sua vida aprendeu-a cedo, quando começou a trabalhar na Fima, onde foi subchefe da contabilidade histórica. Desde essa altura, sabe que não foi feito para rotinas, detesta projetos aborrecidos e precisa de desafios.
É por isso que hoje dirige a Unit4, um grupo que já está presente em 26 países, tem receitas anuais de 500 milhões de euros e emprega quatro mil trabalhadores. E que faz a Unit4? Produz, por exemplo, software para que os trabalhadores não deixem escapar o reembolso de despesas. “É um problema de dimensões colossais, pois, pelas nossas contas, só nos nove países que identificámos estão em causa cerca de 14 mil milhões de euros que os trabalhadores podem perder se não forem reembolsados”, explica.

Vamos autocorrigir a gestão
“Este tipo de soluções – úteis para as pessoas – são o caminho que deve ser seguido pelas empresas do nosso sector, e é por isso que agora estamos a lançar uma nova ferramenta informática – o Self Driving Entreprise Software – que é verdadeiramente inovadora, porque com ela propomos autocorrigir a gestão”, refere José Duarte.
O presidente executivo da Unit4 sabe perfeitamente o que quer e, sobretudo, diz que sabe o que deve fazer uma empresa do seu sector. “O software em ‘autopiloto’ é o passo seguinte para todas as áreas, de forma transversal, ou seja, é aplicável desde o sector hospitalar até à indústria pesada ou à petroquímica; todas irão precisar de ter gestão autoalimentada”, diz. E garante: “Não tenho dúvidas nenhumas de que isto é o futuro.”
Porquê? “A revolução digital, o que aconteceu nos últimos cinco a sete anos, o fenómeno da cloud e o fenómeno móvel colocaram a capacidade de computação nas mãos de toda a gente. Aquilo que era uma interação social do mundo, baseada exclusivamente no relacionamento das pessoas, teve uma primeira evolução chamada e-mail, mas depois evoluiu muito rapidamente. Hoje já não sei qual foi a última contagem do Facebook, que terá mais de um bilião de subscritores, ou do LinkedIn, que deve ter mais de 500 milhões de pessoas lá dentro. Sabemos que a interação social sofreu uma mutação enorme”, refere, frisando que “tudo isto são megatrends que acontecem à nossa volta. Vimos para o trabalho de comboio, agarrados ao telemóvel ou ao tablet, a vermos as notícias. Ligamo-nos aos nossos amigos através do Facebook. Resolvemos os problemas com o banco através do smartphone. Em suma, somos cidadãos digitais”. Porém, há o outro lado, o das empresas que ficou de fora desta revolução. “Quando entramos na nossa empresa, entramos num exílio digital. Tudo o que foi tecnologia criada nos últimos cinco anos ficou à porta das empresas, não premiou o dia a dia do profissional da empresa, porque todo o parque de software de gestão que hoje serve os negócios foi criado antes do fenómeno móvel social na Internet, antes da cloud, e, portanto, não temos outra hipótese senão entrarmos no digital downgrade, ou seja, temos de andar uns anos para trás quando trabalhamos. Alguns dirão que as aplicações e o software podem entrar no móvel. É verdade. Há 15 anos eu já fazia demos de SAP com um Nokia 2110, num ecrã de dois centímetros. Era o mesmo software SAP e era ridículo porque era absolutamente inútil, mas eu achava aquilo o máximo, supersexy. Hoje usamos um iPhone 6 Plus, mas o software que corre lá dentro continua a seguir os mesmos processos.”
José Duarte diz que a Unit4 deu o passo seguinte e funciona de forma diferente, exclusivamente para beneficiar o trabalho das pessoas. “Foi por isso que no ano passado mudámos o tag line da empresa – que era ‘embracing change’ –, porque o software era flexível. Agora passou para ‘in business for people’, que é aquilo que nós fazemos. Fazemos aplicações de gestão de negócios para pessoas. Não é para utilizadores, é para pessoas. O software, hoje em dia, pode ser inteligente ao ponto de eliminar todas as tarefas repetitivas, sem qualquer valor agregado. Nós só fazemos software para indústrias que são people centric, não fazemos software para uma fábrica de produtos de consumo nem para uma empresa de construção automóvel, que são product centric. Não há paradigma mais nobre que fazer software que trabalhe para as pessoas, em vez de ter as pessoas a trabalharem para o software.”
O melhor exemplo disto, segundo José Duarte, é dado pelo trabalho de “um consultor, que faz duas coisas: reporta despesas e tempo (horas de trabalho para um cliente). Ninguém gosta de fazer isto. Fui consultor na Andersen Consulting há mais de 20 anos e sei que é horrível. Ora, toda a gente tem um telemóvel com uma câmara, com geoposicionamento e um calendário. Podemos fazer com que todo o processo de reporte de despesas e gestão de tempo possa ser feito no momento, de forma automática, sem qualquer interação manual. Isto é simples, mas custa milhares de horas a empresas de serviços em todo o mundo”, indica, e dá um exemplo: “Um dos nossos clientes em Inglaterra, que tem 20 mil engenheiros, disse-me: ‘mostrem-me isso a funcionar, porque vão ter o maior amigo deste mundo’. É ótimo resolvermos o pavor desta empresa: 20 mil engenheiros vezes 52 semanas de despesas de viagens para reportar, mais 20 mil vezes 52 semanas de folhas de calculo, multiplicadas por vários dias com diferentes horas de trabalho por cada engenheiro – tudo isso é um pesadelo! Não tenho dúvida de que vamos mudar o tempo disponível dos engenheiros e das estruturas das empresas. Com o uso deste software as pessoas vão ter mais qualidade de vida.”

“Só quero ser o n.º 1”
Sobre as ambições que José Duarte tem para a Unit4, garante que “não são inconfessáveis. Só quero ser o n.º 1 no mundo do software de Services Resources Planning. Enquanto a categoria de software ERP é liderada, a nível mundial, pela SAP e pela Oracle, a Unit4 é um dos top 10 mundiais, pois estamos classificados como ERP”, afirma. “O ERP é um mundo criado em torno de indústrias que são product centric. Nasceu nos anos 60, como MRP - Material Resources Planning, e depois evoluiu para ERP. Mas esta é uma classificação errónea, porque o mundo dos serviços e o mundo dos produtos são dois mundos diferentes. O mundo dos serviços tem uma agilidade e uma volatilidade elevada, um conjunto de atributos que não existem no mundo product centric. Não é melhor nem pior. É diferente. A Unit4 decidiu dedicar-se às empresas de serviços pelo mundo fora, seja da educação, seja do governo, seja em empresas de serviços profissionais. E, como somos um dos poucos que fazemos isto, queremos apenas ser os melhores e os maiores.”

A mesma emoção 25 anos depois
Ex-fundador da SAP em Portugal – que lançou em 1991 –, José Duarte faz um paralelo com o momento que “vivi há 25 anos. A SAP tinha lançado um produto que revolucionou o mercado e eu tive a sorte de estar no sítio certo à hora certa”. Recordando o seu percurso, diz que fez “praticamente tudo o que havia para fazer na empresa”. Foi consultor, vendedor, gestor comercial, diretor-geral, diretor regional, dando “os saltos todos até chegar lá acima de tudo, onde fui um dos quatro presidentes”. Na fase em que saiu, “a SAP era muito maior do que quando entrei nela, mais musculada, mais política e menos ágil”. Garante que viu “uma revolução digital de dimensões sem precedentes, que criou uma avalancha de oportunidades que eu achava que a SAP devia abraçar”. E por isso não concordou “com a maneira como a empresa olhava para essas oportunidades”. Assim, “quando um dos generais não está de acordo com a estratégia geral, ou muda de opinião ou segue o seu caminho”, recorda.
Hoje, continua fiel às suas convicções: defende que a empresa tem de estar voltada para o cliente e deve pensar nas oportunidades que o mercado lhe brinda. Sentia que a SAP vivia muito orgulhosa do seu passado e pouco orientada para o seu futuro. “O passado é fantástico para tirar fotografias e colocá-las numa moldura. Nós temos é de olhar para o dia de amanhã. O papel do gestor é construir a realidade de amanhã. Foi por isso que saí. Cortei 20 anos de grande felicidade. Saí para a liberdade. Cortei as correntes.”
Na altura, José Duarte tinha 44 anos - demasiado novo para se reformar. Passou meses em reuniões em Londres, Paris, São Francisco, Nova Iorque e Amesterdão. “Num ano, tive mais de 100 reuniões. Felizmente, numa delas fui convidado para ser CEO da Unit4, que tem uma escala razoável – somos a terceira empresa europeia na área de ERP. O meu antecessor convidou-me – ele foi o fundador da Unit4. Entrei em junho e em setembro apresentei ao board a nova estratégia para a empresa. Estávamos cotados na Bolsa de Amesterdão e deixámos o mercado de capitais. Fomos abordados por empresas de private equity. O negócio foi alterado, a Unit4 foi tirada do public spotlight e foi transformada, sem estarmos sob a tirania do mercado bolsista, que nos julga em termos de cashflows e EBITDA a cada 90 dias. Foi ótimo fazer uma transformação tendo como parceiros private equities de longo prazo, que estão connosco durante uns quantos anos e entendem a estratégia profundamente, com quem discutimos a operação diariamente. O maior acionista e praticamente único é a Advent Internacional, que é uma das maiores private equities do mundo. Comprou-nos por 1,4 mil milhões de euros em 2013 e tem mais de 90% da Unit4. O resultado foi excelente, porque em 2015 acabámos de fechar o melhor ano da nossa história.”

José Duarte diz que Portugal é paupérrimo ao nível das empresas de software – que serão cada vez mais necessárias em tudo o que fazemos. Por isso afirma que precisamos de formar mais engenheiros. “A solução é quintuplicar o número de engenheiros que formamos.”

José Duarte diz que Portugal é paupérrimo ao nível das empresas de software – que serão cada vez mais necessárias em tudo o que fazemos. Por isso afirma que precisamos de formar mais engenheiros. “A solução é quintuplicar o número de engenheiros que formamos.”

Luís Barra


Vem aí o cloud crash?
Resta saber se a bonança neste mercado consegue manter-se nos próximos anos. O milionário especulador e filantropo George Soros diz que estamos à beira de um novo 2008. José Duarte diz que, se essa visão se confirmar, será “transversal a toda a sociedade. Mas espero que isso não aconteça. Fala-se outra vez num novo dotcom crash – desta vez seria mais um cloud crash –, porque as valorizações das empresas que estão nesta área são exorbitantes se pensarmos nos múltiplos de receita e múltiplos de receita futura”, comenta.
Esta análise de José Duarte tem uma abrangência geográfica maior que a que foi feita para a crise de 2008, porque “inclui o mercado chinês. Inclui toda a gente. Se rebentar, o mercado pára. Deixa de haver fontes de financiamento para empresas cotadas, portanto pode ser grave”. No entanto, prefere ser otimista e afirma que “não acredita muito nisso”, porque, diz, “o mundo adaptou-se a viver em crise, depois de 2008, de uma maneira completamente diferente da que vivia antes. Foram construídas barreiras, proteções, reservas, que nos permitem estar muito mais atentos e preparados para reagir a estas adversidades. Temos vários problemas latentes. Grécia, Irlanda, Portugal, temos guerra na Europa, problemas preocupantes com a Rússia - foi ‘abatido’ um avião russo e não vemos o ‘Carmo e a Trindade’ a cair”. José Duarte diz que “criámos uma carapaça de resiliência perante a adversidade. Vemos a crise dos migrantes, que pode ter consequências gravíssimas na sustentabilidade do Estado social da Europa. Temos um problema de crise política, porque a Europa não está a saber lidar com os tempos de mudança e Bruxelas tem uma incapacidade brutal de ser ágil e de se adaptar às realidades que vivemos. Desejo muito que isso não aconteça, mas, como não tenho uma bola de cristal, é conveniente ser prudente e criar reservas para a eventualidade do pior vir a acontecer”.

Gerir com portugueses
Para a Unit4 José Duarte levou parte das primeiras linhas, constituídas por quadros portugueses - engenheiros e especialistas – que se adaptam facilmente a vários meios e diferentes realidades. “Não contrato ninguém pelo passaporte que as pessoas têm, nem pela religião. Gosto de trabalhar com os melhores do mercado. A vida assim é mais fácil do que para quem mantém ‘amiguismos’. Tive a felicidade de ter trabalhado pelo mundo fora e criei uma rede para a qual enviei alguns convites a anteriores colegas portugueses para se juntaram a mim. Hoje, um dos membros do board é português e o vice-presidente das operações é português. Abrimos em Portugal um centro de global delivery que trabalha 100% para o estrangeiro e que também é liderado por um português. Apesar de falar 95% do meu tempo em inglês na empresa, sei que ajuda imenso o facto de haver pessoas com as quais basta meia palavra em português para nos entendermos à nossa volta. É um fator que nos permite ser ágeis e avançar rapidamente no que fazemos. A intimidade da língua e do passado comum é importante”, considera o gestor.
“A única desvantagem dos portugueses é não terem autoconfiança, porque temos uma adaptabilidade ímpar perante os bons e os maus tempos. Temos uma capacidade camaleónica de nos darmos bem em ambientes de crescimento ou de contenção, de acomodarmos múltiplas realidades, e isso não é uma características comum a todos os povos. Já os espanhóis têm muito mais autoconfiança. Por coincidência, acabei por ir trabalhar para a Holanda, que tem um povo muito parecido ao português”, refere. “Para mim foi fácil adaptar-me a viver na Holanda.”
No board da Unit4 há dois portugueses, num total de nove executivos. Além de José Duarte, está lá Gonçalo Leitão, que tem 30% do headcount do pessoal na Unit4. É o segundo executivo mais cotado dentro do grupo. Tem toda a pós-venda, que “é o garante da satisfação dos clientes e a perenidade da relação com os clientes”, comenta José Duarte. Em suma: há um “peso grande de concidadãos” na realidade da Unit4.
Em Portugal, o centro de global delivery funciona 100% para o estrangeiro. José Duarte admite que “é possível ter mais operações em Portugal que funcionem para todo o mundo. Portugal tem méritos próprios para que este centro esteja no mercado nacional, desde logo o talento, a capacidade de trabalho”, bem como “uma vantagem de custos/hora, que é bastante mais competitiva do que a do Centro e do Norte da Europa, onde há custos exorbitantes”.
O trabalho no centro de global delivery da Unit4 é “altamente qualificado. São consultores que lidam com empresas e entidades públicas sofisticadas que operam em países muito variados, e que têm de fazer o trabalho de consultoria sem nunca ver o cliente. Têm de ter a capacidade interpessoal de se relacionarem através de uma videoconferência ou de uma teleconferência e de ganharem a confiança do cliente. É importante termos especialistas que dominem bem o inglês e uma segunda língua perfeita, como o francês, o alemão ou o sueco. Todos dominam bem vários idiomas. Essa foi uma das razões que levaram a instalar este centro em Portugal. Também não foi o primeiro centro que criei em Portugal. Quando estive na SAP, fiz um centro exatamente semelhante”.

Desvantagens competitivas
“Fui convidado pela Presidência da República para fazer parte do grupo da Diáspora - uma iniciativa que visa promover Portugal no estrangeiro e pretende captar investimento direto estrangeiro. As nossas conversas no Conselho da Diáspora começaram por debater o que falta a Portugal para ser melhor promovido no estrangeiro. Para se afirmar mais a nível internacional. E há inevitabilidades da nossa realidade que nos colocam em desvantagem competitiva”, considera.
“Há quem discorde do que penso, mas é como vejo este problema: a nossa posição geográfica é uma desvantagem competitiva em tudo o que é a logística associada à produção industrial. O custo da logística em tudo o que se relaciona com a produção de uma peça em Portugal para ser enviada para a Alemanha é diferente de produzir a mesma peça na Polónia para ser enviada para a Alemanha. Não é nada que não seja ultrapassável, mas tem custos diferentes e prazos de execução também diferentes. E isso não é uma vantagem.”
Também “o facto de termos uma hora de diferença em relação ao Centro da Europa é algo que não entendo, porque seria muito mais eficiente termos todos a mesma hora na Europa. Era mais inteligente termos a mesma hora de Espanha, de França ou da Alemanha. Durante alguns anos tivemos a mesma hora e depois voltámos atrás. Isso é outra desvantagem para muitos serviços”.

José Duarte líder da Unit4

José Duarte líder da Unit4

Luís Barra

Ricos em massa cinzenta
Onde Portugal não tem desvantagens, segundo José Duarte, “é na exportação da propriedade intelectual. Aí não há distâncias, nem há horas diferentes. É imaterial, é como o ar, e só precisa de pessoas. Em Portugal, temos 10 milhões de pessoas que só precisam de ter a formação certa para produzirem imensas coisas que requeiram cérebros”.
Quanto ao efeito dos jovens portugueses que saem do país, “diz-se frequentemente que os jovens se fixam, casam, constituem família, o que é diferente de quem sai com mais de 30 anos. Veremos. Tenho 47 anos, saí há 20 anos e continuo a vir cá. Não deixo de ser português e de cá voltar e de criar cá emprego”, comenta.
Em sentido contrário, para captarem talentos para Portugal, sucessivos governos têm promovido a ideia do Sillicon Valley da Europa, porque Portugal tem boas infraestruturas, tem boas escolas superiores e tem um clima privilegiado. Mas isso contribuirá para criar um Sillicon Valley em Portugal? E se há projetos que são desenvolvidos na Finlândia, no meio de um inverno polar, porque é que não vêm antes para Portugal?

Comparação “alucinante”
José Duarte é muito crítico em relação a esta ambição portuguesa. “É difícil vir do zero e compararmo-nos logo com Sillicon Valley – porque só há um. Nem nos EUA há um segundo. Boston não lhe é comparável. É bom termos ambições, mas acho que querermos compararmo-nos com Sillicon Valley é uma alucinação. Não vejo que nem em duas gerações lá possamos chegar. A Unit4 tem uma subsidiária enorme em São Francisco, já com 700 pessoas. Vou frequentemente a São Francisco e nunca vi em lado nenhum uma atividade tecnológica semelhante. Sillicon Valley é único!”
Então porque é que não temos mais empresas tecnológicas em Portugal? “Temos uma realidade paupérrima ao nível das empresas de software – que serão cada vez mais necessárias em tudo o que fazemos. São os engenheiros que fazem o software. Precisamos de formar mais engenheiros. A solução é quintuplicar o número de engenheiros que formamos. Não precisamos de formar mais advogados, nem psicólogos, nem historiadores, nem gestores. Estamos a formar uma geração para o desemprego! Precisamos é de formar engenheiros, que são quem vai produzir o mundo de amanhã, e digo isto sem ser engenheiro. Se resolvermos este problema, criamos uma plataforma de conhecimento que irá seguramente resultar na criação de uma base, que promoverá outra base, e assim poderemos crescer no Algarve, nas Beiras ou no Alentejo. É engraçado porque quando estou na Califórnia dizem-me sempre que temos um clima e uma costa parecidos com a Califórnia. Por aí nem será difícil trazer para Portugal os gurus da tecnologia, porque irão sentir-se em casa pelo clima e a fisionomia da costa, além de que iriam conviver com gente mais simpática e iriam comer melhor. Isso seria tudo positivo.”

Luís Barra

PORTUGAL “VAI RETROCEDER”

“É lamentável tudo o que aconteceu à PT”

“A PT era um motor que trazia Portugal para o mapa das tecnologias de informação (TI)”, comenta José Duarte, admitindo que “já nem há hipótese de recuperar o que se perdeu na PT, nem Portugal conseguirá manter-se na linha da frente das TI sem o papel que foi desempenhado no passado pela PT”. Para José Duarte, “é lamentável tudo o que aconteceu”. Considera que a PT “desempenhou um papel importante a captar investimento tecnológico para Portugal e foi um dos grandes clientes da SAP na altura em que eu era o diretor-geral da empresa alemã. Graças a isso consegui pôr a SAP Portugal no mapa do Grupo SAP, juntamente com o peso de outros clientes âncora, como a EDP, a Jerónimo Martins ou a Sonae”. Eram clientes que lhe permitiam “ir à Alemanha ombrear com países muito maiores. Vindo de um país pequeno, eu tinha voz lá fora”, diz. “Não acredito que hoje algum diretor-geral em Portugal na área das TI possa alavancar a sua presença face às suas corporações com base no negócio que faz com a PT, porque a PT não está muito voltada para grandes investimentos neste momento. Essa é uma vertente nas TI que eu penso que desapareceu. Infelizmente, isso terá um efeito dominó no desenvolvimento de Portugal, em termos digitais, daqui a cinco ou seis anos. Portugal não vai estar na linha da frente. Não gosto de comentar os feitos ou desfeitos de outros CEO, mas aquilo que aconteceu na PT é lamentável, não consigo entender”, sublinha, admitindo que “ainda não vimos o fim da história”. José Duarte considera “lamentáveis os problemas vividos na PT pela promiscuidade entre executivos e acionistas, que não pode existir numa empresa cotada em Bolsa. Há responsabilidade fiduciária e, para o olhar do leigo, dá-me ideia de que a linha foi ultrapassada”, adianta. “A PT cruzou claramente a linha de uma maneira espampanante e desnecessária. É uma pena. Mas se uns caem, outros subirão”, comenta o gestor.

FALTA PROMOÇÃO EFICAZ

Web Summit requalifica Portugal

O grande evento Web Summit, que Portugal vai receber, “terá certamente um antes e um depois”, considera o presidente executivo da Unit4, José Duarte. “O facto de termos ganho este evento à Irlanda irá requalificar Portugal e ajudará ao desenvolvimento tecnológico do país”, diz, mas adverte de que “uma andorinha não faz a primavera, embora esta seja uma andorinha muito grande. Até diria que é um gavião!” Para o presidente da Unit4, “este é um tipo de promoção de que Portugal precisa”, sobretudo porque “nos falta promoção eficaz. Sou um grande crítico relativamente à política de promoção que temos concretizado, porque as nossas embaixadas fazem um trabalho miserável – tem de haver uma abordagem diferente a ligar a comunidade empresarial estrangeira com o nosso país, alavancando o elemento da Diáspora. Vivo há 10 anos gerindo milhares de pessoas lá fora e nunca tive um contacto até hoje – zero! Faço o que faço pelo nosso país só por gosto e por patriotismo. E não sou o único. É uma aberração aquilo que não se faz”, denuncia. A propósito, recorda um jantar de CEO em Londres em que ele era o único que não era inglês e onde explicou o que poderiam fazer em Portugal. “Todos tinham projetos na Índia, em centros de desenvolvimento onde o custo do recurso por hora era pouco inferior ao de Portugal, com a ineficiência de terem seis ou sete fusos horários diferentes da Europa, de terem de voar seis ou sete horas e de precisarem de um período seguinte de adaptação ao jet lag, além de terem uma canibalização permanente de talento. Todos desconheciam os ganhos alternativos que poderiam ter em Portugal. Além do clima e dos campos de golfe, ninguém tinha pensado nisso. É por isso que os eventos como o Web Summit ajudam a colocar-nos no mapa. Todos, como eu, que estamos lá fora temos de vender mais a arte do possível no nosso país”, afirma.

Este artigo é parte integrante da edição de março de 2016 da Revista EXAME