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Portugal na rota do turismo militar

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Forte da Graça, de ermida 
a forte e prisão

Lisboa e Porto são destinos da moda e atraem cada vez mais visitantes. Contudo, avisam os especialistas, se Portugal não oferecer novos e alternativos conteúdos turísticos, corre o risco de perder este estado de graça. O turismo militar pode ser um filão a explorar

Fátima Ferrão

Sabia que a palete, tal como hoje a conhecemos, foi uma invenção de militares portugueses durante a 1.ª Guerra Mundial, fruto de uma necessidade de adaptação ao terreno de combate? Agachados nas trincheiras cheias de lama, num cenário muito diferente do pó a que estavam habituados em Portugal, os soldados juntaram e cruzaram tábuas, evitando ficar molhados. E, já agora, tem conhecimento de que o astrolábio continua a ser o instrumento de navegação não eletrónico mais fiável? De origem nacional, já viajou até ao espaço com os americanos da NASA, que o levaram em caso de falha dos instrumentos mais tecnológicos. Surpreendido?
São curiosidades como estas, histórias engraçadas contadas por personagens de cada época e espaços fora do comum, onde poderá desfrutar de experiências menos tradicionais, que farão parte das rotas de turismo militar, em fase de desenvolvimento um pouco por todo o país. Nas cidades, por exemplo, alguns dos quartéis do século XX, desativados e deixados ao abandono, serão transformados em centros culturais ou hostéis, ou apenas abertos ao público para visitas lúdicas e pedagógicas, nas quais o objetivo será dar a conhecer a História e o nosso passado enquanto povo, ao mesmo tempo que se preserva o património nacional. “O potencial é enorme e o storytelling o segredo para criar interesse num público vasto e diversificado”, acredita Álvaro Covões, presidente da Associação de Turismo Militar.

Esta associação, criada em setembro do ano passado, tem por objetivo criar as infraestruturas, rotas e conteúdos diferenciados que darão suporte a uma estratégia de desenvolvimento do turismo militar em Portugal. As primeiras rotas, no Alentejo e Centro, já estão prontas e os locais da História preparados para receber os turistas. Durante este ano serão criadas novas rotas (num total de sete), “que queremos complementar com um selo de turismo militar, ao estilo Tripadvisor, para que nas rotas sejam reconhecidos os pontos de referência que são importantes”, explica aquele responsável. “Iremos avaliar, em conjunto com as entidades locais, os melhores hotéis, os melhores restaurantes, os locais que complementam o turismo”, acrescenta.
Para já, está disponível uma aplicação para iPhone e Android através da qual os interessados podem conhecer os percursos disponíveis, os locais a visitar, e obter toda a informação sobre os mesmos.

Turistas dos 8 aos 80

Álvaro Covões, presidente da Associação de Turismo Militar

Álvaro Covões, presidente da Associação de Turismo Militar

Luis Coelho

Mas se pensa que os visitantes destes espaços serão apenas militares ou interessados em História desengane-se. O objetivo da associação é chamar a atenção de um público muito mais heterogéneo, dos 8 aos 80 anos. “O fascínio criado pelo storytelling atrai todo o tipo de pessoas. É o imaginário em funcionamento”, diz Álvaro Covões. “Temos vários castelos abertos e são muito visitados, apesar de pagos. O que significa que há interesse por parte dos visitantes. Se os conteúdos forem bons, melhor ainda.” A associação pretende fazer chegar a sua mensagem quer a visitantes nacionais, quer internacionais. “A maior parte do mundo desconhece que Portugal foi o pai da globalização com os Descobrimentos. Temos um trabalho imenso a fazer”, salienta o presidente. E é por isso que, avança, “os heróis são importantes para contar a história. Quando contamos pequenas histórias, deixamos espantados os estrangeiros, que desta forma nos reconhecem valor”. A entrada dos ingleses no Império do Oriente, lembra, foi feita pelas mãos de Portugal. “Catarina de Bragança casou com um rei inglês, levou como dote Bombaim e foi para a Índia.”


E no decurso da História não faltam exemplos da importância do país. “A História de Portugal confunde-se com a história militar, desde Viriato, as Invasões Romanas, os Descobrimentos, as Invasões Francesas. Temos um potencial enorme para explorar”, garante Álvaro Covões. Um projeto abrangente, que passa ainda pela preservação do património histórico e militar português e pela promoção e a realização de eventos no âmbito do turismo militar. “Os militares, em todos os ramos, estão com muita vontade de mostrar a sua história, o que foram e o que são, porque ao falar da história militar estamos a falar do seu património, mas também a mostrar a sua importância”, explica Álvaro Covões.


Pedro Machado, presidente da Entidade Regional Turismo do Centro e um acérrimo defensor do turismo militar, acrescenta: “À semelhança do que tem acontecido um pouco por todo o mundo, este segmento assume-se, cada vez mais, como um valioso produto turístico, porque permite a ‘requalificação’, a ‘preservação’ e a ‘valorização’ da História e do património.” Além desta questão, mais identitária e cultural, “é um produto turístico que pode estar disponível ao longo de todo o ano – desde que devidamente estruturado –, e que permitirá combater fenómenos como a sazonalidade turística ou o baixo índice de estada média no território nacional (estimada, atualmente, em 2,2 noites)”.


Opinião partilhada por Bernardo Trindade, CEO do grupo hoteleiro Porto Bay e secretário de Estado do Turismo entre 2009 e 2011, que acrescenta: “Pode constituir também uma forma de dar a conhecer territórios menos óbvios do ponto de vista turístico – hoje ainda muito concentrado nos grandes centros –, além da natural geração de riqueza e criação de emprego nestes novos territórios a explorar.” Durante a sua passagem pelo governo, o tema ganhou importância de agenda, tendo sido promovidas “algumas iniciativas exploratórias, que procuravam dar a conhecer as potencialidades deste segmento, nomeadamente com o levantamento das infraestruturas e o seu potencial económico”, salienta o ex-governante.

Imagem de marca na cultura

A organização Turismo do Centro de Portugal tem uma estratégia bem definida no âmbito do turismo militar, tendo apresentado diversas candidaturas ao Programa Operacional Centro 2020. O projeto visa aproveitar as três frentes dos equipamentos militares ou paramilitares associados às guerras históricas, às invasões, aos centros de interpretação – entre outros, o Centro de Interpretação de Aljubarrota -, pretendendo criar um novo produto turístico. “Esta é mais uma forma de se fazer uma complementaridade interessante em relação ao turismo do património cultural e histórico, mas também ao turismo científico, dado ser possível com este projeto criar condições para a realização de conferências e palestras internacionais”, reforça Pedro Machado.


Pedro Machado, presidente do Turismo do Centro de Portugal

Pedro Machado, presidente do Turismo do Centro de Portugal

Rui Duarte Silva

Um dos objetivos é a estruturação e criação de um pacote turístico militar referente aos espaços museológicos associados aos quartéis militares em funcionamento - o caso de Tancos e de Santa Maria -, “estando a Secretaria de Estado da Defesa disponível para o autorizar”, garante o presidente.


O projeto Turismo Militar, da Turismo do Centro, insere-se noutra iniciativa, mais abrangente e ambiciosa - Lugares Património Mundial do Centro -, a candidatar pela Entidade Regional Turismo ao Programa Operacional Centro 2020, e que contempla, como explica Pedro Machado, toda a operação desenhada no âmbito do vetor/produto turístico “cultura, História e património”. Tem como base os elementos patrimoniais da Região Centro que integram a lista de Património da Humanidade da UNESCO: o Convento de Cristo, em Tomar, o Mosteiro de Alcobaça, o Mosteiro da Batalha e a Universidade de Coimbra, podendo ser integrado noutros recursos patrimoniais de relevância internacional, tais como os vestígios da romanização (Conímbriga e Centum Cellas), património associado às ordens religiosas e monumentos de caráter militar.


Com um horizonte temporal de 2016--2018, constitui-se como “um projeto de turismo cultural inovador, agregador e atrativo, que utiliza como instrumentos fundamentais a apropriação, a programação cultural, a mediação e a comunicação ao serviço da qualificação da experiência turística e da competitividade da economia regional”, reforça o presidente da Entidade de Turismo. A juntar a tudo isto, Pedro Machado lembra ainda o enorme potencial de um projeto desta natureza na educação e sensibilização dos portugueses relativamente à História do seu país, bem como a capacidade de internacionalização que tem, nomeadamente, junto dos mercados espanhol, francês e inglês.


O presidente do Turismo do Centro mede ainda o potencial nacional neste segmento comparando-o com exemplos internacionais. “Em França, o Musée de L´Armée apresenta uma programação rica e diversa e recebe anualmente dois milhões de visitantes (de um total de sete milhões em todo os país). O mesmo acontece com o Imperial War Museums, no Reino Unido, que, num conjunto de cinco museus, recebe um total de 2,6 milhões de visitantes.”

Pelos caminhos de Portugal

De norte a sul já é possível visitar um conjunto de locais onde a história militar se encontra bem presente, alguns já parte de rotas organizadas pela recém-criada Associação do Turismo Militar.

Outros, espaços de batalha ou museus, ilustram de que matéria o povo português é feito

1 MUSEU MILITAR DE ALMEIDA

Inaugurado em 2009, conta com um núcleo central instalado nas Casamatas da Fortaleza de Almeida, no Baluarte de São João de Deus, junto da Porta Nova. Ocupa sete espaços das 20 salas subterrâneas, compostos por um acervo de armaria disposto pelos temas: as Origens (do Neolítico ao Romano), Idade Média (da presença árabe aos séculos XV/XVI); Guerras da Restauração (século XVII); Guerra dos Sete Anos (século XVIII); Guerras Peninsulares e Lutas Liberais (século XIX); I Guerra Mundial (século XX). A vila de Almeida faz parte da Rede das Aldeias Históricas.

2 MUSEU MILITAR DO BUÇACO

Azulejos do Museu Militar do Buçaco

Azulejos do Museu Militar do Buçaco

Inaugurado em 1910, por ocasião do 1.º centenário da Batalha do Buçaco, que sintetiza a valentia e a ação heroica do exército anglo--luso durante o período da Guerra Peninsular. Ampliado e remodelado em 1962, dispõe de valiosas coleções de armas, uniformes e equipamentos utilizados na batalha. Em painéis, aludindo aos feitos de armas praticados, recorda-se o comportamento corajoso de todas as unidades portuguesas que tomaram parte na Guerra Peninsular (1808-1814). À sua ação se ficou a dever a defesa da identidade e independência nacionais.

3 ROTEIRO DOS TEMPLÁRIOS

São 14 os locais a visitar nesta rota dos Templários.

Castelos, igrejas e conventos marcam uma época de ouro em Portugal e podem ser visitados entre Tomar, Torres Novas, Abrantes e Mação.

Dois homens, D. Afonso e D. Sancho I (acompanhados por Gualdim Pais) foram responsáveis pela fundação de um novo reino, movidos e apoiados por uma ordem à qual pertenciam. Portugal é a realização de um sonho Templário e o 4.º mestre da Ordem do Templo, Gualdim Pais, é o defensor desse sonho.

4 CENTRO DE INTERPRETAÇÃO DA BATALHA DE ALJUBARROTA

Criado em 2002, o Centro de Interpretação foi desenhado para permitir uma relação mais próxima com a paisagem circundante, que se pretende idêntica à existente em 1385.

Os visitantes têm a possibilidade de percorrer o campo da Batalha de Aljubarrota e de conhecer os factos mais importantes.

Estes pontos incluem os locais onde se encontravam o exército português e o exército franco-castelhano; o local onde se posicionou Nuno Álvares Pereira, D. João I, os arqueiros ingleses ou a Ala dos Namorados.

5 CENTRO DE INTERPRETAÇÃO DA BATALHA DO VIMEIRO

Monumento alusivo à Batalha do Vimeiro

Monumento alusivo à Batalha do Vimeiro

Nuno Botelho

Inaugurado em 2008, durante as comemorações do bicentenário da Batalha, localiza-se na colina do Vimeiro e permite ao visitante uma visão quase integral do campo da batalha. Em 2014, o espaço foi apetrechado com novos recursos e conteúdos expositivos. Atualmente congrega um importante espólio museológico e arqueológico, com uma componente textual e de áudio, que permite ao visitante fruir o espaço de forma autónoma.

6 TORRES VEDRAS - ROTA DAS LINHAS DE TORRES

Para os ávidos de "saber", para os amantes do ar livre e da aventura, o percurso Wellington transporta-nos para outro tempo, através dos locais onde decorreram alguns dos factos mais emblemáticos da Terceira Invasão Francesa. Os mesmos sítios ocupados pelo duque de Wellington e pelos seus generais podem agora ser palmilhados, no seu todo ou em parte, por todos os que gostam de sentir a História, os lugares e o contacto com o quotidiano das populações locais. A pé, de BTT ou de carro, para os menos ousados, com ou sem visita guiada, existem várias opções.

7 SOBRAL DE MONTE AGRAÇO - ROTA DAS LINHAS DE TORRES

O Centro de Interpretação das Linhas de Torres e o Circuito do Alqueidão situam-se na Região Oeste, a 40 km de Lisboa e a 30 km da Praia de Santa Cruz (Litoral Oeste), num território que oferece diversas atividades e ambientes para experimentar e explorar.

8 MUSEU MILITAR DE LISBOA

Começou a ser organizado em 1842, no Arsenal Real do Exército, pelo barão de Monte Pedral. Em 1851, por decreto real de D. Maria II de 10 de dezembro, foi batizado de Museu de Artilharia, nome que conservaria até 1926. Nos finais do século XIX e início do século XX, o seu primeiro diretor, general José Eduardo Castelbranco, fez decorar novas salas com trabalhos dos nossos melhores artistas da época.

O espaço passou a chamar--se de Museu Militar.

9 ROTEIRO DA DEFESA DO ALENTEJO

Com vários pontos de interesse entre Estremoz e Elvas, esta rota comporta um conjunto de 24 locais alusivos a batalhas e zonas fortificadas, entre outros. Na região, nos dias da Guerra da Restauração, nasceu um dos maiores heróis portugueses de todos os tempos. Dinis de Melo de Castro, o defensor da difícil fronteira do Alentejo, foi ferido 22 vezes em mais de 111 combates.

Batalha após batalha, do norte ao sul da província, os seus feitos eram contados nos salões europeus e o seu rosto retratado em palácios italianos como se de um mito da antiguidade se tratasse.

Este artigo é parte integrante da edição de março de 2016 da EXAME