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A arte urbana de negociar

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Empresas que criam graffiti por encomenda, galerias especializadas, visitas guiadas e safaris fotográficos, festivais e seminários, autarquias em busca de turismo, leiloeiras, museus e colecionadores. O que a arte urbana tem perdido em rebeldia está a gerar novos públicos e investidores

Rute Barbedo

“Compro logo existo #9.” A inscrição foi feita por Alexandre Farto, de nome artístico Vhils, em 2008, sobre uma pilha de cartazes publicitários com resina. O conceito liga a peça à arte urbana; o contexto é de galeria. Foi vendida em Paris por 22.100 euros, em fevereiro de 2015, contra um valor inicialmente estimado entre 12 mil e 15 mil euros.
A obra veicula um paradoxo: é uma crítica à sociedade de consumo comprada pela sociedade de consumo. Estamos nos meandros da arte urbana – ou das obras assinadas por artistas urbanos, porque há diferenças. Há a arte que nasce e é comercializada na rua – como os pedaços de parede com pinturas de Banksy que chegam a valer mais de um milhão de euros em leilões privados (em Portugal não há conhecimento de casos semelhantes e a venda de imóveis que incluam peças de arte urbana não está contemplada na lei) – e as peças de cultura urbana e perfil originalmente museológico. Seja como for, estes autores estão intrinsecamente ligados à rua e dependem dela para se valorizarem no mercado da arte. “Quando falamos em street, acaba por ser o nome de um movimento, porque os artistas passam muitas vezes do exterior para as galerias. O que mostram na rua serve para publicitar o trabalho, embora acredite que a intenção inicial não tenha sido essa”, analisa António Prates, proprietário da galeria homónima em Lisboa, que realizou em 2012 a exposição dedicada à arte urbana em Portugal, Além Paredes.
Neste panorama (e no das artes visuais em geral), Alexandre Farto é o artista português mais falado do momento. “Tem uma capacidade de gerar comunicação social e atenção sobre ele que é um fenómeno. Mas depois também existe o outro lado, que é: Portugal inteiro acha que só existe o Vhils”, sublinha Lara Seixo Rodrigues, fundadora e curadora da Mistaker Maker (que presta serviços de consultoria, gestão e apoio à arte contemporânea) e pioneira na organização de festivais (como o WOOL, na Covilhã), entre outras iniciativas dedicadas à arte urbana. “Somos a plataforma que trabalhou com mais gente e que pôs mais coisas na rua em Portugal”, resume a arquiteta de formação. Lara não descura, ainda assim, a importância da Underdogs, a maior galeria do país especializada em arte pública (em 2012, o Porto viu abrir a Inky, com uma expressão menor e mais vocacionada para os graffiti), como preferem chamar-lhe os proprietários, Alexandre Farto e Pauline Foessel.
Além destes exemplos, em Portugal “o que existe são os galeristas a acordar agora para esta realidade, porque se calhar veem os próprios compradores de repente interessados nestes artistas que andam a pintar murais na rua”, analisa Lara Seixo Rodrigues. Comparativamente ao resto da Europa, o cenário é este: “Em 2002, Barcelona era a Meca da arte urbana, e nós, 14 anos depois, podemos dizer que estamos um pouco como foi Barcelona nessa altura.”
À curadora chegam todos os dias e-mails e telefonemas a solicitar os valores de um Mário Belém ou de um Add Fuel. Mas em paralelo com os colecionadores, que são comummente expostos às fragrâncias da street art no contexto de festivais ou outros eventos esporádicos, os melhores clientes são as autarquias, como as de Estarreja, Águeda ou Figueira da Foz. “Dentro dos timings que conhecemos, pagam melhor do que as marcas”, concretiza a especialista. Sim, porque ainda deve ser incluído na equação o interesse de entidades comerciais, que muitas vezes “querem associar-se [à arte urbana] porque percebem a visibilidade que um festival lhes dá” ou porque pensam em projetos e ações específicas em que o criador escolhido deixou de ser um designer para passar a ser artista urbano.

Lara Seixo Rodrigues, curadora

Lara Seixo Rodrigues, curadora

A montanha que vai a Maomé


Mas porque estão tantos olhos voltados para esta expressão artística? Luís Urbano, diretor do mestrado em Mercados da Arte, um consórcio entre o Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) e a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) (considerado, em 2012, o 23.º melhor do mundo da área), identifica no movimento “uma produção artística contemporânea que as pessoas conseguem perceber, presa à figuração”, contrapondo-se, de certa forma, à “arte dos nossos dias, que muitas vezes é apenas uma ideia, um conceito”. A visualidade forte e imediata da arte urbana, ao alcance de todos, estabelece, pelo seu lado figurativo, “um diálogo relativamente fácil”, que atrai um espetro de admiradores bem mais vasto que a “arte das elites”, acredita o professor.
No entanto, esta caracterização apresenta outra face: a do desinteresse de alguns gatekeepers culturais, que consideram que a arte urbana “não se ajusta inteiramente às convenções da produção artística contemporânea, relacionadas com a desmaterialização do objeto”. Ao mesmo tempo, “eles gostam de controlar o que é arte e o que não é, e com a street isso é mais difícil de fazer”. Para o curador João Pinharanda, que escolheu Vhils para expor na Fundação EDP em 2014 (Dissection recebeu mais de 65 mil visitas em quatro meses), a arte urbana garante “uma visibilidade e uma relação diferente com o público, e isso é o seu valor acrescentado”, bem como conseguir “enquadrar a revolta numa qualquer coisa criativa”. Mas “ainda estamos num momento como foi o Basquiat”, em que o caráter imberbe do fenómeno não deixa antever o futuro.
Ainda assim, os sinais de interesse que países como a França, Reino Unido ou a China emitem sobre a arte urbana fazem despertar a curiosidade dos investidores portugueses. Segundo Igor Olho-Azul, da leiloeira Veritas, este mercado “já começou a ganhar uma dimensão relevante, sem dúvida”. No entanto, não há “um universo assim tão grande de criadores que cubra este suporte, e por isso o que existe é um interesse muito focado em meia dúzia de artistas”. Banksy, Borondo, JR ou o português Vhils são alguns exemplos.
Além da qualidade dos trabalhos, a esfera dos leilões move-se muito pela energia mediática em torno do autor. “Temos de avaliar uma série de parâmetros na análise de uma obra de arte, que tem a ver com o artista, o suporte da peça, o seu estado de conservação e o seu contexto na restante produção do autor. Funciona muito por métodos comparativos”, explica o responsável. Quando se trata de artistas ou temas do momento – como poderá estar a acontecer com a street art –, resta avaliar a solidez da produção no seu todo para poder “assumir um valor interessante ou acrescentar valor a uma peça” em particular.

Roleta russa


A questão que se impõe é se é seguro e lucrativo investir em obras de arte urbana. “É muito difícil” sabê-lo, assume Igor Olho-Azul. “Os fatores que hoje podem conferir segurança ao colecionador são muito pessoais. O que temos de fazer [como leiloeira] é dar o máximo de informação para que ele possa gerir da melhor forma essa decisão.” Na opinião de António Prates, galerista há mais de 30 anos, este é um bom momento para apostar em arte urbana. “Eu adquiri e continuo a adquirir alguns [trabalhos], porque é um movimento com muita força e eu acredito nele como um daqueles que são preponderantes historicamente.” Ainda assim, o investidor avisa: “Estas coisas são por modas. O [Miguel] Barceló já foi oito vezes mais caro do que é hoje. As coisas que já vendeu a um milhão compram-se agora por 200 ou 300 mil. O mercado funciona com as modas e com o entusiasmo do momento e depende da oferta e da procura.” No final, “é um pouco como quem compra ações”, compara António Prates.

António Prates, galerista

António Prates, galerista

Nuno Botelho

Fora os episódios de especulação – e um comprador bem informado é certamente mais ponderado –, “a arte continua a ser um valor seguro”, conclui o sócio da Veritas, ao contrário do que possa circular em parte da opinião pública, sobretudo nos últimos 10 anos, quando uma crise de confiança, derivada de um passado demasiado despesista e pouco criterioso desenhado pelos compradores, se abateu sobre o mercado da arte. Entre finais dos anos 90 e o ano de 2006, “foi um momento muito bom para os artistas, porque a procura era tanta que se tornaram autênticas fábricas. Mas as pessoas começaram a perceber que o que tinham andado a comprar a valores absolutamente descabidos, quando chegava ao nosso mercado [leiloeiro], não se traduzia em nada. Então desacreditou-se que investir em arte era bom”.
Subindo para o campeonato do milhão de dólares, o que se compra já não são unicamente obras de arte, mas “produtos de luxo com marca”, considera o professor Luís Urbano. Como se chega, enquanto artista, a este patamar? Não há receitas absolutas e muito provavelmente alguns caminhos serão “enviesados”, acredita o diretor de mestrado. “Para artistas que já faleceram, [a fama] vem da sua relevância histórica decisiva. Noutros casos, deriva da capacidade de autopromoção que têm ou que tiveram por eles, fazendo-os circular pelos locais certos, por instituições que têm capacidade para validar a importância cultural das obras. Depois, é uma conjugação dos interesses de colecionadores, galeristas e curadores, que vão aumentando progressivamente, num movimento helicoidal, o valor dos artistas.” Há galerias que praticam valores mínimos de venda de 200 mil euros. Como é que isso acontece? “Em certos casos, é uma evidência da própria obra, mas o resto deixa-se à imaginação de cada um para responder.” Seja como for, a “regra geral” mais segura é que quanto mais elevado é o valor de uma peça mais seguro é o investimento.

Este artigo é parte integrante da edição de março de 2016