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"Escolhemos Lisboa porque tem algo de especial"

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Paddy Cosgrave fundador do Web Summit

Getty Images

O fundador do Web Summit explica, em entrevista exclusiva à EXAME, como em apenas cinco anos criou o maior evento da Europa de tecnologia e empreendedorismo, que se realizará nos próximos três anos em Lisboa. Proporcionar uma boa experiência aos participantes através do uso intensivo de ferramentas tecnológicas é um dos segredos do sucesso revelado por Paddy Cosgrave

João Ramos

João Ramos

Jornalista

Lisboa vai ser a Meca mundial da tecnologia e do empreendedorismo em novembro de 2016, quando receber perto de 30 mil visitantes do Web Summit. Paddy Cosgrave, 31 anos, é o fundador do megaevento, que nasceu em Dublin. Em entrevista à EXAME, não esconde o fascínio que sente por Lisboa e explica como foi possível, em apenas cinco anos, crescer de uma conferência local com 400 pessoas e tornar-se no maior evento do género a nível mundial, criando réplicas nos Estados Unidos e na Ásia. Um sucesso que se baseia, segundo revela Paddy Cosgrave, no uso intensivo de tecnologia para que "cada pessoa tenha uma experiência completamente personalizada" e passe a palavra a outras pessoas. Para o efeito, a equipa de Cosgrave criou uma app móvel que os participantes podem usar de forma personalizada. Inclui uma espécie de "agenda com os eventos relevantes em que cada pessoa deve participar" e existem câmaras que identificam "as áreas da conferência onde as filas são mais extensas e ajudam a resolver essas situações", revela o fundador do Web Summit.

Porque escolheu Lisboa como o novo local para organizar o Web Summit nos próximos três anos?
Analisámos várias cidades na Europa e escolhemos Lisboa porque tem algo de especial, além de ter infraestruturas excelentes. Para a decisão também contribuíram várias coisas que aconteceram nos últimos anos. A vencedora da competição das start-ups do Web Summit de 2014 é portuguesa, a Codacy. E também já recrutámos um português de Lisboa. O meu irmão, que tem vivido em Berlim nos últimos três anos, mudou-se para Lisboa há poucas semanas e transmitiu-me que a vossa cidade tem coisas fantásticas e que será uma nova Berlim (em termos de ambiente favorável para as start-ups). Entretanto, tive encontros produtivos com o presidente da Câmara de Lisboa (Fernando Medina) e com o vice-primeiro-ministro do governo português (Paulo Portas). Por outro lado, foi desencadeada uma enorme campanha nas redes sociais (Twitter e Facebook), recebi muitas mensagens de correio eletrónico a favor da candidatura de Lisboa. Inclusivamente, foram pessoas ao meu escritório em Dublin para me convencer de que Lisboa era a melhor opção. Este movimento cresceu de uma forma monstruosa e tornou-se imparável. As cidades passam por momentos bons e por momentos difíceis. No caso de Lisboa, parece que as pessoas se juntaram e vieram dizer: "Passado é passado e amanhã será melhor. Vamos trabalhar no duro e deixem-nos criar um sítio incrível para viver e trabalhar." Penso que é isto que está a acontecer em Lisboa.

Está previsto abrir um escritório em Lisboa?
É muito provável que venhamos a ter uma delegação em Lisboa nos próximos 12 meses. Mas a nossa sede continuará a ser em Dublin. É a partir de lá que organizamos conferências nos Estados Unidos e na Ásia.

O bom momento do ecossistema português de empreendedorismo também ajudou à decisão?
Sim, totalmente. Veja-se o caso de sucesso da Rocket Internet, que recrutou 400 engenheiros no Porto. E já existe um unicórnio português, a Farfetch. E sei que há muitas start-ups portuguesas com grande potencial. Não é por acaso que a Codacy conseguiu convencer o júri do Web Summit a ser a start-up mais premiada após dois dias repletos de apresentações rápidas (pitching). Isto é incrível e fala por si.

Que dicas dá aos participantes do Web Summit para tirarem melhor partido de uma megaconferência?
Desde a primeira edição, em que estiveram 400 pessoas, sempre nos preocupou a experiência dos participantes. Só assim transmitem aos seus amigos e colegas a mensagem para virem à conferência. Um método que tem resultado: na edição deste ano, em Dublin, vão participar 24 mil pessoas. Aconselho a que os participantes preparem antecipadamente algumas reuniões. E também devem ver quais as apresentações e debates a que querem assistir. Se houver um bom nível de preparação, o visitante terá uma experiência muito melhor.

O modelo do Web Summit deste ano, com 21 conferências temáticas divididas em vários subeventos, é para manter no próximo ano em Lisboa?
Sim, vai continuar. E é também importante recordar que os participantes não beneficiam só dos eventos das 9 da manhã às 5 da tarde. Também podem tirar partido dos contactos que a nossa aplicação móvel ajuda a gerir. Esses encontros fazem-se desde que termina a conferência até de madrugada. Haverá negó cios a nascer em pequenos bares e restaurantes das ruas de Lisboa. É isso que tem acontecido em Dublin, nos Estados Unidos ou na Ásia. Por vezes, esses encontros informais ao final do dia são mais frutuosos na criação de redes de contactos do que a própria conferência.

O Web Summit deste ano coloca à disposição dos participantes uma app móvel para melhor tirarem partido da conferência. O que faz esta ferramenta?
Ajuda a encontrar pessoas com quem se deverá encontrar e reunir. Proporciona uma experiência muito personalizada: inclui uma espécie de agenda com os eventos relevantes em que a pessoa deve participar. Temos uma equipa de cientistas de informação que trabalha para que a app forneça às pessoas os contactos mais relevantes e que não devem deixar de ter tendo em conta o perfil e interesses em áreas específicas (se é empreendedor, investidor, etc.). O coração da nossa filosofia é que cada pessoa tenha uma experiência completamente personalizada.

Além desta app móvel, qual é o papel da tecnologia na organização dos eventos em que está envolvido?
É muito grande. Quem visita o evento encontrará em todo o lado câmaras portáteis GoPro, que usam a visão dos computadores para melhorar a experiência dos participantes. Identificarão áreas onde as filas são mais extensas e ajudarão a resolver essas situações. Ou se há uma área da conferência muito calma e onde deveria haver mais pessoas. A ferramenta ajuda a organização a encontrar formas de mudar tudo isso. Tudo o que fazemos tem por base o software. Esta tecnologia não está perfeita, mas tem vindo a ser melhorada ao longo dos anos para ajudar as pessoas.

A que tecnologias se refere exatamente?
Há uma série de algoritmos que foram desenvolvidos por doutorados em áreas como física, estatística aplicada e engenharia de sistemas complexos em todo o mundo, oriundos de locais tão diferentes como a Berlin TUV ou a Universidade de Melbourne (Austrália). Trabalham na melhor forma de gerir mais de 20 mil pessoas num determinado lugar. E também procura criar uma experiência com valor acrescentado para o participante.

Esta tecnologia será vendida a outras organizações com megaeventos?
Imagino que seja interessante para outros, mas nós só fazemos isto para as nossas conferências.

Em que se inspirou para fazer a primeira conferência Web Summit?
Como Dublin é uma cidade pequena, mais pequena do que Lisboa, tínhamos vontade de criar uma conferência de start-ups que servisse a comunidade local. Quase ninguém vinha à Irlanda falar sobre este tema, nem oradores nem empreendedores. Foi para colmatar esta lacuna que há cinco anos iniciei um pequeno evento que em pouco tempo se tornaria numa grande conferência. Tornou-se demasiado grande para Dublin e tivemos noção de que teríamos que encontrar outra fantástica cidade europeia. Essa cidade é Lisboa.

Previu este crescimento exponencial do Web Summit?
Não, estava longe de imaginar que em poucos anos iria atrair pessoas de todo o mundo.

No início foi difícil atrair gestores famosos de Silicon Valley, por exemplo Jack Dorsey, fundador do Twitter, a uma conferência desconhecida na altura?
Foi tremendamente difícil. Sempre pensei que o papel de um empreendedor é ultrapassar desafios difíceis. Por isso persistimos e trabalhámos arduamente para pôr de pé essa primeira conferência.

O que mudou na sua vida, agora que está a organizar outros eventos Web Summit noutros continentes e também o Collision in Las Vegas?
Passei a viajar bastante. Adoro conhecer empreendedores de todos os continentes. Aprendi que o mundo avança porque as pessoas não aceitam as coisas tal como elas são. Penso que é possível fazer as coisas de forma diferente e melhor, criar novas coisas. Tenho uma sorte incrível em poder fazer aquilo que estou a fazer. O Web Summit está a crescer em vários continentes e o Collision [outra conferência que Cosgrave também organiza em vários pontos do mundo] também.

Está a criar uma multinacional de eventos?
Sim, é verdade. No Web Summit deste ano participam pessoas de destinos tão remotos como as ilhas Fiji ou a Patagónia. Fico muito entusiasmado com esta adesão.

A Europa está a dar os passos certos nas áreas das start-ups tecnológicas e a aproximar-se dos Estados Unidos?
A Europa está agora a criar empresas muito boas. Silicon Valley tem estado à frente há muitos anos, mas agora o mundo está a capturar este modelo não só na Europa como também na Índia ou na China, onde estão a surgir empresas incríveis e com grandes projetos.

Qual é o papel que as entidades oficiais dos países europeus e de Bruxelas podem ter na expansão deste ecossistema das start-ups?
O papel dos empreendedores é resolver problemas. Claro que os governos ou a Comissão Europeia podem ter um importante contributo criando os melhores enquadramentos. Mas o que acontece é que os empreendedores têm o seu caminho e muitas vezes não podem esperar pelo suporte oficial, senão perdem a janela de oportunidade.

BI

O especialista em conferências

Nome
Paddy Cosgrave.

Vida
Nasceu há 31 anos na Irlanda.

Carreira Estudou economia e política no Trinity College, em Dublin. Começou por criar aplicações online com amigos. Em 2009 organizou a primeira conferência, F:ounder, em Dublin, em que participaram 150 pessoas. No ano seguinte lançou o primeiro Web Summit (que juntou o F:ounder), que atraiu 400 pessoas, incluindo Jack Dorsey e Chad Heurley, cofundadores do Twitter e do YouTube. A edição de 2014 do Web Summit levou a Dublin 22 mil pessoas e este ano serão 24 mil. No próximo ano, as estimativas apontam que o Web Summit de Lisboa receba perto de 30 mil pessoas de todo o mundo. Entretanto, o megaevento já se realiza na Ásia e nos Estados Unidos. A mesma fórmula de sucesso permitiu também a Paddy Cosgrave criar as conferências tecnológicas Collision em vários pontos dos globo.

COMO LISBOA TIROU O WEB SUMMIT A DUBLIN

Mérito das autoridades portuguesas, que souberam tirar partido dos desencontros entrePaddy Cosgrave e o governo irlandês

Paddy Cosgrave já há alguns meses que vinha dizendo que Dublin não tinha infraestruturas suficientes para responder ao crescimento do Web Summit. Enviou o caderno de encargos ao governo irlandês, em que solicitava garantias de melhoria em diversos domínios: "Controlo de trânsito, aumento da frequência dos transportes públicos, hotéis e Internet de banda larga sem fios (Wi-Fi)." Após uma troca de correspondência, as pretensões do fundador do Web Summit não foram atendidas. A corda partiu quando Cosgrave acusou o Executivo de Dublin de dar uma resposta "enganosa". Daí em diante,Paddy Cosgrave iniciou contactos com várias cidades da Europa com infraestruturas e com capacidade de resposta ao crescimento do evento. Foi nesse ponto que Lisboa surge como forte hipótese.

A candidatura foi ganhando força e venceu, na reta final, a Amesterdão por uma conjugação de fatores. A portuguesa Codacy tinha ganho a competição das start-ups do Web Summit no ano passado e Paddy Cosgrave foi recebendo informações positivas sobre Lisboa (ver entrevista). Exemplar também foi a colaboração institucional entre o governo português (vice-primeiroministro, Paulo Portas, e secretário de Estado da Economia, Leonardo Mathias) e a Câmara Municipal de Lisboa (presidente do município, Fernando Medina), que responderam de forma positiva ao caderno de encargos do evento.

Não serão apenas as empresas tecnológicas portuguesas que vão ter uma oportunidade de ouro para se apresentarem junto da nata mundial de investidores e líderes de grandes grupos empresariais.Também os cozinheiros, os produtores agrícolas regionais e os estilistas portugueses poderão aproveitar a ocasião para mostrar ao mundo a originalidade das suas ofertas durante o Web Summit, que se realizará em novembro de 2016, 2017 e 2018. "Uma Davos para geeks" é como a Bloomberg classifica o megaevento, numa alusão ao Fórum Económico Mundial. Mas muito menos elitista do que o evento da cidade suíça, uma vez que serão esperados em Lisboa mais de 30 mil pessoas.

O Web Summit são várias conferências numa só. Além do prato forte que serão as 'cimeiras' dirigidas a especialistas e a técnicos investimento, start-up, dinheiro, aceleradores, marketing, código, entre outros, o evento terá 'cimeiras' dedicadas à comida (Food Summit) e à moda (Fashion Summit). Será também uma oportunidade para promover Lisboa como destino turístico junto de novos mercados, nomeadamente os Estados Unidos. Calcula-se que perto de 10 mil participantes virão do outro lado do Atlântico, em grande parte de Silicon Valley.

Este artigo é parte integrante da edição de novembro da Revista EXAME