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Levar o vinho português ao mundo

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Há 10 anos que André Ribeirinho junta produtores de vinhos a consumidores através da Internet. Entretanto, desde 2012, organiza os jantares Wine Lover, que trazem com frequência a Portugal apreciadores dos quatro cantos do mundo para partilharem vinhos. A rede social que criou, o Adegga, está consolidada e André anda, agora, pela Europa a divulgar esta paixão

Enquanto um misto de idiomas e cheiro a vinho invade a sala do Hotel Flórida, em Lisboa, Patrick Farrell, um americano, de ténis e calças de ganga, passeia radiante com uma garrafa de Dow's Vintage Port de 2011, eleito, pela revista Wine Spectator, o melhor vinho do mundo nesse ano. Na mala de regresso aos EUA há de levar mais umas quantas, para dar a provar aos amigos. Os vinhos que este Master of Wine (considerada uma das mais altas qualificações para entendidos na matéria) levar vão-se multiplicar de boca em boca, de especialistas a apreciadores, que de outra forma não os conheceriam.

Como Patrick há mais 40 convivas neste jantar que farão o mesmo nos seus países, da Noruega ao Brasil. É este o espírito dos jantares Wine Lover, que, desde 2012, trazem com frequência a Portugal apreciadores dos quatro cantos do mundo para partilharem vinhos. A culpa é de André Ribeirinho, um engenheiro informático portuguêsque há 10 anos se tornou num embaixador da causa. Agora, que a rede social que criou, o Adegga, está consolidada e que os eventos em que junta fãs do vinho e produtores em Portugal são procurados por estrangeiros, prepara-se para correr a Europa para já - numa sucessão de mercados de divulgação.

"É muito difícil importar, mas o André está a fazer um bom trabalho e a mostrá-lo ao mundo", diz Patrick. Nos dias que antecederam o jantar, André e a equipa andaram com eles a visitar produtores de norte a sul. O evento deste dia foi uma gota de água no trabalho de divulgação, marketing e vendas que o Adegga faz. A joia do negócio, contudo, está mesmo na rede social que junta produtores de vinhos com consumidores finais em todo o mundo, fortalecida com encontros de provas de três em três meses, os Adegga Wine Market. Este ano, pela primeira vez, vai exportá-los. Primeiro, Estocolmo, em setembro, onde durante anos existiu um monopólio estatal de compra de vinhos (qualquer entrada de produto tinha de ser controlada), e depois Berlim, inserido na Food Week, a pedido da organização alemã.

"Escolhemos estes dois mercados, a Alemanha, porque é o maior da Europa, e a Suécia, porque esteve fechado até agora com o monopólio estatal de compra de álcool", conta André, que daqui a dois anos planeia investir entre um a dois milhões de euros num novo périplo, desta vez pelo resto da Europa. Com França incluída. "Uma vez tive um grupo de franceses num Adegga Wine Market que preferiram os brancos portugueses aos franceses." Depois será a vez do mercado americano. O orçamento para os primeiros dois eventos, cerca de 100 mil euros, está tratado e posto de parte. Foi feito com capitais próprios, sem recorrer a crédito, e uma parte do dinheiro da viagem europeia será angariado através de uma ação de crowdfunding entre os apreciadores. "Como o investimento neste mercado é fraco e segmentado, é preciso investir muito dinheiro para ter impacto. O crowdfunding faz mais sentido [do que o recurso a um investidor externo], porque envolve uma comunidade que compreende o projeto, que não só se irá tornar investidor como cliente."

É o ponto alto para este empreendedor, que há 10 anos quando o Facebook ainda só existia nas universidades achou que podia largar o emprego seguro e estável no Sapo e criar uma rede social só para o vinho. "Há uma ideia errada de que os empreendedores gostam de risco. Os empreendedores minimizam o risco. Essa é a diferença." Os seis meses que separam o dia em que teve a ideia do momento, em que se despediu e passou a estar a full time dedicado ao projeto, foram fundamentais para perceber que era esse o caminho. "Tenho perfeita noção de que o negócio nunca teria crescido se não me tivesse dedicado a ele a 100%." Na altura parecia um risco demasiado elevado, contudo, André ponderou todas as variáveis e calculou que a longo prazo tivesse efeito.

Foi nisso que pensou desde o dia em que leu o livro Long Tail, de Chris Anderson, ex-jornalista da The Economist e ex-diretor da Wired, que foi quando percebeu o potencial da Internet e que tinha a base ideal para um novo modelo de negócio ligado ao vinho. O livro defende que, se o canal de distribuição for suficientemente grande, é mais eficaz e rentável um mercado de milhares de produtos de nicho do que apenas alguns produtos de muito sucesso. "Da mesma forma como a Internet mudou a indústria dos filmes e da música e que ajudou a descobrir novos artistas, podia também fazer o mesmo pelo vinho." Passou um ano a fazer uma base de dados, foi à procura dos produtores que tivessem não só bom vinho, mas também boa imagem e apresentação, até que criou o www.adegga.com. Basta fazer log in e apreciadores de vinhos estão em contacto direto com produtores de vinho, na outra ponta do mundo, com preços acima de 10 euros por garrafa. O Adegga nunca compra vinho aos produtores, mas faz de intermediário. Um centro de distribuição em Münster, na Alemanha, assegura que as garrafas pretendidas cheguem em cinco dias.

Hoje, por mês, passam pelo Adegga mais de 100 mil pessoas de todos os pontos do planeta. André ainda se lembra de quando os primeiros utilizadores nos EUA começaram a provar e a comprar vinho português. Cinco anos depois do site nasceram os encontros cara a cara. Era a resposta ao que o mercado precisava. "As pessoas compram bom vinho. Não importa se é francês ou português. Mas ainda existe muito trabalho para colocar o vinho português na casa do consumidor final. Os canais de divulgação e distribuição que estão a ser tentados são os mesmos dos outros países, só que se fizermos o mesmo com um orçamento mais baixo vamos ter sempre menos resultados." É isso que tenta fazer nos seus eventos, onde há uma área reservada para vinhos acima de 50 euros. "Um dia de mercado é como um dia em que um grupo de compradores vai visitar a quinta do produtor." Equivale a vendas de "milhares de euros", mas nenhum lado do negócio adianta valores.

São resultados (e ideias) curiosas para quem até há 10 anos não percebia nada de vinho, não bebia sequer, nem tem família na área. O que o levou a ser olhado com alguma estranheza pelos produtores quando lhes foi bater à porta a dizer que queria vender os vinhos dele na Internet. "Os produtores de vinho são focados na produção, na maior parte dos casos. Têm dificuldade em chegar ao mercado e ao consumidor final."

Nos 10 anos que separam o início do projeto Adegga até agora, os vinhos portugueses já conquistaram vários prémios a nível internacional, no entanto continua a ser difícil chegarem às prateleiras estrangeiras. Não têm a fama dos vinhos franceses nem as redes de distribuição dos italianos, que assentam nos inúmeros restaurantes. "Tem sido bem feito (o trabalho) a nível de media, de opinion makers, mas depois é difícil passar essa barreira e chegar ao consumidor que o queira comprar através de outros canais de divulgação." Aos produtores que dizem que não têm capacidade para exportar, o CEO do Adegga responde que o resultado passa por vender um produto boutique a um preço mais elevado.

Esporão, Torre do Frade e Cortes de Cima foram dos primeiros que não tiveram receio de experimentar o projeto. É natural, por isso, que estejam a embarcar na nova aventura europeia. Ao todo, serão 20 os produtores que o acompanharam na Suécia e na Alemanha, mas também lá irão estar vinhos estrangeiros. "Se dissermos que há um evento de vinhos portugueses, a quantidade de pessoas que aparece é menor do que se dizermos que é um evento de bons vinhos."

Entre a divulgação nos mercados e até lá vai continuar a organizar eventos para o vinhoportuguês no estrangeiro, como o que juntou os jornais O Globo e Público no Rio de Janeiro, recentemente. A distinção da Harper's, como Rising Stars, que recebeu em novembro, ajuda a reforçar o currículo quando fecha contratos, principalmente em Portugal.

Até agora, o risco compensou. Com a atual crise na PT, o mais provável é que não estivesse com uma vida tão confortável se tivesse ficado no Sapo. Ainda não é milionário e garante que o dinheiro não é o mais importante -, mas acredita estar no caminho certo.

EMPREENDEDOR

André Ribeirinho

"Os produtores de vinho são focados na produção, na maior parte dos casos"

Idade: 36 anos

CEO Adegga

Engenheiro informático

Este artigo é parte integrante da edição de julho da Revista EXAME