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Cientistas mais próximos do mundo dos negócios

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Cláudia Ranito da Medbone exporta "ossos" para mais de 50 países

Paulo Vaz Henriques

São portugueses, representam uma nova geração de investigadores e um novo paradigma da ciência nacional, próxima da indústria e da internacionalização

Catia Mateus

Catia Mateus

Jornalista

Em 2012 Portugal tinha o dobro dos doutorados que registava em 2003: 24.992 face a 11.197. O investimento emciência aumentou nas últimas décadas, a produção científica nacional também, tal como o número de investigadores e de patentes registadas no estrangeiro. Nunca como agora o número de investigadores portugueses em destaque em cenários internacionais foi tão grande. Nunca como hoje o mérito da investigação nacional conseguiu arrecadar tanto reconhecimento internacional, traduzido na captação de milhões de euros de investimento em projetos nacionais, através de bolsas de investigação.

O sistema científico e tecnológico nacional gera hoje mais e melhores resultados, com repercussão global, mas, segundo Daniel Bessa, diretor-geral da COTEC, a valorização do conhecimento gerado na investigação e a aplicação ao mercado ainda é insuficiente em Portugal. Há, contudo, exceções à regra. São projetos nacionais de investigadores portugueses que, sozinhos ou em equipa, estão a concretizar e exportar ciência e inovação, levando-a até às empresas e dando-lhe a necessária concretização prática.

Nos primeiros meses deste ano, dois investigadores a trabalhar em Portugal João Mano, da Universidade do Minho, e Zachary Mainen, da Fundação Champalimaud conquistaram bolsas avançadas (Advanced Grants) do Conselho Europeu de Investigação (ERC), no valor de 2,5 milhões de euros cada. Aos dois cientistas juntam-se outras 15 bolsas milionárias, atribuídas, em 2014, a projetos nacionais, e o reconhecimento internacional de cientistas portugueses como Olga Afonso, a investigadora do Instituto de Biologia Molecular e Celular do Porto, apontada pela American Society for Cell Biology como uma das 10 melhores doutorandas do mundo pelo trabalho que desenvolve na área da divisão celular. Apesar disso, o estudo A Empregabilidade dos Doutorados nas Empresas Portuguesas revela que só 3% dos doutorados e investigadores portugueses trabalham em contexto empresarial. A maioria desenvolve investigação associada a instituições de ensino superior, que ainda são responsáveis por executar 50% do investimento em investigação & desenvolvimento (I&D) da economia nacional, num contexto em que o Estado assegura 34% da inovação produzida e só 16% nascem por iniciativa de empresas, à luz do relatório europeu Innovation Union Scorebord 2015.

Durante o último quadro comunitário, a despesa nacional em I&D foi de 2,7 mil milhões de euros. As empresas portuguesas investem menos em inovação e investigação do que as suas congéneres europeias ou norte-americanas, o que se traduz na integração de um número reduzido de investigadores nos seus quadros. Ana Barroca, Gonçalo Meireles e Catarina Neto, autores do estudo sobre empregabilidade dos doutorados em Portugal, apontam várias razões para este afastamento entre cientistas e o tecido empresarial, entre as quais "o distanciamento entre a academia e a indústria e um desfasamento entre o perfil dos doutorados e as competências procuradas pelas empresas". Um cenário que a crise dos últimos anos pode ter ajudado a mudar.

Austeridade potencia ligação às empresas

Entre 2011 e 2013, o investimento nacional em I&D caiu de 1,46% para 1,36% do PIB, num movimento de redução que se iniciou em 2010 e que, a par com as recentes polémicas em torno do sistema de financiamento científico e da atribuição de bolsas de investigação por parte da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), alavancou um novo paradigma no sistema científico nacional, aproximando as instituições de investigação das empresas. Várias universidades apostaram na prestação de serviços às empresas, estabelecendo laços de cooperação em matéria de I&D e inovação, assim cimentando um novo modelo de relacionamento entre as organizações e o tecido científico nacional.

Em sectores como a saúde e o farmacêutico, a indústria agroalimentar e as tecnologias, a relação universidade-empresa no campo da investigação é hoje mais próxima do que nunca. É cada vez maior o número de organizações de pequena ou grande dimensão focadas no designado smart growth (crescimento inteligente), ainda que o retorno do impacto desta aposta na inovação e na I&D nem sempre seja facilmente mensurável. Para Daniel Bessa, não é fácil responder à questão óbvia: as empresas portuguesas têm já, efetivamente, uma estratégia de inovação bem pensada e estruturada? Reconhece que "a inovação é hoje vista pelas empresas como um recurso decisivo para a competição no mercado global" e que "não há alternativa" senão inovar. Mas quanto a estratégia de inovação propriamente dita, "umas empresas terão, outras não", realça, ao mesmo tempo que enfatiza que naciência, como noutras áreas, "o nosso maior problema como povo não reside na falta de estratégia, mas em dificuldades de implementação e de execução".

Banca, comunicações e telecomunicações serão, na sua opinião, os sectores de maior intensidade de investimento em I&D a nível nacional. Contudo, "há empresas com elevado investimento em I&D em praticamente todos os sectores de atividade e não necessariamente apenas nas maiores empresas". Na verdade, segundo o diretor-geral da COTEC, "em percentagem de volume de negócios, ou dos resultados líquidos, julgo ser em algumas PME que as despesas de I&D atingem a maior expressão, mais (muito mais) do que na generalidade das grandes empresas". Serão também estas as que têm aproveitado a proximidade com a academia e os cientistas nacionais para reforçar a sua estratégia de inovação. E em Portugal somam-se bons exemplos de cooperação, sejam eles de projetos de investigação que nasceram nas universidades e se tornaram empresas, investigações desenvolvidas no seio da academia em parceria com a indústria para resolver problemas concretos e identificados no mercado ou desafios lançados pelas empresas diretamente aos investigadores.

Transformar ciência em produto

Provavelmente não saberá, mas nas salas de cirurgia de hospitais do Cambodja, Hong Kong, Moçambique, Dinamarca e em dezenas de outros destinos mundiais são aplicadas próteses de osso artificial fabricadas em Portugal, na Medbone, criada pela investigadora Cláudia Ranito depois de vários anos de investigação e desenvolvimento e de recorrer a um banco espanhol que lhe financiou 600 mil euros para transformar ciência em indústria a partir de Portugal. Ou que a Amorim Cork Composites coordena um projeto, que está em desenvolvimento no Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica (iBET), agregando investigadores de áreas tão diversas como química analítica, bioquímica, biotecnologia e engenharia química, com o objetivo de utilizar subprodutos da indústria da cortiça com propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e antimicrobianas na cosmética. Também a empresa familiar de peixe ultracongelado Soguima está a destacar-se a nível internacional com um projeto de I&D que desenvolveu a nível interno para o aproveitamento completo da matéria-prima e que permitiu aplicar o excedente da pele de peixe na indústria da moda. Há sapatos, malas e acessórios em pele de atum made in Portugal a conquistar o mundo.

Como estes, muitos outros projetos materializam já uma ligação efetiva, que está a aumentar, entre as empresas portuguesas e os centros de investigação nacionais. O que para Daniel Bessa é hoje vital. "Num país da área do euro, como Portugal, é praticamente impossível a uma empresa tornar-se competitiva pelos custos. Resta-lhe inovação: inovar ou morrer."

Na Corticeira Amorim essa é a regra. A empresa investe, em média, 7,5 milhões de euros anualmente em investigação. Há cinco anos que a área de I&D da empresa tem ganho uma maior fatia do orçamento inicial, "com o objetivo de melhorar a performance das aplicações mais tradicionais da empresa, recentemente formatada para novas aplicações, combinando diferentes materiais com a cortiça, ambicionando novos mercados e segmentos", explica António Rios de Amorim, presidente da Corticeira Amorim. Ainda que reconheça que a quantificação do retorno do investimento não é fácil, realça que "cerca de 17 milhões de euros do volume de negócios da Corticeira Amorim foram suportados por novas aplicações de cortiça que não existiam em 2012".

A empresa, que sempre alimentou uma visão inovadora não só nos produtos mas também nos processos, tem vindo a reforçar sucessivamente a sua área de I&D, seja nas parcerias com universidades e institutos nacionais de investigação ou na criação de unidades internas de investigação, materializadas na Amorim Cork Research, a sua própria estrutura de investigação. "As cinco unidades de negócio da Corticeira Amorim criaram departamentos de I&D com pessoas muito qualificadas", explica António Rios de Amorim, enfatizando que, além dos 25 elementos da equipa de I&D, entre os quais estão doutorados, são comuns as ligações a polos de excelência em investigação sempre que seja identificada alguma necessidades específica numa das áreas. "Temos parcerias com unidades do sistema científico português e também com universidades e institutos de investigação a nível internacional, desde a Austrália aos Estados Unidos, passando por França, Itália e Alemanha", realça o presidente da Corticeira Amorim.

A Nestlé segue uma estratégia semelhante. Deolinda Nunes, diretora de relações corporativas da empresa em Portugal, realça que em matéria de I&D a firma segue há muito as orientações da casa mãe e as melhores práticas internacionais. "As atividades de I&D são geridas a nível central. A Nestlé tem 28 centros de investigação espalhados pelo mundo e em 2014 foram investidos nesta área 1,6 mil milhões de francos suíços (cerca de 1,4 mil milhões de euros)." Em Portugal, "mais de 30% das receitas geradas em 2014 (que ascenderam a um total de 461,3 milhões de euros) foram obtidos graças às inovações ou renovações de produtos". Neste domínio, a empresa tem projetos de cooperação em conjunto com várias universidades nacionais, cuja excelência a responsável destaca: "Temos hoje alguns centros de investigação de referência internacional, muitas empresas em áreas de ponta, algumas delas nascidas no seio da academia, muitas autónomas, e não faltam casos de reconhecimento externo da inovação portuguesa e de exportação desta mesma inovação."

Tiago Miranda

"TEMOS DE DIVERSIFICAR AS FONTES DE FINANCIAMENTO"

A ligação estreita entre os centros de investigação e a indústria é para Elvira Fortunato, investigadora e coordenadora do Centro de Investigação de Materiais, da FCT-UNL, um caminho fundamental que tem de ser percorrido pela ciência em Portugal

Elvira Fortunato foi a primeira investigadora portuguesa a conquistar, em 2008, uma bolsa internacional acima de 2,5 milhões de euros, atraindo a atenção para o que de melhor se faz na investigação em Portugal.

Durante anos a investigação produzida nas universidades e nos centros de investigação nacionais era conotada como conhecimento científico produzido de "cientistas para cientistas", pouco orientada para as empresas. Isso mudou?
Esse princípio elitista, no mau sentido, tem tendência a desaparecer. A sua existência ou não depende das áreas e do gosto que os investigadores têm pelo que fazem. No meu caso, gosto de trabalhar com empresas, pois o tipo de investigação que faço está mais próximo de aplicações concretas, como é o caso da eletrónica transparente ou do papel eletrónico.

O aspeto financeiro também será um aliciante...
Sim, o facto de desenvolvermos projetos com empresas também nos garante algum retorno financeiro, em especial para a contratação de recursos humanos, ou mesmo através da propriedade intelectual, que são sempre mais-valias. Temos de diversificar, e muito, as nossas fontes de financiamento se queremos manter a pole position.

O que é urgente mudar na investigação nacional e na sua forma de financiamento?
O que é urgente é não mudar as regras sempre que alguém tussa! Isto é, o sistema tem de ter estabilidade e consistência, associada a transparência, e dar-se algum tempo para se fazer o balanço das ações. Aí, sim, corrigir e implementar o que deve ser. Não podemos estar todos os anos a mudar as regras de atribuição de bolsas ou as tipologias dos concursos, ou não termos uma agenda científica com uma programação, por exemplo, a quatro/cinco anos. É importante que o sistema científico apresente estabilidade, mesmo que com poucos recursos financeiros, pelo menos sabemos com o que contar.

O que foi feito com as unidades de investigação em termos de financiamento está, em sua opinião, correto?
Está, pois os centros possuem um financiamento plurianual a seis anos e dessa forma podemos ter uma estratégia científica. Mas não chega, pois além dos recursos mais diretos temos os recursos humanos e esses também necessitam de estabilidade. Preconizo que no futuro se promovam contratos plurianuais de legislatura com as universidades, envolvendo as componentes pedagógica e científica e que se faça um acompanhamento dos mesmos e um balanço bienal. Esses contratos deveriam ser consignados, independentemente de quem está no poder, de forma a dar continuidade à ciência, que deve ser global e de interesse estratégico para todos.

Aproximar a investigação do tecido industrial é um caminho para a estabilidade. O que nos falta nessa área?
Para aproximar consistentemente a investigação do tecido industrial, acabando com tabus que dão lugar, por vezes, a algum afastamento, é preciso promover redes inteligentes de aplicação do saber (RIAS), não temáticas, mas multidisciplinares, que se entrecruzem na realização de projetos conjuntos e sejam capazes de responder a necessidades a médio e curto prazo das empresas e, em conjunto, responder aos desafios do futuro (que mercado e produtos os utilizadores necessitarão no futuro). É importante que o Estado dinamize as RIAS para que existam anos sabáticos de académicos em empresas para quem queira tomar conhecimento da realidade industrial e saber como usar esse conhecimento na formação e transmitir o seu saber às empresas (que o utilizarão na resolução dos seus problemas). Igualmente relevante é criar posições de consultores técnicos sabáticos, de membros de empresas em universidades, de forma a que se inteirem da investigação que aí se faz, interatuem com elas e percebam de que forma as empresas a que pertencem podem beneficiar desta interação. No limite, serem eles próprios os geradores/ inovadores de conceitos empresariais.

Este artigo é parte integrante da edição de outubro da Revista EXAME