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Angola e Brasil puxam pelas vendas da francesa Christofle

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Alberto Frias

Marca de artigos de mesa de luxo ganha clientes em Portugal com o serviço à medida. Hotelaria, angolanos e brasileiros impulsionam negócio

A Christofle está a regressar às origens. A marca francesa de cutelaria e serviços de mesa está a crescer, em particular em Portugal, com o negócio de peças únicas concebidas por encomenda, à semelhança do tipo de serviço que prestava às principais casas reais europeias no século XIX. Os artigos de decoração estão também em ascensão, em contraciclo com os faqueiros de prata e os serviços de mesa, que têm menos procura.

"Há dois tipos de segmentos a crescer: o dos clientes que vêm à loja comprar objetos de decoração e gifts (presentes) e o do topo da pirâmide, que são os clientes que têm mansões, iates ou hotéis, que procuram peças especiais e únicas", refere Olivier Fremont, presidente executivo (CEO) da Christofle, que veio a Lisboa para marcar presença no evento de comemoração dos 20 anos da loja, que até há três anos se denominava PavillonChristofle.

Turistas que procuram superluxo exclusivo e estrangeiros que vêm para Portugal para se instalarem na área da hotelaria ( MARCAS ) são os clientes que estão a impulsionar o negócio. "O volume de negócios de Portugal representa entre 2% e 4% das vendas globais da Christofle, mas estamos a crescer com este tipo de projeto por encomenda por catálogo ou com edições limitadas para decorações. Depois temos o serviço mais premium, totalmente exclusivo, com a conceção, por exemplo, de mesas de jantar, desde os talheres ao serviço, ou a criação de bares para barcos", explica Olivier Fremont.

O CEO da Christofle reconhece que "não há em Portugal 10 projetos por dia como estes, mas há cada vez mais estrangeiros a virem para Portugal desenvolver negócios e é um país com muitas ligações a ex-colónias, como Brasil e Angola". Neste caso, os projetos são encomendados em Portugal para serem implementados nos países de origem dos clientes. "Portugal é um hub para levar a nossa marca para outros países", remata. Por o foco estar neste segmento, a abertura de novas lojas não está no horizonte dos próximos dois anos.

A nível mundial, o negócio está estabilizado em 100 milhões de euros de faturação, distribuídos entre 55 lojas próprias e dois mil pontos de venda. Olivier Fremont garante que a marca que dirige tem mais peso na Europa e nos Estados Unidos, que são também os mercados onde está a investir mais. "Quase metade da nossa faturação é feita na Europa, 20% nos Estados Unidos, 15% no Médio Oriente, Dubai, Líbano e Arábia Saudita e o resto no Japão", diz.

Em relação ao tipo de artigos com mais peso no negócio, Olivier Fremont avança que os serviços de mesa (cutelaria e porcelanas) representam metade da faturação a nível mundial e a outra metade está dividida entre as peças de decoração e gifts e as joias, que é o segmento mais recente e com menos expressão. O executivo reconhece que as peças em prata não só estão a perder procura, por conta da mudança dos estilos de vida, como valor, devido à descida do preço desta matéria-prima, mas argumenta que não está no negócio da venda de prata. "Antigamente comprava-se uma peça Christofle a pensar num investimento para as gerações seguintes ganharem dinheiro num leilão. Hoje em dia ninguém compra uma peça de luxo a pensar em ganhar dinheiro com isso daqui a 200 anos", argumenta.

Reino Unido, Estados Unidos e o Sul da Europa (Portugal e Espanha) são os países com crescimento mais forte, enquanto França está a recomeçar a crescer, a reboque da coleção de joias na qual a Christofle tem investido no país. "Do ponto de vista do negócio, temos de nos focar. Temos lojas em tantos lugares, e quando temos tantos pontos de venda temos de nos focar. A minha prioridade é a Europa, onde já somos muito conhecidos, melhorando as propostas comerciais e de marketing, e depois os Estados Unidos e o Japão", revela Olivier Fremont, desvalorizando a presença na Ásia. "Temos duas lojas na China e para crescer lá vai demorar uns 10 anos, porque a marca é pouco conhecida. Se investir em França ou no Reino Unido, o crescimento é imediato", justifica.

Outro dos aspetos que pesa em desfavor da Christofle é a forma como os chineses se relacionam com os artigos de luxo. "Estão mais à procura de relógios e de peças em ouro do que de uma decoração especial e exclusiva. Procuram objetos para ostentarem na rua, não para terem em casa", considera Olivier Fremont, avançando que a marca que dirige quer trilhar outro caminho. "A minha visão é que o luxo será cada vez mais pelo lado do prazer e a forma como se vive e interage com o produto. Ter, por exemplo, uma peça de prata para colocar as chaves e as moedas quando se chega a casa, criando um ambiente de exclusividade. Luxo não é demonstrar o ego, é usufruir de um prazer, e a Christofle quer seguir esta visão", conclui.

CRONOLOGIA

1830
Charles Christofle, 25 anos, assume a liderança da pequena joalharia da família da sua mulher, que desde 1793 tinha negócios de transformação de prata

1845
Estabelece uma unidade de produção, onde desenvolve a técnica de galvanização

1855
Devido à qualidade dos produtos, torna-se fornecedora oficial da corte francesa e nos anos seguintes passa a estar presente nas principais cortes europeias.

1926
É admitida na Bolsa de Paris e, quatro anos depois, o negócio é consolidado na empresa Cristofle, SA.

1950
Abertura de uma subsidiária para a produção e distribuição em Buenos Aires.

1974
Abertura de uma subsidiária para a produção e distribuição no Brasil.

1980
Empresa arranca com a estratégia de diversificação para o negócio de relógios e joias com a marca Christofle.

1993
Maurizio Borletti assume a liderança do negócio, que perde vendas e lucros. Com 26 anos, adquire 55% da empresa e inicia a reestruturação: redução de efetivos e enfoque na produção de serviços de mesa.

1997
Christian Lacroix desenha um serviço de mesa para a Christofle. Dois anos depois, em 1999, a Christofle abre uma loja no Porto.

1998
Integração da Christofle numa nova holding sediada no Luxemburgo, a Luxury Brand Development, cujo objetivo é permitir ao grupo investir noutros negócios de luxo em paralelo.

2001
Christian Dior é designado comissário para os novos designs da marca.

2005
Aposta na criação de uma coleção de joias como forma de diversificar o negócio, devido à diminuição do consumo de talheres de prata.

2012
Abertura de uma nova loja em Nova Iorque, na Madison Avenue, com 1432 metros quadrados.

2014
Redução dos preços dos faqueiros de prata devido à descida do preço desta matéria-prima nos mercados internacionais. Um conjunto de talheres de cinco peças marcado a 1800 euros passa a custar 1400 euros.

2015
Comemoração dos 20 anos da loja de Lisboa no Hotel Dom Pedro, nas Amoreiras. Christofle apresenta coleção idealizada pelo designer Marcel Wanders na feira internacional Shangai Design 2015, na China.

Este artigo é parte integrante da edição de agosto da Revista EXAME