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Um mundo de incertezas

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Num contexto internacional difícil e imprevisível, é imperioso uma economia mais eficiente, robusta e resiliente a choques externos desfavoráveis, diz António Nogueira Leite

A recuperação da economia portuguesa tem ganho momentum ao longo deste ano, sendo possível que o crescimento real do produto se situe perto do limite superior do intervalo entre os 1,5% e os 2%. A manutenção deste desempenho é incerta, pois depende das políticas que o governo saído das próximas eleições venha a conduzir e também, em larga medida, da evolução de curto e médio prazo do contexto internacional.

Não é apenas a evolução da Zona Euro que deve ser tida em conta. O desenlace da crise grega e, sobretudo, o desfecho das eleições espanholas serão elementos determinantes na evolução da nossa zona monetária, no próximo ano e nos que imediatamente se lhe seguirão. Soluções radicais em Espanha ou uma evolução descontrolada da situação italiana tenderão a afetar muito mais a evolução da Zona Euro do que o episódio grego. É possível que da Grécia se tenham tirado lições claras sobre a necessidade de construir soluções internas viáveis (porque financiáveis) nos paí ses do sul. Não é, porém, dado adquirido. E enquanto a incerteza persistir mesmo que o desenlace venha a ser favorável toda a Zona Euro é afetada, incluindo, nomeadamente, Portugal.

Por outro lado, além das questões internas a vários Estados membros e à relação de difícil gestão entre os eleitorados do norte e as economias problemáticas do sul, há que encontrar e prosseguir um caminho tendente a melhorar e reforçar as instituições da União Monetária, nomeadamente consolidando a união bancária e enfrentando com pragmatismo as debilidades de uma união monetária de países independentes como a nossa. Tal implica uma liderança política na Europa que não se vislumbra de onde possa surgir mas que é imperiosa, sob pena de o modelo se desmoronar com prejuízos incalculáveis para todos.

Só que centrar as nossas preocupações no funcionamento da União Monetária, dada a crescente interligação das economias, é claramente redutor e incapaz de proporcionar uma adequada avaliação das contingências e riscos a que a economia portuguesa está sujeita. A globalização acentuou a concorrência transfronteiriça entre empresas, o que é particularmente importante no caso português, onde o crescimento económico tem sido catapultado pelo excelente comportamento do sector exportador. O nosso desempenho vai depender não só da evolução das economias para onde as empresas nacionais escoam a sua produção mas também, no caso das economias maiores, dos spillovers que o seu desempenho cause sobre terceiros. Nos anos que se seguiram à eclosão da crise financeira iniciada em 2007, perante as dificuldades dos Estados Unidos e da Europa, as economias emergentes assumiram um papel importante como motores do crescimento mundial. Países como a Índia, o Brasil, a Rússia e a China, ao evidenciarem crescimentos reais importantes, compensaram parte dos efeitos negativos da má performance económica dos países desenvolvidos. Nalguns casos, o efeito sobre a economia portuguesa foi ampliado pela importância que foram assumindo como destino para a produção nacional ou mesmo como fonte de capital para a economia portuguesa (infelizmente, as entradas de capital provenientes destes países pouco importaram para o acréscimo da capacidade produtiva nacional, uma vez que foram, essencialmente, tomadas de capital em empresas já existentes).

Com excepção da Índia, todas estas economias apresentam sinais claros de esgotamento, ou mesmo de inversão, do respectivo "modelo económico de crescimento". A fragilidade de muitas das suas instituições, a generalização de práticas inapropriadas, inimigas do crescimento e da acumulação saudável de riqueza que vão do proteccionismo à concertação anticoncorrencial e, no limite, ao roubo e à corrupção -, e, no caso da Rússia e do Brasil, a insistência em políticas económicas comprovadamente insustentáveis de estímulo permanente da procura agregada e da evolução dos preços das matérias-primas, sem correspondente aumento da produtividade e competitividade, não permitem continuar a apostar no crescimento dessas economias como compensação (mesmo se parcial) para a débil recuperação europeia e para a anunciada alteração da política monetária dos Estados Unidos.

Estou absolutamente convencido de que a evolução da economia internacional, de que a China é parte fundamental e incógnita crescente, já assume e continuará a assumir um papel determinante no nosso crescimento. Não quero com isto dizer que a política interna, nomeadamente a continuação de uma política orçamental responsável e o sucesso das muitas medidas estruturais que falta tomar ou, simplesmente, concretizar, seja irrelevante. Muito pelo contrário. Num contexto internacional difícil e verdadeiramente imprevisível, é imperioso que se construa uma economia mais eficiente, robusta e resiliente a choques externos desfavoráveis. Por outras palavras, a margem de erro que temos é ainda muito estreita. E assim vai continuar por muito tempo. E não apenas porque somos um país de agentes económicos endividados.

A começar pelo Estado que todos sustentamos.

Este artigo é parte integrante da edição de setembro da Revista EXAME