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Os têxteis que estão a mudar o mundo

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As empresas portuguesas estão a dar cartas nos têxteis técnicos, um universo avaliado pelo banco alemão Commerzbank em 230 mil milhões de euros. Neste negócio um simples fio é sempre mais do que aparenta e qualquer tecido pode esconder poderes funcionais quase milagrosos. A EXAME de setembro apresenta-lhe dez empresas nacionais que competem ao mais alto nível neste sector.

O que têm em comum Nelson Évora, Michael Phelps e Usain Bolt além das medalhas e recordes conquistados como campeões do mundo ou olímpicos? O triatleta português, o nadador norte-americano e o velocista jamaicano, conhecido como “o homem mais rápido do mundo”, chegaram ao pódio das grandes competições vestidos com têxteis de alta tecnicidade made in Portugal.
São apenas três histórias que ajudam a mostrar como as empresas portuguesas estão a triunfar no admirável mundo novo dos têxteis técnicos, um universo avaliado pelo banco alemão Commerzbank em 230 mil milhões de euros, onde um simples fio é sempre mais do que aparenta e qualquer tecido pode esconder poderes funcionais quase milagrosos.
“A expectativa é de que esta área dos têxteis de alta tecnicidade venha a ter um crescimento exponencial pelas aplicações no vestuário clássico e, em especial, no desporto”, sublinha Paulo Vaz, diretor-geral da ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, que já viu empresas como a LMA, com 40 trabalhadores e vendas de sete milhões de euros, vestir Usain Bolt para a vitória e recorde olímpico dos 100 metros, em Londres.
Como? Com uma camisola confecionada na P&R Têxteis, em Barcelos, com uma malha técnica de alta performance desenvolvida na LMA, de forma a permitir a transmissão de ar, e uma solução final mais fina e leve, confortável, de alta respirabilidade, pronta a fazer a gestão da humidade do corpo, mas também com propriedades antibacterianas e uma função termorreguladora, através de produtos encapsulados que passam ao estado líquido para arrefecer o corpo quando este aquece e se tornam sólidos, para o aquecer, quando fica frio.
Nesta empresa, habituada a subir ao pódio das grandes competições internacionais, sete trabalhadores estão concentrados em atividades de investigação e desenvolvimento e 10% do volume de negócio são canalizados para a inovação. O foco é desenvolver malhas técnicas para diferentes segmentos, da moda ao desporto e ao vestuário de proteção. A equipa de Fórmula 1 da Red Bull 2015/2016 compete com malhas desenvolvidas na LMA para este efeito e no equipamento de Nelson Évora, campeão olímpico do triplo salto nas Olimpíadas de Pequim 2008, as malhas têm características idênticas às de Bolt, mas foram pensadas para acompanhar o impacto muscular do atleta através da compressão, com elevado nível de incorporação de lycra. As polícias da Alemanha e de Espanha também vestem malhas da LMA.
Entre os novos projetos em curso na empresa de Santo Tirso há malhas para mantas com fibras de alta performance e poderes de acumulação capazes de transformar o calor do corpo e da luz em radiações de infravermelhos que mantêm o corpo saudável e quente, malhas com fios condutores que permitem monitorizar o corpo humano e potenciar a captação das antenas de telemóveis e camadas têxteis para uso em equipamento de proteção de utilizadores de motosserras.

No pódio da fileira têxtil
Manuel Serrão, administrador executivo da Selectiva Moda, uma associação vocacionada para apoiar a internacionalização das empresas têxteis nacionais, não tem dúvidas de que “esta é a área com maior potencial de crescimento da fileira, seja pela via da incorporação de tecnologia e reforço da competitividade, seja pela diversidade de sectores visados”. Além do mais, acrescenta Serrão, “através dos têxteis técnicos, as empresas lusas podem aproveitar o reconhecimento do know how português contornando a questão da marca, que neste tipo de produtos é menos relevante do que na moda”.
Para a Petratex, o cruzamento made in Portugal das mais modernas tecnologias com a velha indústria é um caminho que vale ouro olímpico já há alguns anos. A prová-lo, apresenta a sua patente Nosew, uma solução sem costuras que permite construir as peças de roupa por fusão, aplicando cola, pressão e temperatura em vestuário ou equipamento desportivo, como o fato de natação LZR Racer.
Desenvolvido em Paços de Ferreira, numa parceria da Petratex com a marca Speedo, este fato ajudou o norte-americano Michael Phelps a bater sete recordes do mundo e a nadar oito vezes para a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. Num desempenho que levou o nadador a escrever uma carta de agradecimento à Petratex e convenceu a revista Time a escolher o LZR como uma das invenções do ano.
Ao primeiro olhar, até poderá parecer um fato de natação normal, mas o LZR revela-se um equipamento à medida de um campeão, sem costuras, para reduzir o efeito de arrasto, construído com uma cinta, que ajuda os nadadores a manterem uma postura otimizada dentro de água, além de um acabamento para repelir a água e reforços num material à base de poliuretano e silicone para comprimir o peito, barriga e coxas, as zonas do corpo com mais massas oscilantes.

70% estão por inventar
A percentagem pode surpreender, mas mostra a dimensão do desafio que as empresas têm pela frente: “Mais de 70% dos materiais e aplicações que farão o amanhã desta atividade (têxtil) estão ainda por inventar”, diz Paulo Vaz, citando estudos internacionais sobre o sector.
Na verdade, falar de têxteis técnicos ou de têxteis de alta tecnicidade significa, cada vez mais, falar de nanotecnologia e de microcápsulas, de química, de física, de eletrónica que se pode costurar, de engenharia de materiais. Significa falar de roupa e de tecidos, mas também da indústria automóvel e aeroespacial, da construção, de saúde, de agricultura, de ambiente. A Alemanha, o maior produtor e exportador de têxteis da Europa, tem, aqui, 40% das suas vendas, muito por força dos materiais usados para fazer os painéis automóveis, as próteses médicas ou as asas dos aviões.
Em Portugal, estas áreas não estão esquecidas. A Coindu vai produzir os interiores do AudiQ7, a comercializar pela Audi em 2016. A TMG Automotiv é um dos fornecedores dos modelos i3 e i8 da BMW, a Copo Têxtil equipa os modelos Passat e Sharan e Alhambra da VW. A ERT tem no novo Jaguar XE um dos seus próximos projetos.
“Temos empresas portuguesas na liderança do que se faz nesta área”, garante João Gomes, diretor do departamento de materiais inteligentes do CeNTI – Centro de Nanotecnologia e Materiais Técnicos, Funcionais e Inteligentes, com vários projetos em mãos que prometem revolucionar o automóvel e uma medalha de ouro conquistada na última edição da FESPA, a maior feira mundial de materiais e tecnologias de impressão, na Alemanha, na categoria de tecnologia inovadora.
O CeNTI (ver texto “Estampar eletrónica em tecidos”) conquistou esta medalha de ouro com um projeto que envolve também a Simoldes e o CITEVE – Centro Tecnológico das Indústrias Têxtil e do Vestuário de Portugal e permitiu encontrar uma tecnologia de serigrafia digital para imprimir circuitos eletrónicos – sensores, atuadores (comandos) e iluminação – em peças automóveis em que o têxtil, mesmo quando não é visível, tem um papel fundamental no revestimento do plástico, “porque é translúcido, adaptado à transmissão da luz”, explica João Gomes.
Outro projeto do CeNTI na vanguarda da tecnologia automóvel é a integração de sistemas de aquecimento impressos nas estruturas dos automóveis, designadamente nos apoios dos braços. Porquê? Em vez de o aquecimento ser integrado a posteriori numa viatura, pode, assim, entrar já integrado nos têxteis, explica João Gomes, certo de que nos carros do futuro os ventiladores e o ar condicionado desaparecerão, porque “a climatização passa a estar embebida em todos as estruturas e materiais do carro, para ser feita de forma inteligente.”

Um sector subavaliado
Mas para lá do carro do futuro, o crescimento do negócio dos têxteis técnicos em Portugal passa, naturalmente, pelo vestuário, os tecidos e as malhas que a indústria nacional sempre fez. A prová-lo, as empresas portuguesas apresentaram-se na última edição da Techtextil, a maior feira de têxteis-lar do mundo, com muitas armas na bagagem. Agora, as meias escondem chips para manterem os pés quentes, a uma temperatura constante, as cortinas iluminam-se, os edredões tornam-se interativos, prontos a saudar-nos com mensagens calorosas quando a luz entra no quarto, a roupa de desporto ajuda a potenciar a performance e o conforto dos atletas, as T-shirts libertam medicamentos na dose certa para a absorção cutânea e o design de um casaco incorpora painéis fotovoltaicos sem qualquer problema.
Do Vale do Ave à vizinhança da serra da Estrela, a batida dos teares ainda marca o ritmo do negócio, ao lado das máquinas de costura, mas para muitas empresas têxteis portuguesas o futuro joga-se cada vez mais no laboratório, porque a palavra chave para o sucesso é a inovação. O mote é levar a funcionalidade da roupa ao extremo, criar soluções cada vez mais finas e leves, com propriedades múltiplas, e, simultaneamente, dar gás às encomendas pela via da diferenciação, da oferta de produtos com valor acrescentado.
O peso exato deste segmento de negócio é ainda difícil de contabilizar, porque muito do que Portugal faz neste domínio continua a ser registado nas estatísticas oficiais como um produto tradicional. De acordo com os dados do INE – Instituto Nacional de Estatística, os têxteis técnicos abarcam a fabricação de cordoaria e redes, fabricação de não tecidos e respetivos artigos, exceto vestuário, e fabricação de têxteis para uso técnico e industrial. Juntas, estas três categorias valem 600 milhões de euros, o que equivale a 10% do volume de negócios do sector (6,4 mil milhões de euros).
Nas contas da ATP, o peso real dos têxteis de alta tecnicidade poderá duplicar facilmente estes números. “Nas nossas estimativas, 20% a 25% do volume de negócios do sector estarão já aqui.” E a percentagem poderá registar “um crescimento exponencial” nos próximos anos, para chegar ao final da década já nos 30%, antecipa o Plano Estratégico desenhado para a indústria têxtil no horizonte de 2020. “Será já uma percentagem próxima da média de indústrias desenvolvidas nesta área, como a Alemanha, com os seus 40%, mas ainda muito longe da realidade de países como a Finlândia, onde a quota dos têxteis de alta tecnicidade ronda 70%”, refere Paulo Vaz.
No Plano Estratégico do sector, os “têxteis técnicos e funcionais” são, assim, apontados como uma das oportunidades abertas à fileira no horizonte de 2020. A confirmar o otimismo da previsão, as exportações de têxteis técnicos (números oficiais) cresceram 10,8% no ano passado e, a avaliar pelas empresas contactadas pela EXAME, nos segmentos que ficam fora dos números oficiais a evolução manteve-se quase sempre na casa dos dois dígitos.

Na liderança mundial
É um caminho que obriga a um trabalho de colaboração entre empresas, centros tecnológicos e universidades como nunca houve no passado, para dar resposta às exigências dos diferentes projetos ao nível do investimento, mas também para viabilizar o cruzamento de competências, cada vez mais vital para o sucesso. E basta um colete de golfe para perceber como tudo isto se articula, como provou o CITEVE na Techtextil, ao apresentar um exemplar muito especial, com aquecimento integrado, alimentado por uma bateria ultraleve que pode ser carregada num computador, desenvolvido em parceria com as empresas Scoop e Fernando Valente.
Para muitos empresários do sector, não há dúvidas de que a curva ascendente dos têxteis portugueses, a evolução do produto na cadeia de valor, passa por aqui, por parcerias com estruturas como o CeNTI ou o CITEVE, com um dos melhores laboratórios do mundo na análise dos têxteis e reconhecido internacionalmente como um dos mais importantes núcleos mundiais de investigação e certificação deste tipo de têxteis.
Em muitas empresas, a base tradicional já abriu as portas à tecnicidade e acelerou o crescimento dos negócios. “Basta pensar nas cidades com grandes amplitudes térmicas, por exemplo, para perceber que faz sentido oferecer camisas e fatos climatizados, que têm a garantia de manter a temperatura do corpo constante”, sublinha Paulo Vaz, convicto de que os tecidos antistresse, resistentes à chama, capazes de matar bactérias, repelir mosquitos, libertar fragrâncias, esconder as nódoas, absorver a humidade, repelir a água, hidratar a pele, combater a celulite, gerir ou revelar a temperatura do corpo vieram para ficar.

DEZ CASOS DE SUCESSO

A. SAMPAIO & FILHOS

Na A. Sampaio & Filhos até a malha de aparência mais simples esconde virtudes termorreguladoras, ignífugas (não pegam fogo), de resistência, por vezes multifuncionais. “Estar um passo à frente é essencial, e a inovação está no nosso ADN”, diz Miguel Mendes, de 39 anos, chamado a dar a cara, ao lado do irmão João, pela empresa fundada pelo avô em 1947, agora líder ibérica na produção de malhas tricotadas em teares circulares.
A carteira de clientes desta fábrica de Santo Tirso vai das principais marcas de moda e de desporto internacionais a empresas multinacionais, exércitos e forças de segurança de Espanha a Madagáscar.
Com 200 trabalhadores e vendas de 20 milhões de euros, a empresa canaliza para a exportação quase metade da produção, distribuída por diferentes áreas, da saúde ao vestuário de proteção e ao sector automóvel. Os restantes 55% são absorvidos por confeções do Vale do Ave, fornecedoras de algumas das principais marcas mundiais.
No laboratório, todos os produtos são testados. Há malhas a passar por provas de encolhimento, rebentamento, elasticidade, e outras a rodar ao ritmo de duas mil voltas em 45 minutos, numa prova antiborboto. As coleções não esquecem o design, a cargo de um gabinete técnico, em Barcelona, as tendências e o diálogo com os clientes.
Habituada a investir centenas de milhares de euros por ano em equipamentos, a A. Sampaio & Filhos tem o exclusivo mundial para produtos simultaneamente termorreguladores e ignífugos, aos quais está a acrescentar novas propriedades, e já teve as suas malhas a vestir muitos campeões nos Jogos Olímpicos de Inverno.
Uma das suas soluções inovadoras introduz materiais cerâmicos na fibra sintética para refletir raios infravermelhos, de forma a ativar a microcirculação, reduzir a fadiga muscular e melhorar o desempenho desportivo. Outra oferece um poliéster aditivado que em condições de temperatura e humidade elevadas diminui a temperatura corporal um a dois graus. Mas há também uma malha com três camadas que reúne certificações de alta visibilidade, retardador de chama, proteção contra a eletricidade estática e arco elétrico [corrente elétrica que se propaga entre os elétrodos]. “É um produto único nas propriedades que combina e demorou ano e meio a desenvolver”, sublinha Miguel Mendes.

ARTEFITA

Nos aeroportos de Los Angeles e Frankfurt, nos camiões da Volvo, nos carrinhos de compras das lojas da Wal-Mart e Continente ou nos contentores dos correios franceses há fitas técnicas e cintas da Artefita, a empresa de Escariz, Arouca, que criou a marca própria Knot e chega a 24 países com soluções técnicas que garantem rigidez ou elasticidade, impermeabilidade, resistência ao fogo, propriedades antiderrapantes, refletoras ou, até, aromáticas.
Com 70 trabalhadores e um volume de negócios de cinco milhões de euros, 85% do qual obtidos no mercado externo, a Artefita cresceu 26% em 2014 e prevê vender mais 20% em 2015. “Estamos a conquistar novos clientes e novos mercados”, afirma Gonzaga Oliveira, diretor-geral da empresa, a trabalhar “muito próximo da capacidade esgotada”.
No ano em que celebra o vigésimo aniversário da Artefita, o gestor recorda que há uma década empregava 30 pessoas, vendia 1,5 milhões de euros e exportava 40% do que fazia. “Investir em soluções técnicas, organizar-nos por produtos e unidades de negócio para os diferentes segmentos do mercado, ajudou-nos a chegar até aqui”, diz o gestor, que acaba de investir 500 mil euros em equipamento e inovação.
“Há 10 anos, quando começámos a mostrar os nossos produtos na Techtextil, apresentavam-se na feira mais nove empresas produtoras de fitas. Há dois anos eram 31 empresas. Este ano encontrámos meia centena e muitas são alemãs, o que nos obriga a trabalhar sem parar, focados na inovação, satisfação do cliente, sustentabilidade do negócio.”
A flexibilidade e capacidade de personalizar a oferta é um trunfo das fitas de Arouca, que fecharam recentemente um contrato com os correios franceses no valor de um milhão de euros.
“A relação qualidade/preço é também decisiva sempre que vamos a jogo”, acrescenta Gonzaga Oliveira, que tem na Suécia, em França, em Inglaterra, nos EUA e na Alemanha os seus maiores mercados, soma três mil referências de produtos, divididos em oito unidades de negócio, dos transportes à logística, publicidade ou náutica, trabalha com a marca Arctic nas coberturas isotérmicas e faz fitas para os porta-bicicletas dos automóveis e cintas para cadeiras de bebés, automóveis ou atrelados.

CENTI

E se os circuitos eletrónicos pudessem ser simplesmente estampados em tecidos? É um conceito simples e inovador que o CeNTI – Centro de Nanotecnologia e Materiais Técnicos, Funcionais e Inteligentes tem vindo a trabalhar, em Famalicão, e já permitiu fazer impressão de eletrónica numa base de polímeros e de têxteis.
Criado em 2006 por três universidades e três centros tecnológicos, o CeNTI está habituado a trabalhar em projetos diferenciadores, como as meias prontas a libertar medicamentos, peúgas que fazem a monitorização do ritmo cardíaco, temperatura e número de passos, relva artificial capaz de reduzir a abrasão e melhorar o conforto térmico ou uma nova geração de fibras com três componentes, que associam três polímeros à mesma fibra.
A regra é trabalhar diretamente para as empresas, introduzindo tecnologia quase invisível na roupa e noutros objetos para aplicações em áreas como a aeronáutica e automóvel, proteção, saúde, bem-estar, construção e arquitetura, mas que pode ser traduzida em coisas simples, como uma camisola com um coração de Viana eletroluminescente, criada para emitir luz sempre que alguém se aproxima de quem a veste.
Na Techtextil, um dos demonstradores dos circuitos eletrónicos impressos pela equipa do CeNTI em polímeros e têxteis, apesar do seu formato discreto, semelhante a um marcador de livros, foi roubado.
O casaco preto e branco com painéis fotovoltaicos desenvolvido pelo CeNTI para a marca Vicri, para provar que tecnologia, moda e design são um triângulo viável, também desapareceu do espaço de exposição.
João Gomes, diretor do Departamento de Materiais Inteligentes do CeNTI, não comenta os furtos, mas explica que a aplicação de painéis fotovoltaicos no casaco em causa “permite obter a energia necessária para carregar o telemóvel ou armazenar dados, pode ser lavada facilmente com o casaco e demorou um ano e meio a desenvolver”.
Outra solução apresentada em Frankfurt permite integrar sensores de dióxido de carbono, monóxido de carbono e temperatura em casacos de bombeiro, resistentes ao fogo, e dar ao comandante da corporação uma aplicação móvel que controla 10 homens em tempo real, para avaliar ao segundo se os seus bombeiros correm perigo.

COLTEC

A partir de Guimarães, a Coltec apresenta-se ao mundo como líder nacional no fornecimento de serviços de laminação têxtil, colagens diretas, revestimentos com termoadesivos, revestimentos com autoadesivos e aplicação de filmes e membranas impermeáveis e respiráveis. Mas depois de ganhar visibilidade e clientes nesta área de têxteis técnicos, a empresa continua a procurar novos caminhos, com passagem pelas áreas da saúde, geriatria, desporto e associação da tecnologia à moda.
“Há muitos nichos de mercado a surgir. O cruzamento da tecnologia com a moda é uma das tendências, e nós queremos estar na tecnomoda, até pela proximidade geográfica ao coração da indústria têxtil portuguesa”, diz Paulo Neves, diretor-geral da empresa. As vendas refletem o esforço de diversificação. Com 35 trabalhadores, a Coltec registou, no ano passado, um volume de negócios recorde de cinco milhões de euros. “Em 2014 crescemos 15% e este ano esperamos voltar a crescer a dois dígitos”, diz o gestor.
As exportações diretas e indiretas absorvem 90% das vendas, numa rota alargada, da Europa ao Sri Lanka. “Temos diferentes tipos de membranas, que desenvolvemos de acordo com soluções específicas para cada cliente”, diz Paulo Neves, que incorpora nos seus processos de laminação acabamentos funcionais como a regulação térmica, proteção antibacteriana, proteção ao fogo, repelência a água e óleos e antimosquito.
Ser uma empresa de referência no desenvolvimento, produção e comercialização de tecidos e malhas laminados respiráveis e impermeáveis para têxteis-lar, vestuário técnico e outras aplicações significa “investir em contínuo”. A prová-lo estão os 600 mil euros aplicados nos últimos três anos em equipamento, mas também exemplos de produtos desenvolvidos à medida, como a membrana com propriedades de resistência à chama aplicada em T-shirts para bombeiros e trabalhadores de companhias petrolíferas ou o processo de colagem com certificado antichama usado numa malha de um cliente nipónico.
Entre as novidades que estão agora a ser apresentadas ao mercado, há um complexo laminado que pode ser esterilizado e usado em revestimentos de camas de hospitais, cadeiras de hemodiálise ou macas, mas também protetores de cama resistentes à chama, ou um produto com cinco camadas, respirável e de alta absorção, para a geriatria.
A nova vocação da “tecnomoda” traduz-se em soluções de contracolagem, colagem de espuma e membranas, estampagem de tecido de cortiça por sublimação, com películas que garantem maior resistência ou impermeabilidade. Para tornar visível o potencial criado, a empresa já fez um vestido ultraleve em cortiça dourada, graças a uma membrana de poliuretano respirável. No desporto, a Coltec marca presença em modalidades várias, da caça à pesca, esqui ou ciclismo, tendo desenvolvido uma capa transparente, com um peso reduzido a 80 gramas, que permite ver a publicidade no equipamento do desportista e é impermeável.

ENDUTEX

O processo de desenvolvimento interno demorou oito meses, mas o resultado obtido permite à Endutex enfrentar a concorrência mundial com uma nova solução de vestuário de proteção a preços competitivos. É um produto pensado para quem trabalha nos postos de eletricidade, com resistência ao arco voltaico e à chama, alta visibilidade (roupa que ajuda a tornar as pessoas visíveis), que vem responder diretamente a pedidos de clientes dos EUA e Canadá.
“Conseguimos uma economia de 50% face ao que já se faz nesta área, por isso a expectativa é massificar”, explica Vítor Magalhães Abreu, diretor comercial da empresa de Santo Tirso, confiante no novo artigo em PVC, recheado no interior a malha de poliéster, algodão e aramida. Inovar e encontrar novas soluções está no ADN da Endutex, que nasceu com uma linha de produção tradicional, em 1970, mas foi somando novas valências, especializando-se nos revestimentos em PVC e poliuretano. E entrou para o grupo restrito de fábricas mundiais com capacidade para produzir telas de cinco metros para impressão digital, continuando a investir em equipamentos para trabalhar novos produtos e entrando noutros segmentos do mercado de impressão digital para exteriores.
Na estratégia de crescimento da Endutex, habituada a exportar 85% do que produz, o mercado internacional é um foco natural. Tem unidades industriais em Portugal, onde emprega 209 pessoas e fatura 34 milhões de euros, e no Brasil, com 230 trabalhadores e 40 milhões de euros de volume de negócios (aqui está mais focada no calçado).
Há pouco apostou nos EUA, onde já tem instalações próprias. E, noutra frente, o grupo está a investir no turismo, na cadeia hoteleira Moov, com planos de 34 milhões de euros até 2017, em Portugal e no Brasil.

FARIA DA COSTA

A olho nu, a nova meia de lã, acrílico e coolmax (um fio funcional que facilita a respiração do pé) é igual a qualquer outra, mas a sua criação foi preparada em laboratório durante 36 meses, numa parceria da Faria da Costa com o Centro de Tecnologia Têxtil CITEVE, envolveu um investimento de 300 mil euros e está a ser patenteada, porque permite programar três níveis de temperatura diferentes e mantê-los entre 8 e 16 horas, em função do clima local.
Para isso, a meia integra um microchip encapsulado no pé e uma bateria elétrica semelhante à de um telemóvel, “mas pode ir a lavar à máquina”, sublinha Nuno Costa, diretor-geral da empresa de Barcelos, fundada pelo pai, Álvaro Costa, em 1988.
“É uma aposta na diferenciação e valorização do produto, porque a concorrência nos artigos básicos é feroz. Acreditamos obter, assim, também um maior reconhecimento para a nossa oferta de peúgas tradicionais”, explica o gestor, à espera de um crescimento de 10% a 15% nas vendas este ano, depois de faturar três milhões de euros em 2014, com as exportações a garantirem 95% deste valor.
As contas são fáceis. O preço médio de um par de meias à saída de fábrica é de 1,5 euros, mas o novo modelo de aquecimento WYFet – Warm your Feet, que propõe aquecer os pés dos clientes, vai passar os 50 euros e, no final do ano, estará à venda na Noruega a 250 euros. Poderá também calçar no curto prazo os militares indianos. “Nascemos a fazer peúgas tradicionais, mas quisemos inovar, ser mais competitivos”, justifica Nuno Costa.
Dos 75 trabalhadores da empresa, há sempre um grupo de 5 a 10 pessoas a trabalhar no gabinete de desenvolvimento de produto. Uma das suas missões é criar peúgas funcionais de desporto, prontas a oferecer mais conforto aos pés dos atletas e a combater a sazonalidade de um negócio assente nas meias de lã. Um dos mercados já conquistado neste segmento são os Estados Unidos.
A capacidade de produção de duas mil dúzias de peúgas por dia está a aumentar para as 2500 dúzias. Para isso a empresa investe este ano 250 mil euros. A experiência acumulada no trabalho com a lã e a flexibilidade interna da produção também estão a ser rentabilizadas através de novos produtos, como os cachecóis e os gorros, já à venda no Reino Unido.

LIPACO

Quando nasceu, em 1987, a Lipaco fazia simplesmente linhas de costura. Foi este o ponto de partida para a empresa lançar amarras, procurar produtos novos, com valor acrescentado e “outro tipo de margens”, assumir a internacionalização “como uma prioridade para crescer”.
Em 2009, a empresa não ficou imune à crise. Emagreceu, mas, em vez de desaparecer, “começou a pensar em alternativas”. “Apostámos na inovação, em criar novas funcionalidades para nos diferenciarmos da concorrência”, explica Jorge Pereira, agora à frente da empresa fundada pelo pai. A análise do mercado mostrou que “para competir era necessário deixar de depender da subcontratação e controlar prazos de entrega e a qualidade do produto final”, afirma. A opção foi investir 1,5 milhões de euros de capitais próprios para criar uma tinturaria, com capacidade para processar 100 toneladas de fio por mês, e uma unidade de acabamento de fios de poliamida. A capacidade de produção de fio texturizado (através de uma operação que permite dar volume às fibras de poliamida e poliéster) quintuplicou. Nas linhas de costura aumentou 25%.
Em Esposende, a empresa emprega 20 pessoas, um número que está agora a duplicar. O volume de negócios em 2014 cresceu 20%, para 1,5 milhões de euros, e as expectativas “são otimistas”, diz Jorge Pereira, a prever um crescimento de 100% em dois anos. As exportações, que representaram 20% das vendas em 2014, podem passar a ter uma quota de 50% já este ano.
Ser inovador, no caso da Lipaco, significa trabalhar com três laboratórios internos e com parcerias em Portugal e no estrangeiro. Significa também ter já 40% das vendas em produtos de valor acrescentado e dar acabamentos especiais a fios como o que foi usado nas meias que calçaram o futebolista argentino Lionel Messi no Mundial do Brasil, estar na área da saúde, nos colchões e edredões, nos equipamentos de segurança.
Uma das novas apostas é o IRR, um fio para a área militar que não é detetado por armas com infravermelhos. “Já se faziam tecidos que não eram detetados, mas não havia solução para as costuras. Apresentamos uma ao mercado, em resposta ao desafio direto de um cliente polaco com quem trabalhamos na área das tendas militares”, diz Jorge Pereira.

PENTEADORA

Em 2005, quando a Penteadora começou a interessar-se por diversificar negócios para a área dos têxteis técnicos, abordou a Outlast, conhecida pela tecnologia que protege os astronautas da NASA de variações de temperatura no espaço. “Nessa altura, os norte-americanos nem olharam para nós, mas este ano, na Techtextil [em Frankfurt], os nossos stands ficaram frente a frente”, comenta António Teixeira, diretor de vendas da empresa de Unhais da Serra, para provar que o mundo dos têxteis técnicos também está ao alcance de empresas mais habituadas a trabalhar soluções tradicionais.
Aos 85 anos, a Penteadora, do Grupo Paulo Oliveira, assumiu sem complexos o risco de juntar à sua coleção de tecidos de poliéster e lã para fatos uma nova vertente mais técnica, com o objetivo de ter outra área de negócios, diversificar a oferta ao vestuário de segurança para bombeiros, forças militares, seguranças privados e indústria, criando novos mercados.
“Decidimos marcar presença num segmento que tem estado em crescimento constante nos últimos 20 anos e, previsivelmente, continuará a crescer”, justifica António Teixeira.
Para isso, a direção da empresa estudou este subsector, foi a feiras, eventos, congressos, seminários, refletiu sobre a informação recolhida, e, em 2012, estreou-se no novo caminho, através de uma parceria com os franceses da Kermel, o único produtor de origem europeia de fibra meta-aramida, conhecida pelas suas características de resistência ao fogo.
Os primeiros tecidos técnicos produzidos nesta fábrica do concelho da Covilhã para fatos de proteção individual surgiram em 2014. Quinze tecidos estão certificados e quatro aguardam a certificação.
Num currículo que combina os segmentos da moda e das fardas, a Penteadora trabalha com clientes como a Euro Disney, GNR, Armani, Hugo Boss ou Tommy Hilfiger, produz tecidos com especificidades técnicas para fardas do exército, marinha, força aérea e fornece a empresa que confeciona os fatos dos trabalhadores da companhia aérea francesa Air France.
No novo patamar de tecnicidade, onde admite ter mais de 25% das vendas a médio prazo, uma das missões é vestir os bombeiros portugueses. “Estamos a trabalhar com empresas de confeção nacionais no desenvolvimento de um fato de combate ao fogo urbano para os bombeiros portugueses”, afirma António Teixeira.
O salto até os tecidos mais técnicos, onde a direção do grupo detetou uma janela de oportunidade para criar produtos de valor acrescentado, exigiu já um investimento de um milhão de euros, que poderá ser reforçado nos próximos anos, em função de novas necessidades e produtos.
No Grupo Paulo Oliveira (Penteadora, Paulo Oliveira e Tessimax), com 1200 trabalhadores e vendas de 70 milhões de euros, a têxtil emprega 380 pessoas e tem uma quota próxima de 33% no volume de negócios total. As exportações absorvem 98% das vendas e a capacidade diária de produção de tecido ronda 15 mil metros, o que equivale à confeção de quatro mil fatos.

SMART INOVATION

Os mosquitos entraram na mira da Smart Inovation de forma natural, numa estratégia triangular, que cruza inovação, têxteis e saúde. “Queríamos um projeto próprio, que trouxesse algo de novo. Pensámos nas doenças transmitidas por mosquitos, como a malária, dengue ou febre amarela, e, a partir daí, procurámos conquistar novas áreas de negócio”, explica José Peixoto, diretor executivo da empresa química de Barcelos.
O arranque dá-se em 2010, com a investigação de uma solução tecnológica que permite transportar princípios ativos e funcionalidades em diferentes materiais, envolveu um investimento de um milhão de euros (equipamento e trabalho de laboratório), entrou em fase de produção no final de 2014 e está a conquistar clientes pelo mundo. A ambição é faturar três milhões de euros em três anos e ter nas exportações 95% das vendas.
Na luta antimosquito, a tecnologia SI usa nanopartículas como suporte do repelente, num “produto não tóxico e biocompatível” para aplicar nos têxteis, mas também noutros materiais, das tintas e vernizes à cerâmica, papel ou relva artificial. Com capacidade instalada para produzir 100 toneladas por mês e vontade de incubar novas ideias, a Smart Inovation tem na Zippy, marca de roupa infantil da Sonae, um dos seus clientes, está a negociar o acesso ao consumidor final através de cadeias de distribuição e já trabalha com os mercados do Dubai, Cabo Verde, Egito e França. A África do Sul está também na sua mira.
O negócio, financiado com capitais próprios, tem uma equipa multidisciplinar, que junta o gestor José Peixoto com o investigador César Martins, dois médicos e uma professora de Marketing. Em carteira estão 20 produtos para atuar em várias frentes.

TÊXTEIS PENEDO

Na Têxteis Penedo a inovação técnica é “um cartão de visita diferenciador para ganhar notoriedade”, diz Xavier Leite, presidente da empresa vimaranense, quando apresenta as suas cortinas luminosas, em tons de azul e rosa, com flores e borboletas prontas a brilhar. Até a tocha na mão da Estátua da Liberdade pode ser facilmente acesa numa cortina através das novas soluções “made in Guimarães”, selecionadas como uma das inovações em destaque na Techtextil (em Frankfurt), entre propostas de mais de mil empresas presentes.
“Temos vindo a trabalhar no desenvolvimento de tecidos técnicos como estas cortinas e estamos a atrair as atenções do mercado”, refere o empresário.
Tecidas já com fibras óticas que depois levam LED para criar os efeitos desejados, as cortinas da Penedo podem ser ligadas à eletricidade, ter uma bateria ou até integrar painéis fotovoltaicos para serem autossustentáveis em termos de energia. A solução encontrada no âmbito do projeto Newlight, um trabalho de investigação e desenvolvimento que envolveu os centros tecnológicos CeNTI e CITEVE e a empresa de iluminação Castro, pode ter outras aplicações, da decoração ao desporto.
“Temos um cliente indiano interessado nesta solução para aplicar em tendas e um outro que quer forrar paredes assim”, sublinha o gestor, que investiu mais de um milhão de euros em equipamento e reforço da capacidade de produção nos últimos três anos.
Habituada a exportar 99% do que produz, a empresa garante nos EUA metade das suas vendas. Em 2013, o volume de negócios cresceu 15%, em 2014 subiu 7%, para os 10 milhões de euros, e em 2015 espera mais um salto de dois dígitos com um portefólio que combina roupa de cama, mesa, decoração e cobertores, a que pode juntar os felpos, através da subcontratação.
Há 25 anos, quando Xavier Leite comprou a empresa, a têxtil trabalhava apenas com clientes nacionais. Ele decidiu arriscar o salto internacional precisamente nos Estados Unidos, convicto de que “era o país certo para dar rapidamente projeção às vendas.” Começou a vender apenas colchas para um cliente norte-americano e hoje tem meia centena de clientes ativos no país. Dos 85 trabalhadores da empresa, cinco estão dedicados ao desenvolvimento de novos produtos, uma área considerada crucial para conquistar reconhecimento e estar no segmento alto do mercado.