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Evitar bancarrota custa €600 mil milhões

Cálculos de um economista da J.P.Morgan apontam para este montante para evitar o risco de uma vaga de defaults em série de vários membros da moeda única europeia

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

O número começou a rolar hoje de manhã nos media internacionais: €600 mil milhões - o equivalente ao plano de emergência lançado nos Estados Unidos para evitar o efeito sistémico da derrocada do Lehman Brothers em finais de 2008, que ficou conhecido pelo acrónimo TARP (Trouble Asset Relief Program).

O cálculo foi feito em Londres por David Mackie, economista-chefe, a nível europeu do J.P.Morgan. Representa 5% do PIB da União Europeia (em 2009).

Evitar um ébola financeiro



Esse será o custo de uma "almofada" de empréstimos bonificados que a zona euro deverá disponibilizar para evitar o risco de contágio de um "ébola" (o célebre vírus descoberto no rio do mesmo nome no Zaire em 1976) financeiro no terreno das dívidas soberanas de alguns dos seus membros mais vulneráveis. "Ébola" foi a imagem - tétrica - usada pelo chefe da OCDE, Angel Gurria.

Por seu lado, Dominique Strauss-Kahn, director geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), terá adiantado ontem em reuniões com deputados alemães - a pátria da maior resistência a um plano anti-bancarrota dentro da zona euro - que só 100 a 135 mil milhões de euros terão de estar em prontidão para o caso grego nos próximos três anos.

Não é fenómeno novo



O risco de defaults (incumprimentos da dívida soberana) em série não é novo na histórica económica - um vaga letal ocorreu no século XIX na Europa, envolvendo, na altura, Portugal, Espanha e a Grécia, como recordam os trabalhos de investigação recentes de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, a que o Expresso se tem referido.

O palavrão técnico - default - passou a entrar na conversa de almoço dos cidadãos, tal como os cds (credit default swaps) ou o rating (a notação do crédito). Uma trilogia de estranhas palavras inglesas que não largam as economias e que cada vez mais têm influência na vida do cidadão comum.

Depois do relatório do FMI da semana passada - e da exposição de um conjunto de indicadores macroeconómicos de "vulnerabilidade" - o desenho do espaço geográfico deste risco ficou confirmado na cabeça dos grandes investidores institucionais, com os famosos PIIGS (acrónimo humorístico pejorativo para o grupo Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) como alvo central.

Não pode espantar, por isso, o que é designado por ataque aos mercados de seguros sobre a dívida soberana (os tais cds), onde actuam os grandes investidores institucionais e todo o "sistema financeiro sombra" que especulam neste e noutros mercados (de acções, de commodities, de todo o tipo de veículos financeiros "derivados" e "sintéticos") onde haja oportunidade de maximização de ganhos para os seus portfólios.

No clube desses grandes investidores estão conhecidos hedge funds (que tiveram uma célebre reunião, baptizada de "idea dinner" a 8 de Fevereiro em Manhattan, Nova Iorque), poderosos fundos de pensões, braços financeiros no tal sistema "sombra" de bancos e outras instituições mais tradicionais.

Também as agências de notação de crédito, as tristemente famosas rating, funcionam como, um analista já lhes chamou, de megafone "pró-cíclico", ou seja dão indicações negativas ou positivas aos investidores no sentido de detectarem as janelas de oportunidade de maximização de rendas financeiras.

Contudo, a dinâmica destes mercados de expectativas sobre as dívidas soberanas e as dívidas de privados (nomeadamente bancos e seguradoras, que têm estado em foco, como os da Península Ibérica e os da Irlanda) não se guiam só pelos sinais das rating - mas, também, e em grande medida, pelo ruído político. Ou seja, pelos sinais políticos que são dados a partir dos países em risco e das entidades internacionais que se podem envolver na resolução dos problemas financeiros que vão emergindo.

E os sinais políticos são contraditórios, o que tem provocado a enorme volatilidade a que temos assistido na classificação do risco de default no caso dos quatro países europeus da zona euro: uma terça-feira negra de disparo do risco de bancarrota, seguida de uma quarta-feira com algum sobe e desce, e com um amanhecer hoje de nítida melhoria do clima (Grécia baixou para 3º lugar no clube do risco mundial, Portugal dança entre o 8º e o 9º lugares, e a Irlanda e Espanha viram os níveis de risco descer também alguns pontos percentuais, mas encontram-se numa situação muito volátil).

Os investidores estão "ensanduichados" entre o manifesto eleitoralismo da chanceler alemã Angela Merkel (com eleições a 9 de Maio num estado crucial para manter a sua maioria no parlamento de estados regionais da federação) e os sinais que são dados pelos líderes do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional, ou mesmo da OCDE e das estruturas da União Europeia. Até o presidente Obama terá dado algum conselho à chanceler alemã na conversa que terão tido ontem. Três semanas que poderão parecer os mais longos da história recente do euro (eleições na Renânia-Norte Vestefália a 9 de Maio; cimeira europeia a 10; limite de refinanciamento de uma parte da dívida grega a 19 e para Portugal a 20 e 21).

Mesmo Axel Weber, o presidente do Bundesbank, o banco central alemão, disse hoje ao jornal alemão Bild que era urgente a colocação em prática do "pacote" em direcção à Grécia. O temor da tal vaga "sistémica" de ébola de bancarrota paira sobre Berlim.

O resultado de todo este cenário político dentro da zona euro foi o impensável há um ano atrás - transformar uma crise política "periférica" (a descoberta de vigarices nas estatísticas gregas e de alegadas manipulações da dívida pública externa pela Goldman Sachs e pelo anterior governo de direita em Atenas substituído em eleições) num rastilho de uma vaga de near-defaults (quase bancarrotas, à beira de incumprimento, ou de reescalonamento ou reestruturação de dívidas soberanas) em série.