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Euro: missão difícil, mas não impossível

A Grécia foi ao mercado "testar" a confiança e sofreu um agravamento da probabilidade de bancarrota do país. Juntou-se a Irlanda, o ex-tigre celta, que viu, também, disparar o seu risco, ultrapassando o português. A zona euro sofreu novas ondas de choque aqui analisadas por Bill Witherell, economista-chefe da Cumberland Advisors.  

Foi, de novo, uma semana "quente" na zona euro em duas "periferias" distantes uma da outra. A Irlanda "descobriu" que o lixo tóxico do seu sistema financeiro monta a 81 mil milhões de euros, quase metade do seu PIB de um ano. Por outro lado, a Grécia realizou duas operações de financiamento da dívida que não correram bem.

O impacto desta turbulência nas duas "periferias" do euro preocupa Bill Witherell, economista-chefe à escala global da Cumberland Advisors, uma firma gestora de fundos à escala mundial. Bill considera o euro "adolescente" uma missão difícil, mas não impossível, e nesse campo desmente o prognóstico aziago de Milton Friedman, o "papa" do monetarismo.

P: O prognóstico de Milton Friedman, há cinco anos atrás, de que a zona euro não sobreviveria mais do que uma ou duas décadas, pois não tinha precedente histórico, está cada vez mais próximo de se concretizar, face ao que ocorreu com a crise grega?

R: Parece-me que a história, neste caso, estará errada. Mas não creio que a crise grega seja um problema temporário. Ela revelou, de facto, um problema fundamental - a falta de meios de coordenação de políticas económicas na zona euro. Julgo que os membros do euro acabarão por trabalhar estreitamente para reduzir o problema. Não será fácil nem rápido, mas a alternativa não é aceitável.

P: Mas a zona euro actual não será uma missão impossível em virtude da assimetria gritante entre os seus membros e do facto do próprio Banco Central Europeu ter funções limitadas?

R: É uma missão difícil, mas não impossível. É possível que um, ou mesmo vários membros acabem por decidir que a missão é demasiado difícil para eles e saiam. Mas, a meu ver, essas saídas não destruirão o euro.

P: Um Fundo Monetário Europeu (FME) é viável?

R: Viável é, não creio é que seja concretizável no futuro próximo. A proposta vai no sentido da necessidade de uma mais estreita cooperação nessa área, mas a forma dessa cooperação será provavelmente diferente.

P: A Estónia é o próximo país a aderir ao euro, já em 2011, segundo o plano de alargamento desta zona monetária. A entrada irá para a frente, ou o processo poderá ser parado?

R: Poderá haver hesitações, inclusive dos dois lados, mas creio que a Comissão Europeia manterá o objectivo.

P: Correm rumores na imprensa alemã de que Angela Merkel quer travar novos passos no processo de integração monetária. Fala-se mesmo de uma mudança de estratégia. A Alemanha pode dar-se ao luxo disso?

R: Não me admiraria que a Alemanha venha a resistir a deixar entrar mais economias fracas na zona euro. Mas nos mercados financeiros não há ainda informação de que tenha mudado de posição quanto ao essencial.

P: Poderemos regressar à paridade euro-dólar, algo que ocorreu na primeira fase do euro (entre Março de 1999 e Janeiro de 2000) e mais tarde entre Novembro de 2002 e Abril de 2003? Há muitos especuladores a apostarem nessa meta até final do ano.

R: O euro poderá reconquistar algum do terreno perdido desde o princípio do ano, mas esse ganho será limitado a meu ver. Eu antecipei que o dólar se fortaleceria este ano, mas não arrisco dizer que chegue à paridade com o euro. Acho inclusive que um euro menos revalorizado face ao dólar poderá proporcionar um ganho de competitividade cambial aos países exportadores da zona euro, num período em que o crescimento fora da zona euro está a ocorrer aceleradamente.

P: A zona euro poderá sofrer um abanão muito mais sério se algum "cisne negro" aparecer, como uma crise de confiança dos mercados financeiros em relação a Espanha, Itália ou Bélgica, ou até uma recaída na Irlanda? O mercado dos credit default swaps relativos à dívida soberana de Espanha, Irlanda e Itália, tem estado, de novo, esta semana, em alta...

R: Sim, isso será um desafio à zona euro muito maior do que o provocado pela Grécia. Mas, por definição, os "cisnes negros" não se antecipam - não são esperados. São imprevisíveis.

P: Talvez um "cisne cinzento", como Nassim Taleb, também, alvitra... Esses eventos extremos "cinzentos" são mais "modeláveis", diz ele.

R: Bom, quanto mais cedo as reformas necessárias forem feitas quer na zona euro (maior coordenação) quer, em termos orçamentais, a nível de cada país membro, mais resiliente será a zona euro face a esses "cisnes cinzentos" ou mesmo "negros".

P: Um problema sério no Reino Unido - a agência de notação S&P acaba de manter a sua perspectiva negativa sobre este país -, ainda que não seja membro da zona euro, poderá ter um impacto colateral sério na moeda única?

R: Uma economia inglesa fraca afectará as exportações da zona euro, tal como um enfraquecimento da libra. Não creio que os problemas do Reino Unido ajudem a zona euro.

P: Na última semana, fomos surpreendidos com novas nuvens cinzentas sobre a Irlanda. A probabilidade de incumprimento da dívida soberana aumentou de tal modo que ultrapassou a própria probabilidade de default relativa a Portugal. Que "cisne negro" apareceu?

R: Veja-se o que se está a passar com os bancos irlandeses. O ministro das Finanças irlandês divulgou a extensão dos problemas financeiros do sistema financeiro do país.

P: Também a probabilidade de default da Grécia voltou a disparar. Os mercados não acreditam na solução mista de Bruxelas ou estão a empurrar os gregos para os braços do FMI?

R: Recorde-se que a Moody's cortou a notação de bancos gregos. E, de acordo com o Financial Times, a mesma agência de rating teria dado uma notação negativa para quase 20 mil milhões de euros de operações financeiras estruturadas. Não me surpreende, por isso, a reacção desses mercados.