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Produção hidroelétrica em Portugal atinge recorde

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João Carlos Santos

Dados da REN indicam que o país teve o melhor primeiro semestre de sempre ao nível da produção de eletricidade a partir das barragens. No seu conjunto, as renováveis geraram cerca de 70% da produção elétrica do país até junho

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

O reforço de capacidade do sistema elétrico dos últimos anos, com o investimento em novas barragens, começa a ter resultados visíveis no sector energético: Portugal acaba de alcançar o mais elevado nível de produção hidroelétrica no período de janeiro a junho, segundo dados da REN - Redes Energéticas Nacionais.

No primeiro semestre o país gerou 12391 gigawatts hora (GWh) de energia hídrica, mais do dobro do verificado no ano passado (que tinha sido um ano particularmente seco). Mais precisamente, um crescimento de 105% em termos homólogos, de acordo com a REN.

A produção hidráulica equivaleu de janeiro a junho a 41% da produção total de eletricidade em Portugal. A segunda maior fonte foi a eólica, com 24%. Somando ainda os contributos de 4% da biomassa e de 1% da energia solar, as renováveis responderam por cerca de 70% da produção elétrica nacional no primeiro semestre.

Neste período a produção total (29.482 GWh) foi superior ao consumo do país (25.434 GWh), o que levou a um nível significativo de exportação de energia. O volume de eletricidade produzida a partir de renováveis equivaleu, até junho, a 86% do consumo em Portugal Continental.

A geração elétrica a partir do carvão sofreu uma queda de 30%, para 4510 GWh, enquanto as centrais de ciclo combinado a gás natural baixaram a produção 4%, para 3795 GWh.

A elevada disponibilidade de recursos renováveis levou o país no primeiro semestre a ter um saldo exportador equivalente a 17% do consumo nacional, que é também, segundo a REN, o mais elevado de sempre.

O complexo balanço de custos e benefícios das renováveis

Embora a elevada quota de energias renováveis tenha benefícios do ponto de vista ambiental (evitando as emissões de CO2 associadas à produção das centrais termoelétricas a carvão e gás) e económico (baixando o volume de importações de combustíveis fósseis), há também alguns desafios.

As renováveis tornam o sistema elétrico mais exposto à intermitência de recursos como o vento e o sol, o que exige uma capacidade técnica de gestão da rede que responda com grande rapidez à flutuação da produção renovável, implicando a existência de uma capacidade termoelétrica de suporte à rede pronta a entrar em operação.

Por outro lado, há um desafio económico associado ao custo das renováveis. No caso das eólicas e da energia solar, os produtores têm tarifas garantidas de venda da energia à rede com um custo médio para o sistema elétrico em torno de 100 euros por cada megawatt hora (MWh). Para este ano a ERSE estimou um custo médio de 98 euros por MWh para a produção do regime especial (PRE). Não só esse custo está acima do preço de referência a que a eletricidade é transacionada no mercado grossista ibérico (à data de hoje está nos 39 euros por MWh), como se trata também de um valor muito acima daquele a que Portugal vende o excedente de energia para Espanha.

Nos períodos em que as renováveis são por si só suficientes para cobrir a totalidade do consumo elétrico nacional o sistema vê-se obrigado a exportar energia para a rede espanhola, o que acontece quase sempre a preços abaixo dos valores de referência do mercado grossista. O que leva, tendencialmente, a que o diferencial entre o custo da energia renovável implícito nas tarifas garantidas aos produtores e o preço (mais baixo) a que a rede espanhola compra a energia de que Portugal não precisa acabe por ser suportado pelos consumidores do lado de cá da fronteira.

Apesar desse efeito negativo, a elevada quota de renováveis tem também um outro efeito positivo para o preço da energia elétrica: uma abundante percentagem de produção do regime especial (que tem prioridade na injeção de energia na rede) traduz-se numa diminuição do volume de energia que os comercializadores têm de adquirir no mercado grossista. Desse modo, ao satisfazer uma parte significativa da procura de energia no mercado ibérico, as renováveis contribuem para baixar o preço grossista de referência para a eletricidade.