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A mudança de centro da geopolítica do petróleo

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José Caria

No painel que inaugurou a sexta edição do Congresso da APED, a discussão sobre o impacto das novas formas de exploração de fontes de energia junto do consumidor esteve em destaque

Petróleo, geopolítica e consumidores estiveram no centro da primeira mesa redonda dos dois dias do 6.º Congresso da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição, que está a decorrer no Museu do Oriente, em Lisboa, evento que o Expresso apoia.

Com moderação do diretor-adjunto do semanário, Nicolau Santos, o debate centrou-se nas mudanças que as novas formas de exploração do "ouro negro" têm provocado nos habituais centros de decisão. António Costa Silva, presidente da Partex, garantiu que métodos como o fracking (o fraturamento hidráulico que possibilita a extração de combustíveis líquidos e gasosos do subsolo) e a produção de gás de xisto estão a dar de novo "poder aos EUA" e a retirar influência à OPEP. "É uma conjugação de grandes fatores que estão a reequilibrar os equilíbrios mundiais e nos quais pode estar parte da "solução para enfrentar os problemas energéticos vindouros." Perante o "desintegrar em direto do Médio Oriente", onde estão 70% das reservas mundiais de petróleo, as "rupturas tornam-se essenciais."

Estes meios tecnológicos para atingir novas reservas "só são possíveis em grandes potencias" na opinião de José Caleia Rodrigues, perito em geopolítica do petróleo, mas vão retirar-lhe o rótulo de "produto escasso" e poder enquanto "arma diplomática" de muitos países da OPEP, com tudo o que isso implica. Sobretudo quando até final desta década os EUA vão-se tornar de novo "autossuficientes energéticos" e competir neste campo com "Rússia e Arábia Saudita". Sem esquecer as "implicações ambientais" destes desenvolvimentos.

Para Miguel Monjardino, professor da Universidade Católica e especialista em relações internacionais, o "fluxo do dinheiro acaba sempre por mudar o fluxo do poder", e as grandes potências estão a competir por um "novo quadro jurídico internacional" que as beneficie. Quanto à produção de petróleo, seria "surpreendente se não continuasse a subir." Já Manuel Santos Vítor, advogado da PLMJ, considera haver menos motivação política "para a exploração de combustíveis fósseis na Europa" e que as renováveis ganham terreno, enquanto Paulo Carmona, presidente da Entidade Nacional para o Mercado dos Combustíveis, acha que "o maior risco geoestratégico é o preço dos combustíveis".

Consumidores e produtores

No lançamento do debate, o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros Luís Amado deixou no ar a pergunta: "Porque é que a economia mundial e europeia não cresce de forma mais sustentada em função de condições económicas excecionais" como "juros negativos e preços baixos de petróleo?" Referiu que numa altura em que o "mundo está mais ligado do que nunca" e "o poder está na mão de cada um" é um erro reduzir esta crise económica a algo "cíclico". Por isso pede-se um "quadro de planeamento estratégico mais exigente."

Aspetos com consequências para o consumidor, que está no centro deste congresso da APED, como lembrou o presidente da associação, Jorge Jordão, ao oferecer um contributo "para a modernização da economia portuguesa." Um repto correspondido pelo presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa que, numa mensagem vídeo, pediu sensibilidade para "aquilo que é português". Para ajudar "consumidores e produtores".