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REN corta em 39% o investimento previsto para a rede elétrica

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João Carlos Santos

A empresa reviu em baixa o plano de investimentos na eletricidade, estimando para os próximos três anos uma despesa na rede de 368 milhões de euros

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

A REN - Redes Energéticas Nacionais baixou em 39% a sua previsão de investimentos na rede elétrica nacional para o período de 2016 a 2018, segundo o plano proposto pela empresa ao Estado, e que entra agora em consulta pública através da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE).

Nos próximos três anos a empresa deverá investir na rede um total de 368 milhões de euros, valor que fica 39% abaixo do que a empresa previa para este mesmo período no seu anterior plano, que tinha sido apresentado em 2013.

De acordo com a empresa, o plano de investimento agora apresentado prevê ainda para o horizonte de 2020 um nível de despesa na rede elétrica que poupa 283 milhões de euros face ao valor que constava do anterior plano da empresa.

O plano agora divulgado pela ERSE para efeitos de consulta pública é um documento que traça as perspetivas de investimento que a REN tem para a próxima década (2016 a 2025) no âmbito da sua concessão para o transporte de eletricidade em Portugal. De dois em dois anos a empresa tem de atualizar perante a entidade concedente (o Estado português) o seu plano, de modo que o Governo possar aprovar ou não os investimentos planeados, já que eles influenciam as tarifas que serão pagas pelos consumidores de eletricidade.

REN quer investir em média 117 milhões por ano

Neste novo plano a REN propõe para a próxima década um investimento médio anual de 117 milhões de euros na rede elétrica. Mas a execução dessa despesa variará muito de ano para ano, como mostra a trajetória prevista, por exemplo, para o próximo triénio: em 2016 a REN prevê aplicar 116 milhões de euros, para 2017 projeta um investimento de 155 milhões e em 2018 deverá investir 97 milhões.

No seu plano a REN nota que os investimentos apresentados influenciam apenas uma pequena parte da estrutura de custos do sistema elétrico que se reflete nas tarifas pagas pelos consumidores finais. Segundo a REN, em 2015 a rubrica das tarifas relativas ao transporte e à gestão do sistema elétrico (que está na concessão da REN) representa 5,5% do preço médio da eletricidade em Portugal.

De resto, por cada euro que os portugueses pagam pela energia elétrica pouco mais de 20% cobrem os custos da distribuição e comercialização da eletricidade, 44,4% são o custo da energia propriamente dita e 30% são custos de interesse económico geral (que incluem custos decorrentes de medidas de política energética).

Para onde vai o dinheiro investido?

O plano revisto pela empresa presidida por Rodrigo Costa contempla investimentos em várias áreas. Olhando apenas para os primeiros cinco anos (2016 a 2020), a REN pretende investir 275 milhões de euros no "desenvolvimento estratégico" da rede, 133 milhões no "apoio à rede de distribuição" (que está concessionada à EDP Distribuição), 37 milhões nas interligações internacionais, 142 milhões na "gestão do fim da vida útil dos ativos" e ainda 20 milhões na "otimização do aumento territorial da rede".

No caso do desenvolvimento estratégico da rede, uma parte dos investimentos será canalizada para a ligação a projetos de geração de eletricidade offshore e a outros empreendimentos de energias renováveis (barragens, centrais solares e parques eólicos).

Na gestão do fim da vida útil dos ativos estão em causa essencialmente investimentos na infra-estrutura existente para que os equipamentos possam ser utilizados por mais anos sem pôr em causa a segurança da rede elétrica. Aqui trata-se, por exemplo, de reconstruir algumas subestações elétricas ou melhorar as instalações em que estão os transformadores.

Já a otimização territorial da rede prevê despesa para alterar ou ampliar o traçado da rede elétrica em zonas sensíveis, como o Alto Douro Vinhateiro, bem como fazer o enterro de algumas linhas aéreas de alta tensão nas zonas de Lisboa e do Porto.

Os investimentos poderão agravar as tarifas pagas pelos portugueses?

O anterior plano (apresentado em 2013) foi objeto, em 2014, de fortes críticas do regulador da energia, com a ERSE a manifestar a sua preocupação pelo peso que os investimentos sugeridos pela REN teriam nas tarifas de eletricidade a pagar por famílias e empresas nos próximos anos.

No novo plano a REN teve a preocupação de enfatizar os benefícios que, no seu entender, os investimentos terão no país ao nível sócio-económico. A REN avalia esses benefícios em 180 milhões de euros por ano. Como? A empresa inclui nesses ganhos a poupança em combustíveis fósseis decorrente do maior recurso às energias renováveis, potenciado pela existência de uma maior e melhor rede elétrica para transportar essa energia. Nas contas da REN estão também as poupanças pelo CO2 evitado com os projetos de energias limpas, bem como reduções de preços motivadas por maiores trocas de eletricidade com Espanha.

A REN também argumenta que o seu novo plano "contribui para uma desoneração dos preços da eletricidade", estimando uma redução de 1,7 a 5,7 euros por megawatt hora (MWh) dependendo dos cenários de procura considerados. Esta redução, explica a REN, resulta da recalendarização de alguns projetos que estavam previstos no plano apresentado em 2013.

O pressuposto da REN para calcular estes impactos é que o consumo de eletricidade em Portugal cresça na próxima década a um ritmo de 0,9% ao ano. Refira-se que nos últimos três anos a procura de eletricidade no país teve um decréscimo médio anual de 0,2%. Contudo, caso a procura de eletricidade no futuro não cresça tanto como a REN prevê, os investimentos da empresa poderão ter o efeito de agravar as tarifas pagas pelos portugueses.