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Deco preocupada com custos das interligações de energia na Europa

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A associação de defesa dos consumidores (DECO) quer saber quem vai pagar os investimentos nas redes que estão a ser defendidos pelos líderes políticos no âmbito do mercado europeu de energia

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

O vice-presidente da Comissão Europeia com o pelouro do projeto da União da Energia, Maros Sefcovic, esteve esta quinta-feira em Lisboa a defender a necessidade de maior interligação energética da Europa, mas o tema está longe de gerar apreciações consensuais. Vítor Machado, dirigente da associação Deco, está particularmente preocupado com o impacto que esses investimentos vão ter na fatura do consumidor.

“A grande preocupação dos consumidores é quem paga estas interligações e de que forma isso vai afetar a fatura”, referiu Vítor Machado numa conferência na Fundação Champalimaud, em Lisboa. “A União Europeia prevê investimentos de 200 mil milhões de euros [em infra-estruturas de energia em toda a Europa]. Quem vai pagar? Como se faz a repartição deste custo entre os consumidores?”, questionou o responsável da Deco.

O presidente da ERSE, Vítor Santos, assegurou que “há preocupações de que os custos destes investimentos tenham benefícios líquidos para os consumidores”, acrescentando que os investimentos em cada projeto de interligação serão repartidos entre os países diretamente envolvidos em cada Projeto de Interesse Comum (PIC) que se candidate a comparticipação comunitária.

O tema das interligações tem sido defendido pelo Governo português com os argumentos de que, por um lado, o país ganhará capacidade para exportar mais energia (e assim alimentar, por exemplo, investimentos em empreendimentos de energias renováveis) e, por outro lado, a Península Ibérica estará mais integrada com os restantes mercados de energia da Europa, alguns dos quais, como o francês, com preços mais baratos.

Na mesma conferência o presidente da APREN – Associação de Energias Renováveis, António Sá da Costa, sublinhou a necessidade de a União Europeia se preocupar com o estabelecimento de regras claras e duradouras no desenvolvimento do mercado energético comum, de forma a que os investidores consigam viabilizar os projetos com custos sustentáveis.

Segundo Sá da Costa, é a própria incerteza regulatória que pode minar os objetivos de redução de custos da energia pretendido pela Comissão Europeia. “O investimento que é feito no sector energético é feito a muito longo prazo. Como tal, precisa de previsibilidade sobre o que se vai passar”, afirmou o líder da APREN. “A incerteza vai traduzir-se num aumento de custos para o consumidor”, alertou Sá da Costa, lembrando que quanto mais dúvidas houver sobre a regulação, maior será o custo do capital para financiar os investimentos, o que se repercutirá no preço cobrado ao consumidor de energia.

Carlos Costa Pina, administrador da Galp, acrescentou, na conferência em Lisboa, que é importante saber como as novas infra-estruturas se irão repercutir nas faturas dos consumidores.

Rodrigo Costa, presidente da REN, lembrou, por seu turno, que em Portugal já está feita grande parte dos investimentos necessários para futuramente reforçar as ligações a Espanha e a França. “De 2007 a 2014 a REN investiu 200 milhões de euros só em projetos associados às interligações. E o impacto positivo destes investimentos anda à volta de 250 milhões de euros por ano”, frisou Rodrigo Costa, em alusão aos ganhos que Portugal teve pelo facto de, com maior ligação a Espanha, poder beneficiar de uma aproximação aos seus preços da energia e de uma maior concorrência entre operadores.

Carlos Costa Pina enfatizou ainda a vontade de ver a Europa dar mais atenção ao mercado do gás. “O gás natural não tem o mesmo nível de desenvolvimento e prioridades que a eletricidade teve nas opções políticas que estão a ser tomadas. Este é um tema que devia ser tratado”, notou o gestor.