Siga-nos

Perfil

Economia

The Economist

Três anos para salvar o euro

Dívida: O salvamento da Grécia foi uma maneira de ganhar tempo. Os governos da Europa têm de o usar com sabedoria.

Exclusivo Expresso/The Economist

Apesar de todas as suas promessas de firme oposição a subsidiar o salvamento da Grécia, a chanceler alemã Angela Merkel vacilou mal os mercados financeiros deram sinais de sério pânico. Em 11 de Abril, depois de os spreads da dívida grega terem disparado em alta e de surgirem os primeiros indícios de uma possível corrida aos bancos, os dirigentes da zona euro acordaram em pôr à disposição do atormentado Governo grego um máximo de 30 mil milhões de euros - em empréstimos a três anos, à taxa de juro de 5%. Não é barato mas é muito menos do que os investidores privados estavam a pedir. Acrescentem-se os 15 mil milhões de euros que o FMI deverá disponibilizar e a Grécia obteve garantias suficientes para cobrir as suas necessidades financeiras para 2010.

Significa isto que a crise da dívida grega acabou? Funcionários defendem que estes montantes são suficientes para proporcionar à Grécia a liquidez necessária para conseguir levar a cabo o ajustamento orçamental. Equipar a Grécia com uma 'bazuca' financeira de peso demorou algum tempo a conseguir, mas os europeus têm esperança de que uma demonstração de poder de fogo financeiro como esta seja suficiente para desencorajar ataques especulativos, ao dissipar a possibilidade de incumprimento por parte de Atenas.

Infelizmente, essa esperança não resiste a uma análise aprofundada. A operação de salvamento, que foi sem dúvida maior do que os mercados esperavam, apenas eliminou o risco de incumprimento em relação a este ano. A médio prazo, a Grécia ainda tem pela frente uma profunda crise de solvência. Qualquer pessoa que olhe com atenção para a dívida da Grécia e para as taxas de juro que o país está a pagar por ela poderá concluir que, a menos que haja uma recuperação súbita e forte do crescimento, a reestruturação da dívida grega continua a ser altamente provável. O pacote de salvação serviu apenas para ganhar tempo - três anos, na prática, para limitar as consequências adversas de um possível incumprimento da Grécia.

Números pouco prometedores

Comecemos pelos números. O panorama da dívida de médio prazo da Grécia é mais sombrio do que o seu Governo e a UE querem admitir. Os cálculos desta revista indicam que, mesmo com um ajustamento orçamental correspondente a 10% do PIB ao longo dos próximos cinco anos, a Grécia irá precisar de mais empréstimos oficiais, por mais tempo do que o actual pacote de resgate promete, ou, em alternativa, de "reestruturar" a sua dívida (ou seja, adiar o pagamento sobre alguns empréstimos ou reembolsar menos do que deve). Partindo de hipóteses optimistas, estimamos que, nos próximos anos, a Grécia irá precisar de 67 mil milhões de euros ou mais em empréstimos oficiais de longo prazo. Os seus encargos da dívida atingirão 150% do PIB em 2014, um nível só excedido pelo Japão. Se o crescimento for mais fraco do que se espera, ou se a Grécia não conseguir reduzir as despesas ou aumentar os impostos o suficiente, os números serão bastante piores.

Uma conclusão tão grave levanta a questão de saber se o salvamento desta semana faz algum sentido. Afinal, a história das crises da dívida dos mercados emergentes, em especial a da Argentina, em 2001, indica que, se os riscos de incumprimento forem esmagadores, é melhor resolver o assunto de imediato do que adiá-lo com pacotes de resgate quixotescos. Contudo, isto não se aplica no caso da Grécia, por duas razões que têm menos que ver com o país em si do que com o resto da zona euro. Em primeiro lugar, um incumprimento grego acarretaria o sério risco de despoletar crises de dívida em Portugal, Espanha e até em Itália, os outros países da zona euro afectados por uma combinação de grandes défices orçamentais, fracas perspectivas de crescimento e encargos da dívida elevados. A UE não tem capacidade suficiente para fazer frente a isso.

Em segundo lugar, neste momento, um incumprimento também teria efeitos catastróficos sobre o frágil sistema bancário europeu. Os bancos da zona euro detêm 120 mil milhões de euros de exposição à Grécia, dos quais calculamos que 70 mil milhões sejam de dívida soberana grega. Alguns bancos franceses e alemães deterão 40% deste total. Muitos bancos europeus poderiam pedir maior ajuda governamental, se perdessem muito na dívida grega. Na verdade, os montantes envolvidos poderiam facilmente ser superiores às contribuições alemã e francesa para os empréstimos que visam salvar a Grécia. E se o contágio arrastasse a Espanha e Portugal para uma crise, todo o sistema bancário europeu poderia implodir.

Não há tempo a perder

Esta perspectiva é suficientemente preocupante para justificar que se procure ganhar tempo através do salvamento da Grécia. Mas o resultado pode mudar rapidamente se esse tempo não for bem utilizado - pela Grécia e, mais ainda, por outros países da zona euro.

A lista de tarefas a cumprir pela Grécia é agora bem conhecida. Um país que passou anos a administrar mal e a prestar informações falsas sobre as suas finanças públicas tem de apertar drasticamente o cinto durante muito tempo. Para estimular a competitividade e o crescimento - e também para melhorar o orçamento - tem de adoptar alterações fiscais radicais e de fazer cortes nos salários do sector público e nas pensões de reforma. Um ajustamento ousado - que, diga-se em abono do Governo grego, já começou a ser feito - reduzirá o risco de a Grécia concluir, daqui a três anos, que a sua dívida é impagável.

Ainda assim, não é difícil imaginar situações em que os gregos podem pensar que o incumprimento seria a melhor solução. Por isso, as outras economias vulneráveis da zona euro também devem aproveitar os próximos anos para convencer os mercados de que não são como a Grécia - o que requer igualmente austeridade orçamental. Mais importantes ainda são, no entanto, as reformas estruturais para melhorar a competitividade e impulsionar o crescimento. Privados da opção de uma desvalorização da moeda, a única alternativa que resta a países como a Espanha, Portugal e Itália é restringir os custos da mão-de-obra e realizar reformas na vertente oferta que aumentem a produtividade, em especial liberalizando os mercados de trabalho. Essas reformas, que deveriam ter sido postas em prática há muito, são agora essenciais. Seria um erro os governantes de Espanha e de Itália partirem do princípio de que, se tiverem problemas, poderão ser salvos como a Grécia: nem a UE nem o FMI têm meios para o fazer.

Por outro lado, a lista de tarefas não existe apenas para o Sul da Europa. A Alemanha deve ajudar, esforçando-se por aumentar a procura interna. As autoridades reguladoras financeiras de todos os países devem pressionar os bancos para que saneiem os seus balanços e reforcem os seus capitais. O Banco Central Europeu (BCE) deve evitar incentivar os bancos a acumularem títulos da dívida grega, que depois poderiam apresentar ao BCE como garantia em troca de liquidez, oferecendo (discutivelmente) menos dinheiro por obrigações do Estado com notações de risco de crédito mais baixas. E os Governos devem começar a preparar um mecanismo para gestão das reestruturações da dívida soberana dentro da zona da moeda única.

Esta lista de tarefas é assustadoramente longa, e é por isso que alguns políticos europeus estarão a enganar-se a si próprios se pensarem que a crise grega ficou resolvida com a operação de salvamento desta semana. Como a Grécia era suficientemente pequena para ser salva, os políticos compraram um alívio temporário. Agora, terão de usar esse tempo com sabedoria.

(c)2010 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados. Em The Economist, traduzido por Fábrica do Texto para Impresa Publishing, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com