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Repensar significa diminuir

Automóvel. Reestruturar Detroit e as suas indústrias é duro mas desesperadamente necessário.

Exclusivo Expresso/The Economist

Em 23 de Março, os habitantes de Detroit acorreram em massa a um grande auditório situado no centro da cidade. O presidente da Assembleia Municipal, Charles Pugh, estava lá. Carol Goss, directora da Fundação Skillman, uma organização local de beneficência, estava lá. Bombeiros, repórteres e magotes de habitantes comuns de Detroit esgotaram os lugares. Dave Bing, o presidente da Câmara, ia proferir o seu primeiro discurso sobre o estado da cidade. Detroit estava ansiosa por conhecer a sua visão.

Detroit tem vindo a passar por um período sombrio, mesmo para os seus próprios padrões. No entanto, as duras realidades originaram uma reflexão radical. Pela primeira vez, estão a ser debatidas com seriedade algumas medidas drásticas, como planos para fechar dezenas de escolas, reduzir serviços e transformar a paisagem. Este discurso foi uma oportunidade para Dave Bing apontar o caminho do futuro.

De facto, Bing descreveu a sua visão mas, por enquanto, esta continua a ser indistinta. As tarefas mais urgentes são a criação de emprego, reduzir a criminalidade e limpar a confusão orçamental. Os seus planos a longo prazo são menos claros. Nas palavras do presidente, a cidade iria demolir este ano 3000 habitações e mais 7000 até ao final do seu mandato. Este seria apenas o primeiro passo de uma Detroit reinventada. Já há, porém, grupos locais a trabalharem em planos para mudanças profundas. A premissa de que partem seria, até aqui, politicamente impensável: antes de poder prosperar, Detroit terá de encolher. Dave Bing apoia este conceito mas não será fácil levá-lo à prática.

Durante anos, renovar Detroit significou dinamizar uma metrópole cheia de gente. Devido a uma série de acontecimentos devastadores, isso mudou. Já antes da crise, Detroit estava a definhar mas as execuções de hipotecas vieram enfraquecer as poucas zonas saudáveis da cidade: Rosedale Park, um bairro muito agradável da zona noroeste, tem agora casas de contraplacado ao lado das bonitas casas de tijolo. Entretanto, o colapso dos construtores de automóveis americanos contribuiu para elevar o desemprego para perto dos 30%. O desastre económico coincidiu com o caos político: em 2008, o presidente da Câmara em funções foi condenado em tribunal. Dave Bing, de 66 anos, antigo jogador de basquetebol convertido em homem de negócios, assumiu as funções em Maio último, antes de ganhar as eleições para um mandato completo, em Novembro. O défice orçamental já atingiu os 325 milhões de dólares (cerca de 241 milhões de euros).

Tudo isto levou a duas tomadas de consciência, que deveriam ter acontecido muito antes. Em primeiro lugar, Detroit precisa lançar as sementes de uma nova economia. Em segundo, a cidade já não consegue sustentar-se a si própria. A velha cidade terá de ser substituída por uma cidade nova e com menos coisas supérfluas.

O esforço para reduzir Detroit à dimensão correcta concentra-se nas escolas, na administração municipal e no uso dos solos. Tudo isto deveria ser analisado em conjunto mas, na prática, não é assim tão simples. No que se refere às escolas de Detroit houve grandes progressos. No último ano, o governador do Michigan nomeou um gestor provisório, Robert Bobb, para dirigir o sistema escolar de Detroit, em dificuldades. Este mês, Robert Bobb anunciou um pacote de reformas ousadas, incluindo o controlo pela presidência da Câmara e um plano geral que envolveria o encerramento de 45 escolas, ainda neste ano. O seu esforço valeu-lhe um processo em tribunal. As matrículas baixaram quase para metade, desde 2002.

Outros esforços para reduzir a administração municipal estão a avançar ainda mais devagar. Há muito que Dave Bing diz que quer consolidar os departamentos da administração em expansão mas os sindicatos resistem à iniciativa. A questão mais complexa é, contudo, o que fazer com a expansão da área urbana. A população da cidade é agora metade da existente em 1950, mas os limites da zona urbana incluem uma área equivalente às áreas combinadas de Manhattan, São Francisco e Boston. Um terço de Detroit está vazio: os espaços de construção estão ocupados por casas ardidas, pneus e sacos de plástico errantes. Ao longo dos anos, a cidade, algumas fundações e grupos comunitários gastaram dinheiro em muitos bairros sem uma estratégia definida. Agora, existe um consenso cada vez mais alargado no sentido de estruturar as áreas com viabilidade, em vez de tentar repovoar as piores.

Isto levanta diversas questões. Quais os bairros que devem ser salvos? O que vai acontecer aos habitantes dos bairros em declínio? Os habitantes de Detroit mostram-se cépticos em relação a coisas impostas do exterior: quem irá liderar a mudança e reunir o apoio necessário a esta?

Enquanto Dave Bing está virado para os problemas orçamentais, outros aproveitam para apresentar as suas ideias. Um grupo local, o Next Detroit Neighbourhood Initiative, tem um plano para investir em zonas como Rosedale Park. Uma coligação de organizações de desenvolvimento comunitário está a preparar o seu próprio plano de apoio aos bairros considerados viáveis e de transformação dos bairros problemáticos em quintas ou parques. Num exercício delicado, as organizações de beneficência tentam apresentar a sua própria agenda sem se substituir ao presidente da Câmara. A Fundação Kresge, sedeada nos subúrbios de Detroit, está a pagar a um consultor de nomeada para prestar aconselhamento ao departamento de planeamento da Câmara.

Mas é "o presidente da Câmara que deve liderar os trabalhos", explica Carol Goss, da Fundação Skillman. Ao contrário de muitos dos seus antecessores, Bing é extremamente franco. Reconhece que reduzir as dimensões de Detroit é uma necessidade dolorosa. O verdadeiro teste será, no entanto, ver se tem a tenacidade necessária para guiar esta cidade exausta até à sua próxima etapa.

(c)2010 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados. Em The Economist, traduzido por Fábrica do Texto para Impresa Publishing, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com