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Mudar o fardo

Estará a Grécia em condições de ser pressionada para reduzir o défice?

Orestis Panagiotou/EPA

Dívida A crise da Grécia é simplesmente um exemplo dos predadores a abaterem o elemento mais fraco do rebanho

Exclusivo Expresso/The Economist

Quando Hércules quis roubar as maçãs de ouro das Hespérides, propôs uma troca a Atlas, o titã que sustinha o céu. Hércules suportaria o peso durante um tempo se Atlas colhesse as maçãs que eram guardadas por um monstro de cem cabeças. Quando Atlas regressou, Hércules teve que o persuadir a reassumir o peso.

A história pode ser vista como uma analogia da crise da dívida. Numa tentativa para evitar o colapso económico, o sector público assumiu algum do peso da dívida do sector privado. Mas, a médio prazo, os governos devem persuadir o sector privado a ser novamente o motor do crescimento económico.

As notícias mais recentes têm sido bastante encorajadoras. Os índices dos directores de compras para Março apresentaram-se fortes em geral, o que indica que a economia global pode estar a gerar o seu próprio momento. A solidez recente dos preços das commodities, a subida de yields do mercado obrigacionista e a retoma continuada do mercado bolsista podem ser considerados sinais de que está em curso uma recuperação 'normal'. Não sendo provável que os bancos centrais na América, Europa e Japão subam as taxas de juro brevemente, os optimistas acreditam que a recuperação pode consolidar-se firmemente.

Contudo, concluir com sucesso uma nova transferência, agora de Hércules para Atlas, será, apesar de tudo, difícil. Os governos têm tradicionalmente conseguido assumir uma pesada carga de endividamento, porque os seus poderes fiscais e de cunhagem de moeda lhes conferem um descoberto imediato que não se encontra à disposição do sector privado. É difícil (embora não impossível) que os governos estejam sujeitos ao tipo de crise de liquidez que atingiu os bancos no Outono de 2008.

Não obstante, os mercados reagirão se sentirem que os governos assumiram uma carga demasiado grande. Na Grécia, o custo actual da dívida pública a longo prazo, de cerca de 7%, é simplesmente insustentável, considerando a taxa de crescimento provável do PIB nominal e o elevado rácio dívida/PIB, podendo ser necessário transferir a carga para outros governos. No entanto, podia argumentar-se que a crise da Grécia é simplesmente um exemplo dos predadores a abaterem o elemento mais fraco do rebanho.

A questão mais ampla que se põe é se os governos em geral estão em condições de ser pressionados para reduzir os respectivos défices. Sebastien Eisinger, do banco suíço Pictet, sugere que os governos estão numa corrida para reanimar as economias antes que os mercados percam a paciência com a extensão dos seus défices. Para os governos que perdem a corrida, o consequente endurecimento fiscal pode desencorajar a recuperação à nascença.

No caso de o sector público gastar menos, o sector privado tomará medidas para que a actividade e a produção cresçam? Há registo de um restabelecimento na emissão de obrigações societárias, mas o importantíssimo sector das pequenas empresas não parece disposto, ou capaz, de contrair empréstimos. O fim do mecanismo da Reserva Federal para aquisição de títulos garantidos por créditos hipotecários já conduziu a um salto nas taxas pagas pelos compradores de casa. A massa monetária em circulação está a contrair na zona euro e a aumentar muito lentamente nos Estados Unidos. Um documento recentemente apresentado por cinco importantes economistas concluiu que haveria uma "influência prevalecente, embora modesta, das condições financeiras em geral no crescimento económico durante o ano de 2010".

Dhaval Joshi, gestor de fundos especulativos (hedge-funds) da RAB Capital, refere que existe uma ligação estreita entre a actividade económica global e o valor do endividamento chinês e americano, embora com um desfasamento de nove meses. Com o Governo chinês a tentar agora regular mais vigorosamente a criação de crédito, aquela situação sugere a ocorrência de um abrandamento do crescimento global no fim de 2010 e início de 2011.

O problema com um estímulo keynesiano (ou mesmo monetário) é que pode tornar-se um vício. Os governos nunca consideram que a economia esteja suficientemente forte para o retirar. Mas como começa a campanha para as eleições britânicas, vale a pena lembrar que governos do passado foram eventualmente obrigados a mudar de rumo. Na década de 70, o então primeiro-ministro trabalhista, Jim Callaghan, declarou à conferência do seu partido: "Costumávamos pensar que podíamos 'gastar' uma saída da recessão e aumentar o emprego através da redução dos impostos e do aumento dos encargos do Estado. Digo-vos com toda a franqueza que essa opção já não existe e, se alguma vez existiu, apenas funcionou em cada ocasião, desde a guerra, através da injecção de uma maior dose de inflação na economia, sendo o passo seguinte um nível mais elevado de desemprego".

Desta vez, o problema pode não ser a inflação mas a indigestão do mercado causada pela pesada emissão de obrigações tanto pelos governos como pelas empresas.

O endividamento pode ser demasiado grande, mesmo para a combinação das forças de Hércules e de Atlas.

(c)2010 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados. Em The Economist, traduzido por Alice Stilwell para Impresa Publishing, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com