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The Economist

Haja esperança

Estados Unidos A tão necessária transição já começou na maior economia. Barack Obama podia fazer mais para ajudar.

Exclusivo Expresso/The Economist

As grandes tempestades e inundações têm tendência a alterar a paisagem. Quando as águas recuam, algumas das mudanças são óbvias: árvores arrancadas pela raiz, imóveis e outros bens danificados, estradas destruídas. Mais tarde são efectuadas outras alterações, se as pessoas procuram evitar uma repetição, edificando diques contra cheias ou reconstruindo noutros locais. Tal como no mundo físico, assim se passa no mundo económico. O dilúvio financeiro que desabou sobre a América passou e a recessão que causou, a pior desde a década de 30, está a diminuir. Prevê-se que este ano a economia norte-americana cresça cerca de 3%, após uma contracção de 2,4% registada em 2009. Os optimistas têm esperança que o emprego esteja finalmente a aumentar novamente. E a economia que emerge da recessão não é a mesma que submergiu, registando-se danos óbvios: elevado desemprego, milhões de hipotecas de habitações executadas e um enorme buraco nas finanças públicas. Menos óbvio é o "reajustamento" em curso: do consumo, habitação e dívida, às exportações, investimento e poupança. Conforme foi debatido no nosso 'relatório especial' desta semana, este reajustamento é altamente prometedor para os Estados Unidos e para o mundo, embora longe de estar assegurado, muito dependendo dos políticos - e não só dos políticos em Washington.

Há décadas que os Estados Unidos confiam na vontade de gastar dos seus consumidores, sustentada pelos empréstimos contraídos e pelo falso conforto das bolhas no preço dos activos. Agora os norte-americanos poupam mais e contraem menos empréstimos porque o colapso dos preços da habitação esgotou a sua riqueza. Os banqueiros e reguladores, que no passado proclamavam a democratização do crédito, agora racionam-no. As empresas, da General Electric ao Citigroup, que prosperaram com base na cultura consumista, agora reconsideram - e muitas vezes reduzem - os seus créditos. Os promotores imobiliários constroem casas mais pequenas, mais simples. A geografia do país está a mudar. A recessão abrandou o passo de corrida para passo de caracol. As pessoas mudam-se da Flórida para o Dakota do Norte. As execuções hipotecárias e as viagens diárias mais caras de casa para o trabalho tiraram de cena os subúrbios distantes, ou seja, os exúrbios.

O crédito mais caro e mais escasso não é a razão única. A energia, embora não tão assustadoramente cara quanto em 2008, também já não é barata. Os norte-americanos estão a preferir os automóveis aos SUV, os fornecedores de serviços públicos são advertidos para utilizarem mais energia renovável e a extracção dos depósitos nacionais de petróleo e gás, encarcerados nas profundezas do oceano ou em densas rochas, é de repente rentável. Se estas tendências continuarem (reconhecidamente um grande 'se'), os Estados Unidos poderão vir a importar em 2025 metade do petróleo que se calcularia ser provável importar há apenas cinco anos.

Os Estados Unidos da exportação

Sendo os consumidores obrigados a viver dentro das suas possibilidades, as empresas americanas terão de vender mais para o resto do mundo. Um empreendimento desta natureza poderá parecer difícil, mas com um dólar competitivo e um crescimento favorável nos outros países, o sector das exportações - no qual os Estados Unidos já sobressaem, como, por exemplo, na indústria transformadora de elevado valor e nos serviços - deverá ter um bom comportamento. O resultado será uma economia norte-americana mais equilibrada e, por conseguinte, uma economia global mais saudável. Ou deveria sê-lo. Mas a suavidade desta transição não pode ser tomada como certa. As decisões de políticas, tanto dentro como fora dos Estados Unidos, determinarão a medida em que este reajustamento será fácil ou difícil. Dito de forma mais crua, se os norte-americanos pouparem mais e gastarem menos enquanto os outros países grandes fazem o oposto, a economia mundial prosperará. Se os norte-americanos se tornarem mais prósperos e os estrangeiros não gastarem, o país estagnará.

As economias excedentárias a nível mundial têm sido impelidas pelo apetite dos consumidores norte-americanos em geral, dos automóveis aos equipamentos electrónicos, mobiliário e confecção. Se os Estados Unidos querem poupar e exportar mais, os países da Ásia emergente terão de contar mais com os seus próprios compradores e uns com os outros, o que significa alterar uma ideia que equaciona a saúde económica com substanciais excedentes comerciais, e também prenunciando uma superabundância de reformas microeconómicas para impulsionar os rendimentos dos trabalhadores asiáticos e para encorajar o consumo. É agora do interesse de todos instigar a China a rever o sistema da saúde, as pensões e o governo das empresas.

E, sim, um yuan mais forte aceleraria o reajustamento global. No entanto, também é perigoso para os Estados Unidos fazerem da moeda da China um fetiche. Impor tarifas bilaterais à China, como alguns democratas querem, para a castigar pelo pouco valor do yuan, dificilmente ajudaria a reajustar alguma coisa: os Estados Unidos simplesmente passariam a importar produtos de outras proveniências. E o custo em termos de proteccionismo e veneno diplomático seria terrível. Melhor será que o sr. Obama procure uma solução multilateral enquanto se concentra no reajustamento nacional.

Como florescer sem que os outros se importem

Dessa perspectiva, o imperativo macroeconómico em Washington é claro: um plano credível a médio prazo para reduzir o défice, o que evitaria o endurecimento prematuro e perigoso, enquanto acalmaria os mercados obrigacionistas o suficiente para controlar as taxas de juro a longo prazo. A combinação de uma política fiscal restritiva e taxas de juro baixas é normalmente a receita para uma moeda mais fraca.

Muitas reformas microeconómicas também poderiam contribuir para o reajustamento. Os Estados Unidos tributam de mais os rendimentos e o investimento e de menos o consumo. Por enquanto, a maioria das políticas do sr. Obama pioraram esta inclinação. A reforma dos cuidados de saúde aplica pela primeira vez uma retenção na fonte (para o Medicare) aos rendimentos dos investimentos. A sua Administração rejeitou um imposto relacionado com o teor em carbono do combustível. Também aumentou os subsídios, garantias e preferências para hipotecas, que contribuíram para fazer crescer a bolha da habitação. O Governo federal está agora por trás de 60% das hipotecas residenciais e parece aberto à ideia de criar uma alavanca permanentemente dilatada.

Em vez de reforçar estes preconceitos, Obama deveria eliminá-los. Desfazer-se dos benefícios fiscais à habitação ajudaria tanto a controlar o défice como a acelerar o reajustamento. O apoio à habitação deve ser direccionado aos proprietários que não conseguem facilmente mudar de emprego para zonas mais prometedoras do país porque o valor das suas casas é inferior ao da respectiva hipoteca. Ao ajudar as pessoas a reduzirem as suas dívidas hipotecárias, Obama deu um passo na direcção certa. A maior economia mundial iniciou um reajustamento com grande atraso. O consumo e a obtenção de empréstimos nos Estados Unidos já não podem ser o motor da economia norte-americana nem do mundo. Essa é a esperança. O receio é que os políticos em toda a parte sejam incapazes de lidar com as consequências.

(c)2010 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados. Em The Economist, traduzido por Alice Stilwell para Impresa Publishing, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com